Acompanhe nas redes sociais:

16 de Novembro de 2018

Outras Edições

Edição nº 985 / 2018

22/08/2018 - 10:02:09

Rir de quê?

Isaac Sandes Dias

Ligo o computador, abro a página inicial do meu provedor e está lá notícia de que youtuber compra jatinho e diz não à TV.

Espantado, me pergunto: como não ficariam pasmos os nossos grandes humoristas, a exemplo de Chico Anysio, Jô Soares, Golias, Ary Toledo, Costinha e tantos outros que viveram os grandes momentos do humorismo no Brasil. Não tenho notícia de que, qualquer um deles, tenha  chegado mais perto de um jatinho particular, a não ser, quiçá, como fretante em situações de emergência.

Ainda pasmo, procuro saber a fonte do riso e do humor que levou a esse espasmo de ostentação do noticiado youtuber.

Acesso o YouTube pra ver a causa e a fonte de tanto sucesso.  Deparo-me com um quase adolescente que a título de fazer humor produz vídeos que necessitam de cócegas para provocar meu riso. Me esforço pra rir e frustrado ao final me pergunto, rir do quê??

Sentindo-me incapaz do riso no momento, procuro material literário sobre o riso e me deparo com a obra de Georges Minois – História do Riso e do Escárnio - Minois, Georges, 1946 – tradução Maria Helena O. Ortiz Asumpção – São Paulo - Editora Unesp, 2003 e com um interessante trabalho sobre o riso, de Camila da Silva Alavarce, ALAVARCE, CS. A ironia e suas refrações: um estudo sobre a dissonância na paródia e no riso [online]. São Paulo: Editora UNESP; São Paulo: Cultura Acadêmica, 2009. 208 p. ISBN 978-85- 7983-025-9.

Nelas vejo que o tema do riso vem sendo tratado seriamente desde a antiguidade clássica até nossos tempos.

Platão, em A República e Filebo, entendia que o riso era um falso prazer, experimentado pelos medíocres, uma vez que afastava o homem da verdade.

Aristófanes usou e abusou do riso em suas comédias, principalmente em Lisístrata a Guerra dos Sexos, As Vespas e As Nuvens, onde ria até mesmo de Sócrates.

Aristóteles abordou o riso no Livro II da Poética, livro esse definitivamente perdido, cujo assunto serviu de tema para o livro O Nome da Rosa, de Humberto Eco. Entendia ele que o riso não significava nem dor, nem destruição e o via com específico do homem.

Daí, chegamos até Cícero que o utilizou como recurso retórico e, da mesma forma, Quintiliano.

Demócrito, intitulado o filósofo que ri, talvez tenha sido aquele que melhor o definiu e o usou, pois achava que o riso era fruto da insensatez humana e devia ser usado para o homem rir de si mesmo, frente à sua insignificância e desconhecimento de tudo.

Na Idade média, frente ao domínio da igreja, o riso passou a ser demonizado e a sofrer grande condenação e censura ética.

Do Renascimento aos tempos atuais, o riso foi tema abordado por Laurent Joubert, Thomas Hobbes, Kant, Bergson, Freud e Schopenhauer. Cada um fazendo sua análise dele de acordo com o momento e o contexto sociocultural de suas épocas.

Hoje, diante da constatação de que o riso ganhou novo status e conceito, me assombro com o caráter insípido e pueril que alcançou na mídia e redes sociais. Assombro-me mais ao identificar as causas que levaram ao repente de ostentação do jovem youtuber, são os vinte e cinco milhões de seguidores que, massificados pelas redes sociais, passaram a cultivar o riso midiático, o qual demonstra que, talvez entre todos os estudiosos do riso, o mais acertado foi Baudelaire, que afirmava que a força do riso estava em quem ri e não no objeto do riso, pois nada é cômico em si mesmo e que o riso cômico nasce da intenção maldosa daquele que ri.

Ou seja, não adianta me perguntar: rir do quê, uma vez que a força do riso despertado atualmente não se encontra no engraçado em si mesmo, mas sim na estultícia dos novos ridentes.

Comentários

Curta no Facebook

Siga no Twitter

Jornal Extra nas redes sociais:
2i9multiagencia