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20 de Novembro de 2018

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Edição nº 982 / 2018

31/07/2018 - 10:03:49

Jorge Oliveira começa a filmar este ano

História do escritor Rubem Braga é o tema da mais nova obra do cineasta alagoano

Assessoria
Jorge Oliveira no set de filmagem do Olhar de Nise, seu último filme, ainda disponível no NOW, da Net

Até o final deste ano o jornalista e cineasta Jorge Oliveira começa a rodar o seu terceiro longa-metragem, O Voo da Borboleta Amarela, que vai contar a história do cronista e escritor capixaba Rubem Braga. As locações, já marcadas, serão em Cachoeiro do Itapemirim, onde ele nasceu, no Rio de Janeiro, onde passou mais tempo da sua vida, e em Braga, no Norte de Portugal, de onde veio a família para o Brasil em 1870.

Jorge Oliveira volta ao set de filmagem depois de Olhar de Nise, o documentário que dirigiu sobre a psiquiatra alagoana Nise da Silveira aclamado pela crítica no Brasil e no exterior, detentor de inúmeros prêmios que consagraram o cineasta alagoano que já coleciona mais de 20 prêmios com seus filmes. As notícias sobre o novo projeto do diretor já começam a se espalhar pelos jornais de grande circulação do país, a exemplo do Correio Braziliense (nota nesta página). 

O cineasta se baseou no seu próprio argumento para se inspirar no roteiro do filme, com previsão para ser concluído até o final de 2019, quando então deve ir para os festivais de cinema e exibição no circuito comercial, a exemplo de Olhar de Nise que acabou de ser apresentado na RTP2 de Portugal para os países de língua portuguesa.

O argumento

A vida do escritor Rubem Braga será abordada neste documentário sob três aspectos: o homem (perfil), o cronista (texto) e o jornalista (ação). Sua história neste filme será narrada em ordem cronológica inversa, a partir da sua morte em 1999, aos 77 anos, até os 15 quando escreveu Lágrima, a sua primeira crônica, publicada em um jornal da escola. 

Braga nunca deixou de ser um homem do interior. Ainda que tenha vivido como um cosmopolita em grandes cidades pelo mundo como correspondente de jornais e na função de embaixador em Marrocos e cônsul no chile, sempre esteve arraigado às raízes da sua pequena Cachoeiro de Itapemirim, no Espirito Santo.

Jornalista, escritor e, essencialmente, cronista, Rubem Braga manteve-se fiel às suas origens, pois tinha receio que lhe escapasse a sabedoria dos homens simples da roça. 

 O Voo da Borboleta Amarela quer mostrar Rubem Braga, por meio de suas próprias crônicas, descortinando fatos relevantes da vida singular desse escritor de grande importância para a literatura brasileira. No filme, através da janela da fazenda de sua infância, Rubem será o próprio observador da sua vida, revendo os episódios que marcaram sua rica história de cronista do cotidiano.

Entre outros fatos, Rubem Braga narra a visita que fez ao crematório de Vila Alpina, em São Paulo, quando foi encomendar a incineração do seu próprio corpo, depois de um diagnóstico de câncer na laringe que o mataria naquele mesmo ano, em 1999.

A história do escritor será contada em regressão até a sua infância em Cachoeiro, quando suas cinzas são jogadas no Itabira e se transformam em uma borboleta amarela que se multiplicam em centenas de outras e voam sobre as águas do rio. 

Baseado em minuciosa pesquisa, o documentário pretende mostrar o cronista em todas as suas fases de vida: correspondente de guerra, cônsul, embaixador, escritor e amigo dos mais notáveis intelectuais e artistas da vida cultural e boêmia do Rio como Chico Buarque de Holanda, Tom Jobim, Danuza leão, Rita Lee, Samuel Wainer, Otto Lara Resende, Fernando Sabino, Thiago de Melo, Paulo Mendes Campos, Clarice Lispector, Pablo Neruda, Márcio Moreira Alves, Millôr Fernandes, Carybé, Ana Maria Machado, Tônia Carreiro, Glauber Rocha, Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira. 

Entre seus interlocutores mais íntimos, o cronista tinha predileção por três: Graciliano Ramos, Vinicius de Moraes e Dorival Caymmi, a quem definiu certa vez com muito graça: “Existem três tipos de velocidades na natureza: rápida, lenta e Dorival Caymmi”.

