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12 de Novembro de 2018

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Edição nº 981 / 2018

21/07/2018 - 05:43:42

Real disputa lugar com moeda social

Iniciativa completa dois anos e aquece economia de Igaci

José Fernando Martins - [email protected]
Cédulas de Terra estão em mercados, postos de combustíveis, drogarias e no bolso da população - Foto: José Fernando Martins

Nada de garça-branca, tartaruga-de-pente e arara-vermelha. As notas de dinheiro que circulam em Igaci, município alagoano localizado a 152 Km de Maceió, estampam a realidade de um povo que tira seu sustento do campo. Lá, o Real disputa lugar na carteira com a moeda social Terra, que pode ser encontrada desde feiras até caixas de mercados e drogarias em cinco cédulas diferentes. A que equivale 0,50 centavos de Terra traz o rosto do padre Luís Farias. Já de 1 Terra dá espaço a uma homenagem ao artesanato. E na de 2 Terras, sementes crioulas. Quanto às de 5 e 10 Terras, o associativismo e a agricultura familiar são as referências, respectivamente. 

E engana-se quem pensa que essa moeda é novidade no município. No dia 22 de julho, no domingo, a Terra completa dois anos de circulação em território igaciense. Tudo começou com a iniciativa do professor do curso de Administração Pública da Universidade Federal de Alagoas (Ufal - Arapiraca), Leonardo Leal, ao se deparar com o trabalho da Associação dos Agricultores Alternativos (Aagra), que já tem três décadas de atuação na cidade. “O professor nos trouxe essa proposta de implantação de um banco comunitário para atender os nossos associados. Foi então que, depois de muito estudo e pesquisa, surgiu o Banco Comunitário Olhos d’Água”, explicou Gleice Mary Gomes da Silva, gerente da instituição. 

À época, a Fundação de Apoio à Pesquisa e Extensão (Fapex), que está ligada à Universidade Federal da Bahia (Ufba), tinha aberto uma chamada pública para a contratação de instituições para a implantação em estados carentes de bancos comunitários. “E Alagoas não tinha nenhum, até então. Nos trouxeram essa proposta e aceitamos porque entendemos que o banco seria mais uma tecnologia social para agregar o desenvolvimento dos produtores de Igaci. Elaboramos o projeto e fomos credenciados. Recebemos um recurso de R$ 30 mil para fomentar a moeda e a operacionalização do crédito”, detalhou.

Entre Terra e Real não existe câmbio. Para cada 0,50 centavos de Terra que circula na cidade é necessário que o banco comunitário tenha R$ 0,50 no caixa para que haja a conversão da moeda. “Quando fizemos o cadastramento das empresas para a circulação do dinheiro, alguns comerciantes começaram a dar desconto de 3% a 10% em seus produtos adquiridos com a Terra. O intuito era estimular o uso do dinheiro”, contou. Atualmente, 33 estabelecimentos de Igaci aceitam a moeda comunitária, como postos de combustíveis, serviços de internet e quitandas,  entre outros comércios. Cerca de 4 mil terras já circulam por Igaci.

DESAFIOS

A adesão ao Terra é voluntária, mas estimula a competitividade entre os comerciantes. Aceitar a moeda é uma forma de pagamento a mais para fechar o negócio. Com foco nos agricultores e produtores de pequeno porte, o Banco Comunitário Olhos d’Água realiza empréstimos para diversas finalidades, tanto para a ajuda em alguma emergência no orçamento doméstico quanto para investimentos em insumos. O nome Terra já existia antes da fundação do banco, mas em outro formato e vinculado a um evento que reuniu representantes de várias entidades que aconteceu em Palmeira dos Índios. Em 2015, a Aagra completou 25 anos de existência e trouxemos de volta a Terra mais uma vez para circular apenas na feira da agricultura familiar durante seis meses. 

“Um ano depois, para a criação do banco, resolvemos manter o nome da moeda devido seu forte significado, escolhendo desenhos que retratam a cultura da cidade. No verso do dinheiro, a imagem do Rio Coruripe, que quando entra em Igaci ganha o nome de Jacuípe, formando uma queda d’água. São imagens definidas para nos representar nas moedas”. 

Para garantir a segurança do dinheiro contra falsificadores, as notas são fabricadas com um papel especial que conta com traços em alto relevo. O dinheiro é impresso por uma empresa localizada em Minas Gerais que já fabrica moedas para bancos comunitários de outros estados. Outra tática é as notas serem de baixos valores inviabilizando a falsificação. 

