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21 de Setembro de 2018

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Edição nº 984 / 2018

14/08/2018 - 20:21:50

SAÚDE MENTAL

Des(honestidade): une des(une) pessoas?

O que tem a ver justiça, des(honestidade), Psicologia e Psicanálise? Tudo. Será ela – des(honestidade) - um comportamento aprendido ou pode ter um viés biológico? Será comportamento cultural, moral? Alguém pode ser honesto e desonesto ao mesmo tempo?

O caráter tem um significado de moral e a des(honestidade) é a formação do caráter, a obediência às regras e às leis. Ser honesto, com amplitude, é difícil? Será que é porque existem convenções sociais que nem sempre são reconhecidas como honestas?

A questão ou o ‘sintoma’ da des(honestidade) precisa ser questionado e entendido. Ou seja, ele representa um fato estrutural, muito amplo em que estão envolvidos não somente a formação de um determinado sujeito, mas sim, tudo que estiver relacionado a ele, desde a formação familiar até social, passando pela subjetiva.

Honestidade de Rui 

Nascido em 1849 e ingressado na Faculdade de Direito com apenas 17 anos, Rui Barbosa, que também foi jornalista e político, disse: “De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto”.

Não sofrer?

Está em “moda” o termo: “politicamente correto”. Politicamente correto!!!? Ou é correto ou é incorreto. Ou existe a palavra “impoliticamente” correto? O que significa politicamente correto? O politicamente tem alguma conotação que seja politicamente e outra não politicamente?

O termo significa dizer ou escrever palavras que não ofendam grupos minoritários, oprimidos, classe social, raça, gênero, orientação sexual, nacionalidade, enfim. E também pode ser usado como um termo “pejorativo”.

Enfim, essa polêmica do terno “politicamente correto” é apenas para ilustrar como a humanidade está escamoteando a des(honestidade) ao dizer ou ao escrever as palavras, ou seja, seria camuflar o que, realmente, quer se dizer.

Estamos sendo “impedidos” de expressar ou falar honestamente para não sofrer?

E quanto aos comportamentos? Ser honesto, entregar a carteira de alguém que deixou cair não é mais um comportamento honesto; é muito mais do que isso; é um comportamento “heroico”. Pois é, heroico. Heroico?

Sofrendo ...

Não estamos, sequer, sabendo dizer (ou se comportando) o que realmente deve ser dito; porque dizendo, realmente, o que se quer dizer, estaria dizendo aquilo que o outro não quer ouvir, e, para agradar (ou não sofrer) o outro e a mim mesmo (sic)  se diz  outra coisa que não quer se dizer e aí “ninguém sofre”. Será? Dizer, realmente, o que se quer dizer não seria a melhor forma de ser honesto consigo mesmo e com o outro?   

Para o psicanalista Jacques Lacan, as palavras vão perdendo os significados, ganhando novas significações (significantes). Para ele, o que mais importa é o significante. Ou seja, o que representa uma determinada palavra para o sujeito e não o que ela representa em si mesma (significado).

Exemplo: a felicidade para uma pessoa pode significar outra coisa totalmente diferente para uma segunda pessoa. Então, cada sujeito expressa o sofrimento/prazer dependendo de suas experiências, de suas vivências, de sua linguagem.

Ninguém, mas ninguém pode entender (psicólogo ou psicanalista) ou dizer (cliente ou analisando), exatamente, tudo sobre um sofrimento ou felicidade, mas pode-se nomear (cliente ou analisando), com palavras, um sofrimento ou uma felicidade.

Como?

A linguagem falada ou escrita não é, e nunca será uma expressão neutra. Ela está carregada de significantes; não tem escapatória. Basta uma boa observação para descobrir, nas entrelinhas, o que realmente quando alguém diz alguma coisa, principalmente quando repetida.

E o que significa essa repetição? Sendo um comportamento ou palavra, vai contornando a personalidade que a pessoa apresenta.

Daí a importância de interpretar e analisar os significantes e não apenas os significados. E a psicoterapia é caminho para que o sujeito possa nomear a dor e alivia-la.

Mas não é apenas isso. É preciso que o sujeito seja honesto consigo mesmo. E ser honesto não é só dizer a verdade; é também não omitir, não dissimular, não querer levar vantagem – numa fala ou num comportamento – sobre a outra pessoa, não mentir e não enganar.

Des(honestidade)          e o biológico

A boa notícia é que o cérebro pode mudar as informações, a cultura (de honestidade e de desonestidade) e os desafios cognitivos, que podem ser infinitos. O melhor é que ele pode ser reprogramado; ele tem condições de se transformar através da neuraplasticidade. Independentemente da cultura, honesta ou não.

Será que a desonestidade serve para autopreservação? De que? De quem? Será que a desonestidade está servindo para ‘equilibrar’ nossos desequilíbrios emocionais?

Honestamente...

Parece, está sendo mais difícil ser desonesto do que honesto, mas, acredito, a honestidade, tudo indica, é mais saudável, mesmo porque ser desonesto é uma desonestidade consigo mesmo. Por quê?

Afinal de contas somos seres racionais, ou não? Para que serve, então, a diferença entre um ser que tem consciência do que é desonesto e o que é honesto? Somos bombardeados de ações desonestas, sejam na relação na família, com amigos, colegas; no ambiente laboral, enfim.

Mas, honestamente falando é preciso que cada sujeito, na sua subjetividade, questione e avalie até que ponto a desonestidade é um instrumento de ‘felicidade’.

A desonestidade é um ‘sintoma’ contemporâneo mais intenso e mais frequente que em épocas anteriores? Não importa a resposta. Resta perguntar: ela une ou desune as pessoas?

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