Acompanhe nas redes sociais:

19 de Março de 2019

Outras Edições

Edição nº 1010 / 2019

22/02/2019 - 06:07:45

Ex-secretário quer prisão dos responsáveis pelo Caso Pinheiro

Ecologista relembra as pressões e ameaças de morte ao lutar contra instalação da Salgema em Maceió

José Fernando Martins - [email protected]
O ecologista José Geraldo Marques - Foto: Reprodução

Após vinte anos sem morar em Maceió, a volta do doutor em Ecologia José Geraldo Marques à capital alagoana foi turbulenta. Em seu segundo dia morando no bairro do Pinheiro, acordou assustado com os tremores de terra e um forte barulho. Hoje, Marques faz parte dos moradores que pretendem processar os responsáveis pela instabilidade do solo da região. 

Mas o ecologista aceita negociação com a Justiça: “Troco o valor da minha indenização pela prisão dos culpados”. O que ele não esperava com seu retorno a Maceió era o destino o colocar novamente em frente a um algoz de sua carreira: a petroquímica Salgema, atual Braskem. 

Em 1975, Marques presidia a Secretaria Executiva do Grupo de Controle da Poluição do Estado de Alagoas, que cuidava do meio ambiente, no primeiro governo Divaldo Suruagy, já falecido. O que seria uma oportunidade para colocar em prática sua luta em defesa da natureza se transformou em um pesadelo com perseguições, telefonemas anônimos e ameaças de morte. Fatos que o fizeram abandonar o cargo e assistir, como ele mesmo diz, a Salgema se instalar em Alagoas de maneira desenfreada, contra tudo e todos. 

“Fui convidado por Suruagy para comandar a secretaria, que existia apenas no papel. Eu, militante, vi com bons olhos o convite do governador em uma época que pouco se falava em preservação ao meio ambiente. Topei na hora, era um entusiasta. E caiu no meu colo, logo de cara, o caso Salgema”, contou ao Jornal EXTRA. 

A pasta contava com o secretário e dois ajudantes na parte técnica em uma pequena sala alojada na Secretaria de Estado de Saúde (Sesau). Preocupado com os impactos que poderiam ser causados à população e à natuereza, pela Salgema, o professor José Geraldo Marques fez estudos, cobrou pesquisas e apresentou relatórios. 

Toda argumentação embasada por sua formação foi posta em xeque por técnicos da empresa. E só teve certeza sobre com quem estava lidando ao ouvir, durante simpósio na reitoria da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), segundo ele, uma frase que o deixou boquiaberto: “É bom você saber que é mais fácil transferir a Capital  do que tirar a Salgema de Maceió”. A declaração de um diretor da indústria foi em tom de arrogância, relembra. 

As pressões contra seu trabalho aumentaram após a execução de seu pai, o ex-prefeito de Santana do Ipanema e ex-deputado Adeildo Nepomuceno Marques em 1978. O político da Arena, antigo partido que apoiava a ditadura militar, tinha bom relacionamento com Suruagy. Sem o pai, o ecologista se sentiu ainda mais inseguro no cargo estadual. 

“Começaram, primeiramente, com meu assassinato moral. Inventaram que eu era maluco, comunista”. À época, a principal acionista da Salgema era uma empresa suíça, que até certo ponto, era conversável. 

“Comecei a emitir pareceres contrários à empresa. O problema não era a extração do sal-gema e, sim, a instalação da fábrica em local inapropriado. Mas se negaram. Derrubaram dunas, tão importantes para o turismo e a estética de Maceió, da noite para o dia”. Após instalação da indústria na restinga do Sobral, a região que era um cartão postal de Maceió se transformou em um lugar de alto risco.

Outro episódio que marcou a luta de Marques contra a Salgema foi quando um pesquisador químico da empresa informou, também durante encontro, que desconhecia as substâncias que seriam produzidas pela mineradora. “Interrompi e disse uma lista de substâncias e suas possíveis consequências para a população. Foi quando comecei a receber telefonemas anônimos perguntando se estava querendo ser o próximo Tiradentes”. 

Considerado um mártir, Tiradentes lutou pela independência de Minas Gerais do domínio dos portugueses. Sua ideologia o condenou à forca, no Rio de Janeiro, em 21 de abril de 1792.

As ameaças continuaram passando a ser presenciais. Um dos casos foi quando um ex-secretário fez questão de mostrar uma arma dentro de uma pasta enquanto conversava com o ecologista. “Fiz uma carta em que me autodemitia. Informei ao governador que a partir daquela hora deixava de ser funcionário do governo de Alagoas”.

Agora, Marques acompanha atento os estudos sobre  o  bairro do Pinheiro. Não acredita que sejam falhas em placas tectônicas e lamenta que ainda não haja nenhum laudo preliminar sobre as causas dos tremores. 

José Geraldo Marques relembra a declaração do presidente Jair Bolsonaro de que o “afundamento” do Pinheiro seria devido à mineração. “Com certeza ele teve alguma informação privilegiada. Jamais falaria aquilo sem embasamento algum”. De maluco a possível vítima da Braskem, o ecologista só quer que os responsáveis sejam apontados. Uma reviravolta que demorou 40 anos para acontecer. 

Comentários

Curta no Facebook

Siga no Twitter

Jornal Extra nas redes sociais:
2i9multiagencia