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24 de Setembro de 2018

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Edição nº 977 / 2018

26/06/2018 - 19:21:02

Para que servem os velhos?

Alari Romariz Torres

No Brasil o valor dado aos idosos é mínimo! Quase sempre estão sentados numa cadeira de balanço e sua presença é ignorada pela maioria das pessoas! Lembro-me de Ulisses Guimarães, um político sábio! Sua idade pouco aparecia quando se dirigia às massas: vibrava e fazia os ouvintes acreditarem em suas palavras. Um amigo nosso morreu recentemente com noventa anos. Fui à missa de sétimo dia e me emocionei ouvindo filhos e netos falarem sobre sua humildade e sabedoria. Antes de expirar pediu ao neto que não se esquecesse dos menos favorecidos! 

Temos o prazer de conviver com uma aposentada da Assembleia que começou servindo cafezinho. Teve uma única filha. Criou-a com cuidado e, com tristeza, viu sua morte ainda jovem. Sofreu demais e se dedica aos dois netos. Agora com oitenta anos, nossa amiga ainda vai dançar no Iate e quando nos visita no Sindicato está sempre alegre e cheia de ¨torteletes¨ para as colegas. Saudável a nossa Marinete! 

Procurou-me esta semana um companheiro idoso que prestava serviço ao Legislativo há vinte e um anos. ¨Dona Alari, estou sem receber salário; já se vão dois meses; dizem que a firma faliu; o que faço amiga?¨ Fiquei emocionada e muda de raiva! Como se brinca com a vida de um homem que há tanto tempo presta serviços na Casa de Tavares Bastos? 

Uma grande amiga nossa que foi diretora de um órgão público ajudou a muita gente, boa filha, boa mãe, está muito doente. As notícias são sempre tristes a respeito de tão querida pessoa! Coisas da vida! 

Uma velha tia de meu pai, que ajudou minha avó a criar dois órfãos, era uma criatura sábia. Na minha adolescência gostava de conversar com ela e ¨beber sabedoria¨, como dizia um antigo conhecido. Contou-me que era casada com um senhor mais velho do que ela. Um dia, o marido ameaçou bater nela. Ela ficou calada, arrumou seus pertences e foi morar com a irmã. ¨Por que?¨, perguntou o marido. ¨Hoje você ameaçou, amanhã você me bate¨, respondeu minha tia. E foi criar dois sobrinhos, loucos por ela. Um deputado idoso, bem doente, encontrou-me certa feita. Chamou-me para conversar. ¨Estou mal, morrerei logo; criticava você por suas denúncias. Hoje sei que está certa; meus companheiros não me respeitam, cortam meu salário¨. Morreu pouco depois. 

Encontrei-me com seu filho nesta semana e recordei o fato. Outro político famoso foi Tancredo Neves, de Minas Gerais. Homem calmo, sabido, inteligente. Faleceu quando ia assumir a Presidência da República e foi substituído por Sarney. Deve estar inquieto no túmulo com os escândalos em que se envolveu seu herdeiro político, o senador Aécio Neves. Que vergonha!” 

Quando comecei a trabalhar, tive uma chefe maravilhosa, bem mais velha do que eu. Ensinou- me muito, e quando me agitava no auge de minha juventude, chamava-me para perto dela, dizendo: ¨Calma, Alari, você está lidando com políticos¨. Meus respeitos saudosos a uma mulher que foi minha mestra nos idos de 50/60: Yolanda Moura. Deus a tenha em ótimo lugar. Recentemente uma neta, de fora, veio estudar na Ufal e pensei que poderia ser útil. Os pais acharam que não daria certo ela morar com os avós; daria muito trabalho. Pensei com meus botões: estamos velhos, não confiam mais em nós. 

Fiquei triste, acordava pela madrugada, lamentava, chorava um pouco, adormecia. O tempo foi passando, a melancolia desaparecendo e cheguei à seguinte conclusão: Deus escreve certo por linhas tortas; Ele tomará conta dela e nós ficaremos na retaguarda.

 Daí, meus amigos, penso numa velhice sadia. Gosto de ser útil, de ajudar. Emociono-me quando sinto que estou chegando ao fim da vida e não sirvo mais para muita coisa. 

De repente, lembro-me de Deus. Ele me deu tanta felicidade, tive uma boa vida ao lado de minha família. Não posso querer mais do que recebi. Tenho uma única certeza: morrerei lutando!

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