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25 de Setembro de 2018

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Edição nº 977 / 2018

24/06/2018 - 07:55:38

Comerciantes reclamam do abandono do Mercado da Produção de Maceió

Maria Salésia - [email protected]
Foto: Bruno Fernandes

São temperos, aromas, cores e sabores. Do peixe fresco e frango abatido quase que na hora aos artigos de couro e madeira, tudo isso e mais uma gama de variedades pode ser encontrada nos labirintos dos corredores do Mercado da Produção de Maceió. Ponto de encontro de gerações que há mais de três décadas vão ao local para comprar mercadorias fresquinhas e com preço acessível, reúne um misto de sentimentos de quem frequenta ou negocia na área. A sujeira e o abandono são nítidos e as reclamações e pedido de socorro são constantes. As autoridades fazem vistas grossas e o jogo de empurra-empurra revolta a quem paga impostos e tem que conviver com a degradação dia após dia.

Localizado no bairro da Levada, o Mercado de Maceió é rotulado como um dos piores do Brasil. Em período de chuva a situação fica ainda mais complicada. Além das ruas que dão acesso ao centro de comércio, o interior do local fica tomado pela água, lama e dejetos. Apesar do contratempo, muita gente se arrisca a fazer compras, enfrentando o incômodo dos corredores alagados.

O EXTRA esteve no local esta semana e constatou, além da sujeira, várias lojas fechadas. Em algumas alas, inclusive, os estabelecimentos quase em sua totalidade estavam desativados. E foi diante desta solidão que a equipe encontrou Everaldo Gomes Lira, 60, que negocia calçados há 35 anos e está naquele ponto há 5 anos. O gato ao lado era a sua única companhia. Questionado se seria seu companheiro de estimação, contou que as pessoas abandonam os animais ali e os vendedores terminam “se apegando”. 

Em dias de chuva, a área em que seu Everaldo trabalha não alaga, mas molha bastante. Segundo ele, o teto parece uma peneira. Quanto ao movimento, argumentou que diante da crise está fraco como em qualquer lugar, mas dá para sobreviver. “O movimento está devagar, mas dá pra sobreviver. Hoje está bem deficitário e abandonado. Deixa muito a desejar “, reclamou ao sugerir que o ideal seria a reconstrução, mas “onde recolocar o pessoal se as famílias dependem disso aqui?”.

Na ala de carnes e peixe o cheiro forte denuncia a falta de higiene. Para Maria do Carmo, 72 anos, que comercializa frango há mais de 26 anos, o mercado público de Maceió está “às pancaretas”. Reclama que não tem mais limpeza, o banheiro foi fechado por falta de água e até as torneiras que ficam junto aos balcões são roubadas.“ “Estamos abandonados e o movimento está quase parando. Nosso pedido de socorro vem de muito tempo, mas ninguém ouve a gente”, criticou.

Marcelo de Oliveira mostrou-se indignado com a situação e criticou autoridades e quem deveria fiscalizar. “O mercado aqui está saturado e o poder público tem obrigação de reformar. Entra verba, sai verba e não se faz nada. Os vereadores só aparecem aqui na época de eleição e depois somem. O Ministério Público vem, mas não é jogar o problema, é resolver. Cadê o prefeito que não faz sua parte e o Estado também?”, reclamou em tom de descrédito. 

Zuleide Batista vende verduras desde a criação do espaço. “O problema é que Estado e município ficam jogando um para o outro. Aqui precisa reformar tudo. Melhorar estacionamento, água e até segurança tiraram”, reclamou apontando para a “piscina” ao lado do Mercado, onde sujeira, mal cheiro, água empoçada se juntam a pessoas que descarregam mercadorias no espaço.

E foi neste ambiente que o jornal flagrou uma pessoa descarregando camarões em meio ao descaso. Sem ter para onde escorrer, a água se acumula e se junta a todo tipo de dejeto. Como os carros ficam impedidos de transitar, as pessoas se arriscam para entregar as mercadorias que vão ser comercializadas. 

Quem frequenta o mercado para fazer compras também diz que o ambiente não é nada agradável. É o caso da dona de casa Alda Maria, 58 anos. Ela reclamou da estrutura do mercado, da falta de higiene e do abandono por parte do poder público. Apesar de tantos problemas disse que frequenta o local desde criança quando acompanhava o pai e continua devido ao preço das mercadorias serem mais acessíveis. “Eu vinha com meu pai pra cá e era mais arrumado. Agora, quando chove ninguém consegue andar. Venho mais atraída pelo preço”, revelou.

Outro frequentador assíduo é Leonardo Dias, 43 anos. Dono de um pequeno comércio na parte alta de Maceió, Léo disse que o preço dos produtos ainda compensa qualquer sacrifício. “Isso é um verdadeiro descaso com quem vende e com quem compra. Como comercializo almoço e lanche em casa, o preço das carnes e verduras daqui ainda compensa”, disse.

