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24 de Setembro de 2018

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Edição nº 982 / 2018

31/07/2018 - 09:58:57

Inglória odisseia

Isaac Sandes Dias

É verdade inconteste que as correntes migratórias nunca foram interrompidas ou extintas por qualquer força ou obstáculo interpostos em suas rotas.

O povoamento da Ilha de Páscoa e da Austrália, a transposição do Estreito de Bering, a invasão do Império Romano pelos visigodos e, mais recentemente, as crises dos refugiados nos países africanos, nos dão ideia do incalculável poder dessa força.

As forças que movem as correntes migratórias medem-se pela esperança que estão à sua frente e pelos flagelos que estão na sua retaguarda. As circunstâncias motoras das grandes migrações são, invariavelmente, as guerras, as grandes fomes, hecatombes naturais, radicais mudanças climáticas e, mais recentemente, a insegurança política e econômica vigentes em alguns países.

Em sua saga migratória o homem já transpôs geleiras paralisantes, gigantescas cordilheiras, imensos desertos e bravios oceanos; não será agora um reles muro, ou um braço de mar que os irão deter.

Na tentativa de agradar os setores reacionários que o elegeram, o dourado Trump, notório usuário dos favores de uma certa “lady tramp”, reedita campos de concentração e ameaça reinventar a Muralha da China, a qual, como todos sabem, não evitou sua invasão pelas hordas mongóis.

Do mesmo modo, de nada adianta traficantes de refugiados afundarem barcos de suas vítimas e transformarem o lindo Mar Mediterrâneo ou o histórico Mar Egeu num espetáculo dantesco de macabras vitórias régias formadas por corpos de crianças boiando.

O motor que hoje está por trás das grandes massas migratórias do século XXI, impulsionando-as em direção aos territórios de seus antigos colonizadores, é a espoliação e o exaurimento de suas riquezas naturais, levados a efeito por aqueles nos séculos passados, sem qualquer contrapartida na redistribuição dos seus lucros e resultados.

A esperança que move e está à frente dessas massas migratórias é a de compartilhar, minimamente, o bem estar e segurança proporcionados pelas riquezas que outrora lhes pertenceram; riquezas estas que agora estão a serviço e dispor de seus antigos colonizadores, materializadas em suas lanchas de patrulhas, seus exércitos de controle de fronteira e na promessa de construção do novo muro das lamentações, pois que sua construção causará lamentos da razão, da inteligência, da civilidade, do bom senso e, mais pragmaticamente, dos contribuintes que ao final pagarão a conta.

O Mar Egeu, que um dia serviu de cenário para a narrativa da mais fantástica viagem de todos os tempos, nos mostra hoje uma macabra odisseia, não mais pontilhada pela poesia de Homero nem pelas aventuras e astúcia de um Ulisses, mas apenas pelo triste espetáculo da morte por afogamento de crianças, cujos corpos vão dar nas praias como rejeitos do mar. Nessa nova e trágica viagem, o canto da sereia é a mera busca de condições mínimas de sobrevivência, enquanto o monstruoso e devorador Polifemo é um precário barco à deriva, sem um porto seguro para acolher esses novos e miseráveis Odisseus.

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