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21 de Setembro de 2018

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Edição nº 984 / 2018

14/08/2018 - 19:58:06

JORGE OLIVEIRA

A Globo e a ética no jornalismo

JORGE OLIVEIRA

Vitória - O monopólio da comunicação no Brasil, dominado por uma igreja evangélica e por três famílias -  Marinho, Mesquita e Frias – é responsável pelo afunilamento do mercado de trabalho dos jornalistas nas últimas décadas. E para piorar a situação, o mundo globalizado e a era digital contribuem hoje decisivamente para encurtar o tempo de sobrevivência da imprensa escrita, provocando a demissão em massa de jornalistas e submetendo boa parte deles à politica editorial dos seus patrões, amordaçando-os de forma a aprisionar suas atitudes e opiniões.

Infelizmente foi o que podemos constatar no debate dos presidenciáveis da GloboNews, que culminou com o vexame da jornalista Miriam Leitão obrigada, pela direção da empresa, a ler, com um ponto no ouvido, como um ventríloquo, um editorial que respondia à pergunta maliciosa de Bolsonaro sobre se o Roberto Marinho, dono das Organizações Globo, era um ditador ou um democrata por ter apoiado a ditadura militar. 

Via-se claramente na tela uma jornalista constrangida quando repetia as palavras ditadas ao seu ouvido pelo chefe para responder a Bolsonaro. Percebia-se seu incômodo ao ser obrigada a explicar o inexplicável ao telespectador, pois é sabido de todos que o jornalista Roberto Marinho pôs a sua organização a serviço da ditadura militar e resistiu ao movimento das Diretas Já que pedia eleições livres no Brasil.

Não sabemos até que ponto, nós, jornalistas, devemos nos submeter à política editorial dos donos da mídia. Fica difícil julgar onde começa e termina a ética da profissão, quando sabemos que a categoria perdeu a sua legítima representação de classe com seus sindicatos, federação e associações – e até mesmo jornalistas -  envolvidos ideologicamente com partidos políticos. Parece-me, muito, que a ética começa a morrer com o tempo de casa do profissional na empresa, quando ele assimila e defende os propósitos do próprio patrão com receio de ficar fora do mercado de trabalho.

A Miriam Leitão está sendo criticada por colegas e telespectadores pelo fato de transmitir a Bolsonaro a posição da Organização Globo como se estivesse numa escola repetindo as primeiras lições da sua professora primária. Em alguns momentos a defendi aqui neste espaço por calúnias atiradas contra ela por jornalistas e críticos petistas, que a todo momento tentam apedrejá-la por suas posições anti-PT. Profissional competente e íntegra, dessa vez Miriam pisou na bola ao se submeter à truculência do seu chefe, que poderia ter exibido a resposta oficial da emissora em caracteres na tela depois que ela finalizasse o programa. Certamente a pouparia do vexame de contestar a provocação de Bolsonaro como marionete de um programa em que até então ela comandava.

Bagunça

Quanto aos debates com os candidatos, infelizmente o que se viu foi um amontoado de jornalistas se atropelando pela melhor posição na foto. Na verdade, o que seria uma série de entrevistas com os presidenciáveis virou um interrogatório policialesco do “salve-se quem puder”, uma coisa tosca em que o entrevistador queria ser mais importante do que o entrevistado. Um modelo que, francamente, não deu certo, pois, no final de tudo, ficamos sem saber o que a maioria dos candidatos pensa sobre o Brasil e quais são as suas propostas para um país melhor. Em compensação, resta-nos o consolo de saber como pensa cada um dos jornalistas do grupo que entrevistou os candidatos. Desinteressante para o telespectador, diga-se. 

Mercado

O mercado jornalístico está cada vez mais em queda. Esta semana mesmo, a Editora Abril fechou dezenas de revistas técnicas e demitiu centenas de jornalistas. A tendência é de que jornais e revistas continuem fechando, depois que as notícias impressas começaram a perder espaço para a mídia digital que divulga os fatos em tempo real, enquanto os periódicos publicam fatos com um dia de atraso e as revistas até uma semana depois.

É o fim

Aos poucos os jornais e as revistas vão desaparecendo por falta de leitores que migraram para as redes sociais e usam os celulares para se manterem ligados com o mundo. Além de receberem as informações, as redes sociais ainda servem seus usuários com imagens de vídeos e fotos. Dessa forma, as notícias dos jornais ficaram velhas, pois elas já chegam aos seus leitores como informações do dia anterior.

Decadência

Constata-se também as redações dos jornais vazias de jornalistas, pois a maioria passou a trabalhar com a rede social, onde estão os fatos em tempo real. Centenas de jornais no Brasil e no exterior fecharam suas portas, milhares de jornalistas estão desempregados. Os que não procuraram diversificar o trabalho, usando a rede social como instrumento de trabalho, passaram a ter dificuldades de sobrevivência. Enquanto isso, as universidades continuam despejando centenas de jornalistas no mercado de trabalho anualmente, e muitos desses sequer chegam a conhecer uma redação de jornal, uma coisa a caminho de virar museu.

Desleal

Muitas das críticas à jornalista na internet são pesadas. Mas uma delas, a do jornalista William Waack, é inoportuna. Diria até desleal contra a sua ex-colega de emissora. William, como todos sabem, também foi vítima da truculência da Globo ao ser demitido sob acusação de racismo. Deixou a TV depois de fazer um acordo de R$ 3 milhões para não sair atirando, uma espécie de cala boca que o silencia até hoje de falar sobre os reais motivos do seu afastamento. Pois bem, o próprio William, escorraçado pelo sistema global até bem pouco tempo, disse no seu blog que não está submetido ao ponto – uma espécie de receptor que fica grudado à orelha do apresentador para orientá-lo durante o programa – quando fala ou escreve atualmente.

Fidelidade

William quis ironizar a Miriam Leitão, diminui-la profissionalmente, expor a jornalista como se ela não tivesse autonomia para responder ao seu entrevistado. Ora, essa crítica vem de onde menos se espera. O jornalista esquece os seus 21 anos dedicados com exclusividade às Organizações Globo, submetido, como tantos outros profissionais, aos editoriais do grupo que lia com frequência com ponto ou sem ponto quando a emissora queria defender os seus interesses. Portanto, quando ele aponta o estilingue em direção à ex-colega, no fundo quer responsabilizá-la por uma iniciativa que não foi dela, mas dos patrões que William serviu com fidelidade canina até ser demitido. 


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