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16 de Novembro de 2018

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Edição nº 979 / 2018

11/07/2018 - 18:41:52

SAÚDE MENTAL

Automutilação:            dor e prazer         

Um dos princípios da psicanálise de Lacan (discípulo de Freud) é que o sujeito está preso ao trauma vivenciado e isso requer, muitas vezes, muita análise (psicoterapia) para se descobrir. Depois, uma vez nomeado, ressignifica-lo e em seguida poder viver com o trauma, a dor. Isso não é fácil. Muitas vezes, quase impossível de ser representado, nomeado. Daí o desafio de se conhecê-lo; ou quais são eles e como os a pessoa pode suporta-lo (s) e possa viver, apesar deles. 

Na experiência clínica, no consultório, a dor das emoções (muitas vezes inomináveis), respinga na dor física: a automutilação. Que, se num primeiro momento choca quem vê ou vivencia ou acha que é para chamar a atenção de alguém, na verdade representa uma forma de controlar as emoções, as ansiedades, as raivas e é um dos principais sintomas da vida contemporânea: a sensação de vazio. É paradoxal, mas é isso que acontece.

A automutilação é o ato de provocar a si mesmo qualquer tipo de ferimento físico, qualquer que seja no seu próprio corpo. A automutilação pode ocorrer com diversos objetos, desde uma lâmina comum até facas.

Ao automutilar-se, organicamente, o corpo também quer amenizar a dor e a consequência é o estímulo da produção de analgésicos naturais que proporcionam, também, prazer.

Nos adolescentes

A própria palavra – adolescente – já indica o que ela traz de sofrimento por si só. Adolescer é também adoecer; passar de uma fase para outra; é também amadurecer. É doloroso, é traumático.

A palavra adolescer significa crescer, atingir a maturidade. Adoece porque nem é adulto e nem é criança, e, na maioria das vezes, é repreendido por ter comportamentos de criança e aí “adoece”. É entrar na fase dolorosa da vida: ser adulto. O que vou fazer?

Ele recusa a lei imposta pelos pais ou cuidadores. É a fase da contestação da autoafirmação de amar e ser amado. É transformação; buscas pelo desconhecido. É experimentar comportamentos diante da família, da religião e da sociedade. E nessas buscas pode se automutilar para deixar de sofrer. 

Nos adolescentes II

No automutilar-se estão várias causas, algumas delas: dor emocional, ansiedade, instabilidade na personalidade, perturbações no comportamento alimentar, compulsões sexuais e até início de um processo depressivo.

Uma vez observando esses sintomas (agudos) os pais devem procurar auxílio de um profissional de saúde, especialmente psicólogo ou psiquiatra. Buscar imediatamente ajuda, pode prevenir que os sintomas possam ser amenizados ou aniquilados, evitando o surgimento de transtornos mais complexos.

Nos adolescentes III

Fazer o adolescente nomear o trauma ou a dor é o desafio do psicólogo ao abordar o assunto da automutilação, daí a orientação para os pais de que, ainda criança, se fale sobre sentimentos, como: raiva, amor, tristeza, alegria. O falar ajuda que eles possam expressar esses sentimentos com naturalidade, ao final da nova fase que está iniciando. Ouvir e acolher o adolescente é fundamental para que o problema seja dissipado ou amenizado.

Nos adolescentes IV

Ainda há bastante caso de adolescentes que se reúnem com outros e praticam a automutilação. Por que? Ainda está em evidência um “jogo” Baleia Azul, em que uma das “tarefas” é que o adolescente possa fazer, inclusive, o desenho da Baleia em seu próprio corpo. E, numa tarefa desafiadora, possa cometer, inclusive, a suicídio.

Seria fazer com que o adolescente fosse colocado a uma “prova de coragem”, o que é bastante estranho para quem está controlando ou inventou o tal “jogo”.  Não é jogo. É bom os pais ficarem alertas sobre algum sinal que os filhos possam apresentar.

Nos adultos

A automutilação não está presente apenas nos conflitos dos adolescentes, está também em alguns transtornos em adultos. É o caso do Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) e representa um grande mal-estar interno, emocional e “serve” como forma para “aliviar” dos dores quotidianas, o vazio difuso.

O Transtorno de Personalidade Borderline é o transtorno frequente e está bastante relacionado a casos de depressão e de uso de substâncias psicoativas e alta incidência de suicídio.

No transtorno, a automutilação (real e a fantasia da dor) aparece em cerca de 80% dos casos. Também estão presentes, as dificuldades nos relacionamentos sociais, a impulsividade, a instabilidade do humor e também a confrontos com a lei.

Automutilação               e psicanálise

A literatura indica que mais mulheres do que homens praticam a automutilação, especialmente na fase da adolescência. Quando ela ocorre, se relaciona com a fantasia de redução de angústia, da aflição, que não tem nome. Ela é indeterminada. É difusa.

Pode surgir também como forma de compulsão, inclusive masturbatória e também como satisfação de ver o sangue escorrendo. Pode ser também o experimentar a dor, principalmente na fase da adolescência onde a experimentação de comportamentos, de atitudes, é o foco.

Automutilação                  e psicanálise II

A compulsão em algo ou em alguém, ou que não se saiba o que é, pode ser um sintoma que pode desencadear a automutilação. Não se sabe o porquê de estar sofrendo, é inominável. Por que isso está ocorrendo? Talvez o esforço de que a pessoa queira ser feliz “porque todos” parecem ser felizes, e não consegue.

Na clínica a pessoa diz que tem emprego bom, corpo bonito, faz o que quer na vida e ainda assim sofre. “Não sei porque isso acontece, não sei porque estou assim, triste”.

O não saber ou não querer saber pode desencadear um processo depressivo e uma possível tentativa de suicídio. 

Automutilação                   e família

São muitos os casos que surgem na clínica/consultório em que os pais ficam apreensivos e desesperados quando descobrem que um de seus filhos está se automutilando. E o que fazer?

Numa família, nem sempre é possível ter uma vida em equilíbrio em todas as fases: criança, adolescência e adulta. Pode, numa delas, ocorrer um fato que possa desequilibrar, emocionalmente, a pessoa seja ela criança, adolescente ou adulta. Isso ocorrendo, isto é, qualquer comportamento estranho e exagerado que aconteça, como por exemplo, dormir demais ou ter insônia; comer demais ou de menos, enfim, pode ser um sintoma que precisa ser investigado.

No caso da automutilação, geralmente, o adolescente, começa a usar roupas longas e escuras, exatamente para não demonstrar as cicatrizes impressas no corpo, geralmente, nos braços e pernas.

O que fazer? Conversar, conversar e conversar. Tentar descobrir o que faz ele se sentir vazio. Não julgar o que ele está fazendo, apenas acolher e ouvir. Isso pode ser o suficiente para que ele deixe de praticar o ato. Se obter êxito é fundamental procurar ajuda de profissional de saúde mental, seja psicólogo ou psiquiatra.

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