Já no final da vida, Rubem Braga continuou a receber os amigos em animadas conversas regadas a bom uísque, na sua cobertura na rua Prudente de Moraes, deitado em sua rede, cercado pelo jardim de Burle Max, o único do gênero implantado no 12º andar de um prédio em Ipanema. O escritor, no entanto, teve a ousadia de transformar o jardim em um pomar repleto de árvores frutíferas, o que lhe valeu o título de Fazendeiro do Ar. 

Ali, o autor se inspirou para escrever as mais belas crônicas sobre a vida do Brasil e dos brasileiros, traçando uma radiografia de comportamento da política e do cotidiano que transpôs o simples gênero da crônica para um estudo sociológico e antropológico dos costumes sociais do país.  Quando escrevia, Rubem tinha a esperteza de um predador, e, ao lidar com os amigos, a fama de um urso brabo. 

O documentário começa em Braga, cidade ao norte de Portugal, de onde veio a família para o Brasil, em 1870, como registrou o próprio cronista em um de seus depoimentos:

 Ao chegar ao Brasil no século XIX, a família dividiu-se entre São Paulo e o Espirito Santo. Os que ficaram no Espirito Santo, atraídos pela cultura do café, escolheram a cidade de Cachoeiro de Itapemirim, onde Rubem cresceu encantado com a natureza. De lá saiu aos 16 anos de idade para se fazer jornalista e peregrinar entre Porto Alegre, São Paulo, Recife e Rio de Janeiro. Nesses locais, ele exerceu a função de repórter desde muito cedo na rede dos Diários Associados de Assis Chateaubriand, a maior cadeia de jornal, rádio e TV do Brasil à época, cobrindo alguns movimentos revolucionários da década de 1930/32.

Mas foi no Rio, em meio à intelectualidade, que Rubem Braga desenvolveu a sua vocação para cronista e escritor, descrevendo com rara sensibilidade de arguto observador os movimentos políticos da época e os encantos da beleza feminina e o espírito irreverente do carioca. Deixou uma colossal observação dos costumes do Brasil em um legado de mais de quinze mil crônicas e dezenas de livros publicados.

Mesmo sem militância direta na política, foi um dos fundadores do PSB e crítico contumaz do governo Getúlio Vargas a quem sempre tratou como um déspota. Apoiou Jânio Quadros para presidente e ensaiou oposição a João Goulart porque via nele o herdeiro político de Getúlio. Rotulado de comunista, nunca se filiou ao partido, mas convivia de perto com a turma do PCB, geralmente figuras envolvidas nos movimentos sociais, no jornalismo, nas artes, na cultura e na politica.

A intimidade do cronista com os comunistas começou em casa, depois que se casou com Zora, uma jovem rebelde mineira filiada ao partido.

Gostava da polêmica, mas às vezes suas posições políticas o arrastavam para o abismo da incompreensão. Já colecionava uma boa quantidade de adversários como cronista quando condenou o direito ao voto das mulheres no governo de Vargas. 

Ainda que crítico a esse avanço, Rubem Braga, numa rápida reflexão sobre seus conceitos, reviu sua posição para apoiar a União Feminina do Brasil que tinha entre seus integrantes personalidades como Nise da Silveira e Maria Werneck de Castro.

Rubem Braga tornou-se um solteirão convicto depois que se separou de Zora, com quem teve um único filho. Apaixonava-se facilmente por belas mulheres. Porém, satisfazia-se com amores platônicos. Era capaz de contemplar por horas a fio, numa mesa de bar, a beleza de uma mulher por quem acabara de se apaixonar fosse ela solteira ou casada. Homem de pouca conversa – ou quase nenhuma -, flertava em silêncio. O seu olhar intenso era a marca do conquistador misterioso e enigmático. Tinha preferência por mulheres casadas pela certeza de que a noite dormiria sozinho. 

Contar a história desse cronista, escritor poeta, suas aventuras amorosas e sua influência na política brasileira é o que pretende O Voo da Borboleta Amarela, título inspirado em uma de suas crônicas. 

Rubem Braga, para muitos, iguala-se a Machado de Assis, Lima Barreto, Antônio Maria e tantos outros cronistas que, com seus olhares atentos e aguçados, deixaram ao Brasil o testamento do que existe de mais puro na literatura e na língua portuguesa.   

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