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21 de Novembro de 2018

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Edição nº 984 / 2018

14/08/2018 - 20:08:35

Renan Filho mexe na ferida: a “traição” de Collor a Renan

nas Eleições de 1990 em alagoas três juízes eleitorais foram afastados por fraudarem votos

Odilon Rios Especial para o EXTRA
Collor e Renan em foto de dezembro de 1989, ainda comemorando a vitória do primeiro nas eleições presidenciais daquele ano

A entrada do senador Fernando Collor (PTC) na disputa ao Governo causou tanta indignação aos Calheiros que Renan Filho, ao lado do pai, na convenção do MDB, antes de chamar Collor de “traidor” e lançar uma saraivada de críticas ao seu opositor, mexeu em uma ferida que completa 28 anos.

Renan Filho lembrou do episódio, chamando Collor para o acerto de contas: a derrota do pai na disputa ao Governo de Alagoas, em 1990. O governador disse que aquela eleição foi uma “homérica traição”. E “dois anos depois”, o “traidor saiu escorraçado da Presidência da República”.

O “traidor”? Collor.

Foi em 17 de novembro de 1990 que Renan Calheiros, então deputado federal pelo PRN e líder do Governo na Câmara, anunciou seu rompimento político com Fernando Collor, então presidente da República, que assumira o cargo oito meses antes: 15 de março.

Motivo do rompimento: Collor não apoiou Renan na disputa ao Governo de Alagoas, mas Geraldo Bulhões, casado com Denilma Bulhões, prima de Rosane Collor, primeira-dama e esposa do presidente.

Renan escreveu uma carta de 35 linhas a Collor. Em um dos trechos, a ferida: “Entre tantos enganos, a minha maior decepção foi com a gravidade da omissão de Vossa Excelência diante da mais escandalosa fraude eleitoral da história política brasileira”.

A “escandalosa fraude eleitoral” aconteceu em Alagoas: títulos de eleitor falsos, pessoas presas, cestas básicas e roupas distribuídas em troca de voto, o voto carbono, correligionários postos como presidente de mesa, proibição de boca de urna. O voto comprado custava Cr$ 10 mil (R$ 0,003 em valores atuais).

O mercado da compra de votos era farto. Nesta época, a pobreza atingia 48 milhões de jovens no Brasil (o país tinha, na época, 58 milhões de jovens).

Renan e Geraldo Bulhões trocavam xingamentos nas ruas: “desavergonhado”, “desequilibrado mental”, “enganador”, “dorminhoco desconhecido”.

Uma eleição tão impressionante que, ao Jornal do Brasil, em 17/12/1990, o juiz Wilton Moreia da Silva desabafou: “Em 25 anos de Justiça Eleitoral, nunca vi nada parecido”. Três juízes foram afastados das funções, acusados de fraudarem votos.

Na Gazeta de Alagoas, em editorial de primeira página publicado em 18/11/1990 (um dia após o anúncio do rompimento), estava na manchete “A marca da ingratidão”. A resposta não vinha do presidente, mas do seu jornal, acusando Renan de ser “um político furta-cor, uma espécie de camaleão que veste as cores que lhe interessam no momento”.

TURNO AGITADO

O primeiro turno estava marcado para 3 de outubro, mas o resultado foi impugnado. Renan Calheiros apontava fraude em todas as urnas. A Justiça Eleitoral entendeu que sim, havia fraude, mas não em todas. O TSE anulou 55 mil votos, e determinou eleições suplementares em 117 urnas espalhadas na capital, mais duas em Flexeiras e todas em Jacaré dos Homens.

Data da eleição suplementar: 16 de dezembro.

Entre o primeiro turno anulado, em 3 de outubro, e as eleições suplementares de 16 de dezembro, Renan Calheiros passou de líder do Governo na Câmara dos Deputados a inimigo feroz de Collor, alimentando manchetes garrafais e diárias em todos os jornais, em ataques ao presidente.

E Collor evitou o bate-boca nas páginas, apesar de bastante provocado por Renan Calheiros. Devolveu as críticas numa frase, escrita em uma camisa com a qual estava vestido, e que entrou para a história: “O tempo é o senhor da razão”.

Renan dizia ter sido “vítima da maior traição da história de Alagoas”. Mandando o recado ao Palácio do Planalto: “Alagoas sabe de onde vem a traição”.

A traição vinha do gabinete de Collor, rifada pelo ex-tesoureiro da campanha presidencial, Paulo César Farias, pela primeira-dama, Rosane, e o governador Moacir Andrade, que era vice de Collor quando ele renunciou para disputar as eleições presidenciais.

Logo ao romper com o presidente, Renan acusou 3 deputados federais alagoanos de gastarem, cada um, dez milhões de dólares para se elegerem em 3 de outubro de 1990: Augusto Farias, Luiz Dantas e Vitório Malta - todos aliados de Collor.

Também atacava a política recessiva de Collor na área econômica e o arrocho salarial. “Eu aponto as contradições desse governo, que diz que o povo aprovou seu programa nas urnas. Ninguém aprovou nas urnas recessão, desemprego e arrocho salarial”.

Ao mesmo tempo em que atirava contra o Collor e todo o Governo, torpedeava Geraldo Bulhões, o GB. Durante a contagem dos votos (na época, a cédula era de papel), Denilma, mulher de GB, conhecida pelo pavio curto, acusou Renan de fraudar as eleições com o voto carbono. Calheiros pediu que ela provasse e o caso foi parar na Polícia Federal.

GB, por sua vez, acusava o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) de favorecer a eleição de Renan. Ele estava com hepatite e ficou a maior parte do tempo longe das ruas, tarefa assumida pela mulher Denilma.

Em 17 de dezembro, a apuração do primeiro turno indicava o embate entre Bulhões e Renan, no 2º turno. Renan buscava nacionalizar a disputa. Objetivo era abater GB e derrotar Collor. “Vou reunir todas as minhas forças e a minha garra para enfrentar e derrotar os governos estadual e federal”, disse Renan ao Jornal do Brasil, em 18/12/1990.

A estratégia duríssima não funcionou: Renan perdeu a eleição e sustenta, até hoje, que prevaleceu a fraude.

Fraude que Renan Filho fez questão de relembrar, como uma carta na manga, a ser usada no guia eleitoral.

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