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26 de Setembro de 2018

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Edição nº 977 / 2018

26/06/2018 - 19:19:55

A feira

Isaac Sandes Dias

Somente quem nasceu e viveu numa pequena cidade de interior poderá entender a imensa riqueza do conceito traduzido na palavra feira.  Não a feira no sentido moderno, que consiste em lançamentos de produtos e tecnologias, mas sim aquela feira à antiga, destinada a prover de alimentos e bens básicos as populações interioranas.   Quem leu Vidas Secas jamais esquecerá as experiências vividas por Fabiano e sua família no dia da feira.

Naquele microcosmo foram ambientados os mais belos escritos regionalistas de nossa literatura. Pintados na riqueza de cores, cheiros, personagens e fatos que são sua alma.

Em tempos idos, a feira, de tão importante, até transformava o dia que a antecedia.   Seu ar de véspera já deixava antever toda agitação do dia seguinte. Cozinheiras armavam suas toldas, acendiam a lenha dos fogões e se preparavam para alimentar aquela cosmopolita turba.  Os mais diversos odores invadiam a noite, vindos das borbulhantes panelas de barro, reacendendo apetites e gulas.

Lá num ponto afastado, no improvisado curral do matadouro, na instintiva antevisão do triste fim, o gado ensaiava um réquiem de mugidos e lamentos. Na rua, garis montavam as gastas bancas anunciando a ruidosa chegada dos feirantes.

Por seu caráter festivo e lúdico, a feira da pequena cidade era verdadeira terapia, afastando, com seu ar vivo, qualquer sombra de tristeza do dia.

Em regra, a impopular segunda-feira é o dia mais indesejado da semana.  Em minha infância ele tomava ares e tons de uma tela impressionista, pois era o único a ter cheiro e cores.  Quem não lembra dos cheiros de sua infância?  Cheiro de frutas maduras, frutas estragadas, tira gostos vendidos a céu aberto, gente suada, animais e seus excrementos e, o mais marcante deles, o cheiro que emanava dos eixos queimados dos carros de bois, e o agridoce cheiro dos bois. Não há odores mais marcantes do que os de uma feira.

 Já na alta madrugada o doce cantar dos carros de bois abria a rica sinfonia de sons que iriam embalar aquele dia. O lânguido sussurro de vozes matutas com seus mais diversos sotaques e cantares entravam pelas frestas da camarinha nos chamando para um alegre despertar.  Fechando o belo rosário de sons, apitos de lanchas, ronco de carros de frete, buzinas de vendedores e os crescentes e alegres gritos dos feirantes e meninos, compondo um definitivo ar de festa. 

Tais sons e cheiros emprestavam à pequena cidade uma dimensão que ela não tinha no dia a dia, transformando o patinho feio da folhinha num dia festivo. 

Apenas um fato poderia entristecer o sertanejo naquele dia. Não dispor “do dinheiro da feira”. Para a criança que eu era, o único fato que causava desconforto era ver aquela procissão de cabeças baixas, almas humilhadas e chapéus na mão, que se formava na porta do poderoso chefe político local, numa silenciosa súplica.  Humilhação suportada com resignação por todos aqueles desvalidos, apenas para evitar a triste visão dos olhinhos famintos, daqueles que deixaram em casa num esperançoso aguardo. 

A mágica daquele evento sintetizava, no decorrer de um único dia, o universo de toda uma comunidade.

Na feira, bêbados afogavam suas mágoas; dívidas eram pagas ou velhacos consolidados; velhas intrigas eram resolvidas à tapa ou faca; prostitutas enchiam as burras; esmolés coletavam reservas; matutos renovavam os estoques de chita, fustão e azulão; namorados se acertavam; a cadeia ganhava movimento extra; os cinemas lançavam as “novidades”; camelôs berravam seus milagres. Enquanto, de minha parte, era o momento adequado para trocar e vender os gibis que iriam garantir o cinema e o acerto de contas com a velha doceira.

Enfim, na pequena cidade a feira dava o alento para mais um ciclo de sobrevivência. Para aqueles simplórios viventes, seus planos e projetos de vida sempre se resumiam a um ciclo de feira.     

Para o sofrido povo sertanejo, sonhos e projetos nunca poderiam se dar ao luxo de se estenderem para além daqueles sete dias.  Como o voo de uma galinha, os projetos do sofrido povo sertanejo eram breves e rasteiros. Jamais ousariam se estender mais do que o ciclo e uma feira. 

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