Convencer os comerciantes a aderirem ao Terra como pagamento não foi uma tarefa fácil. “Até hoje, a moeda social gera desconfiança nas pessoas, mas fazemos um trabalho de sensibilização informando que vale igual ao Real e que ajuda no desenvolvimento do município, uma vez que quem tem Terra no bolso só poderá gastar o dinheiro em Igaci”. Ainda segundo Gleice Mary, até o poder público de Igaci não entendeu a importância da moeda. “Realizamos um evento em janeiro deste ano e nosso público convidado foram empresários e as autoridades do município. Só vieram os empresários”, lamentou. 

Moeda própria pode integrar salário 

Mesmo desconfiado, o comerciante Jack Jones de Lucena, 49, resolveu arriscar e aceitar a moeda Terra em seu estabelecimento, o Mercado Lucena. Diz que não se arrependeu e hoje vê que seu negócio conta com um diferencial para atrair a clientela. “É uma pena que mais comércios ainda não aderiram à moeda, porque assim circularia mais”, disse ao EXTRA. De acordo com a gerente do Banco Comunitário Olhos d’Água, Gleice Mary, já foi ventilado pelo Poder Legislativo e Executivo do município que servidores municipais recebessem parte do salário em Terra. 

Isso já acontece em alguns estabelecimentos. Conforme a gerente de farmácia Vitória Santos, 28, não é raro o funcionário pegar um adiantamento ou parte do salário na moeda local. E mais, segundo ela, a Terra virou uma espécie de souvenir para quem passa na cidade. “Tem gente que chega aqui e acha diferente o dinheiro e chega a compra-lo só para levar de lembrança”, contou. E a feirante Maria dos Anjos Oliveira, 38, faz um ativismo para mostrar a importância de que outros estabelecimentos comecem a aceitar a moeda. 

“Quando vou comprar em algum lugar e eles não aceitam a Terra, eu compro em outro local. Depois volto para a loja que me negaram e mostro o que comprei”, relatou aos risos. 

Já existem em muitos países diversas moedas sociais e complementares que funcionam como mecanismo para ampliar a circulação de riqueza nas comunidades, cujo propósito é dinamizar a economia. São os casos da moeda social Patacón, na Argentina; do Chiemgauer, na Alemanha; dos LETS (Local Exchange Trading Systems), nos EUA; e dos SELs (Systèmes d’Échange Local) na França. 

Segundo o professor universitário Leonardo Leal, a moeda social é uma prática de finanças solidária de apoio a economias de territórios com baixo índice de desenvolvimento humano. “A moeda social é uma forma de moeda criada e administrada por seus próprios usuários, geralmente em comunidades baseadas em valores de cooperação e solidariedade. A vocação principal da moeda social é servir as comunidades que as criam e implementam, no intuito de apoiarem a resolução de problemas sociais e econômicos através de ações que podem ampliar a circulação de riqueza no território”.

Segundo Leal, a experiência da moeda social Terra, que completou dois anos de funcionamento, é um dos métodos para ofertar microcrédito na cidade de Igaci, onde 50% das liberações de microcrédito são feitas com a Terra. “Consideramos que os resultados são positivos e atestam o êxito da experiência, no entanto também consideramos que existe uma grande margem para ampliar o nível de aceitação da moeda entre os comerciantes e a população em geral, bem como para a utilização da Terra em políticas públicas relacionadas a limpeza urbana, segurança alimentar, entre outras, porém isso exige novos investimentos que o apoio de parceiros pode trazer”.

E a Terra faz escola. “Desde o ano de lançamento do banco comunitário Olhos d’Água, a Ufal é constantemente procurada por prefeitos e líderes comunitários para orientar políticas públicas ou replicar a experiência em outras localidades, como no caso de Limoeiro de Anadia onde o processo de incubação do banco comunitário já foi iniciado”, finalizou.

PROPOSTA 

As moedas sociais servem a dois propósitos básicos: como instrumentos de incentivo ao consumo e a dinamização da economia local, os quais se tornam legítimos no território e entre os atores locais (consumidores, produtores e comerciantes); e, como estimulantes de um novo tipo de relação com o dinheiro, pois o intuito é restaurar vínculos sociais e propor um novo tipo de organização da economia local.

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