Interdição pedida pelo MP é ignorada 

Os problemas crônicos do Mercado da Produção têm incomodado a muita gente, inclusive a órgãos fiscalizadores. Devido à falta de condições higiênicas e sanitárias para comercialização de alimentos, em 2017 o Ministério Público do Estado de Alagoas (MP) entrou com uma ação civil pública pedindo interdição total e reforma do mercado. A exigência foi de que a interdição acontecesse num prazo de 10 dias. Passaram-se vários meses e tudo continua do mesmo jeito, ou pior. 

O documento diz que caso a determinação não fosse cumprida, os gestores das secretarias de Desenvolvimento Territorial e Meio Ambiente (Sedet) e de Trabalho Abastecimento e Economia Solidária (Semtabes) e da Superintendência de Limpeza Urbana de Maceió (Slum) teriam que pagar uma multa pessoal no valor de R$ 20 mil por dia. Já para a prefeitura, o valor da multa diária deveria ser de R$ 40 mil.

O jornal EXTRA manteve contato com a assessoria do MP, mas o promotor responsável está  de férias. A informação é de que a ação se encontrava na Justiça. Já a assessoria do TJ afirmou que não teve acesso ao processo. Na Vigilância Sanitária de Maceió o responsável estava em reunião e pediu para ligar mais tarde. A ligação foi retornada, mas ele não atendeu.

Vale ressaltar que de acordo com relatórios do Corpo de Bombeiros, o mercado não possui nenhum tipo de prevenção contra desastres como incêndios, situações de pânico e desabamentos, além de não ter cuidado com o meio ambiente, como o descarte irregular de resíduos, que causa degradação ambiental.

Mercados que são modelo no País 

O Mercado Público de Maceió deixa muito a desejar em todos os aspectos. Mas em muitos lugares do Brasil o espaço é motivo de orgulho e vale a pena uma visita. Eles carregam riquezas gastronômica, histórica e cultural. Além do que, é lá que o visitante pode sentir o gosto do local. Diferentemente do mercado da capital alagoana, nas principais capitais brasileiras os grandes mercados servem de ponto de encontro da população local e visitantes. 

Verdadeiras atrações turísticas enchem os olhos de quem visita. Exemplo claro é o Mercado Municipal de São Paulo, ou simplesmente o Mercadão de SP, ponto de encontro do paulistano e programa imperdível para visitantes. Polo gastronômico e cultural da capital paulista, o prédio de estilo neoclássico com toques góticos impressiona pela beleza. São cerca de 280 boxes e mais de 50 mil visitantes semanais. Entre os menus dos bares e restaurantes do local, aparecem o popular e gigante sanduíche de mortadela e o pastel de bacalhau.

O Mercado Ver-o-Peso, em Belém (PA), é o verdadeiro ícone cultural da capital paraense. Há quem diga que ainda há muito a ser feito por lá, mas dá para passar o dia passeando. Situado às margens da Baía do Guajará foi um dos primeiros mercados públicos do Brasil, sem contar que é o maior mercado a céu aberto da América Latina, com um complexo arquitetônico e paisagístico de 35 mil metros quadrados.

Apenas a beleza do prédio do Mercado Público de Porto Alegre já vale a visita. Patrimônio Histórico e Cultural da cidade, é ponto de encontro dos gaúchos e seus visitantes. Funciona como um grande shopping center, com seus 110 estabelecimentos comerciais. A gastronomia não poderia ser mais variada, indo da cozinha japonesa à macrobiótica e portuguesa, passando por bares e lanchonetes com petiscos populares.

 O vão central do Mercado Público de Floripa (SC) é palco de apresentações de artistas locais e merece destaque. Com mais de um século de história mantém seu charme e continua um dos mais agradáveis pontos de encontro na capital catarinense.

Além de funcionar como centro de comércio e gastronomia – diversos bares e restaurantes oferecem o melhor da culinária local, como o famoso pastel de berbigão – o mercado é um grande palco de cultura e lazer.

Frutas, carnes e produtos orgânicos à venda no movimentado Mercado Municipal de Curitiba (PR) dão as boas vindas a seus visitantes. Nenhuma visita à capital paranaense é completa sem uma passada por lá. As lojas comercializam de tudo – temperos, queijos, frutas, verduras, doces, chocolates, embutidos, carnes exóticas, roupas, eletrônicos, artesanato, artigos para casa e por aí vai. E o que dizer dos vários quiosques e restaurantes, onde pode-se provar as delícias locais, como o barreado ou a carne de onça, além do expresso no Café do Mercado.

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