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14 de Novembro de 2018

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Edição nº 975 / 2018

10/06/2018 - 07:57:31

Canal do Sertão ainda não contribui para irrigação

Das duas bombas, somente uma opera e com apenas 20% da capacidade

José Fernando Martins - [email protected]
O mau uso das águas do Canal do Sertão pode gerar futuros desertos, alertou o presidente do CBHSF, Anivaldo Miranda - Foto: Assessoria

O Canal do Sertão está sendo construído às cegas e pode virar um grande elefante branco em Alagoas. A análise é do presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHSF), Anivaldo Miranda. “Ele [o canal] ainda não tem um modelo de gestão, como também não tem um modelo das terras que serão irrigadas. À medida que o canal se estendeu foram dadas outorgas graciosas de água. Ou seja, ninguém paga por aquela água, que tem todo um valor econômico”, pontuou. 

A declaração de Miranda foi durante a programação do Dia Nacional em Defesa de Velho Chico, no último domingo, 3. A solenidade aconteceu em Aracaju, no estado do Sergipe, onde o comitê reuniu a imprensa e autoridades para lançar também o II Simpósio da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco, evento finalizado na quarta-feira, 6. “As pessoas estão irrigando por inundação um solo extremamente vulnerável É necessário fazer o uso da melhor tecnologia para não salinizar a terra e criar futuros desertos”. 

E prosseguiu: “O Canal do Sertão precisa de fato ter um freio de arrumação e o governo de Alagoas tem se mostrado incapaz de compreender que não basta construir uma obra bilionária se não fizer a gestão correta e compartilhada dessas águas. Fiquei sabendo que apenas 12% daquela água está sendo utilizada pela população. É preciso de um grande debate para o Canal do Sertão não repetir o que aconteceu com a transposição do São Francisco, que teria um custo da operação de R$ 500 milhões por ano, sendo que o Tribunal de Contas da União (TCU) informou recentemente que o valor subiu para R$ 800 milhões”.

Quanto à questão do uso da água, o presidente do comitê acrescentou ainda que “a fiscalização se faz necessária, uma vez que carcaças de animais e até cadáveres já foram encontrados dentro do canal por onde circula água para abastecimento humano”. 

Um foco diferente

De acordo com Valmir Pedrosa, engenheiro civil e consultor da Secretaria do Estado do Meio Ambiente e Recursos hídricos de Alagoas (Semarh), o Canal do Sertão foi construído com objetivo de irrigar plantações e lavouras, porém ainda não tem essa demanda. Sendo assim, a água do reservatório é utilizada no abastecimento dos municípios do Alto Sertão, como: Pariconha, Água Branca, Delmiro Gouveia, Canapi, Inhapi e Olho d’Água do Casado. “Além disso, temos 430 pequenos usuários para irrigação”, explicou. Tudo somado, segundo Pedrosa, corresponde a cerca de 20% da capacidade máxima da bomba do Canal do Sertão.

Atualmente, a obra possui duas bombas hidráulicas, sendo que apenas uma está em funcionamento. “O canal é para utilização para projetos de irrigação, que ainda estão para ser construídos. O que trava o uso da irrigação é o orçamento da União, que não colocou em licitação as obras complementares para fazer a ligação das águas até as plantações. O Canal do Sertão sendo inutilizado para irrigação vira um elefante branco, sem dúvida”, afirmou. 

O Canal do Sertão já custou aos cofres públicos, em treze anos de construção, mais de R$ 2 bilhões. Até o momento, foram construídos 115 km dos 250 km totais da obra, que vai terminar no município de Arapiraca. É estimado que se demore mais uma década para sua conclusão para contemplar 44 cidades. 

Sobre as críticas de Miranda, o consultor da Semarh esclareceu que a água usada para consumo humano é tratada e que toda utilização é cobrada. “O mesmo acontece com a irrigação. Primeiramente deve ser apresentado um projeto à secretaria para análise e aprovação”. 

Velho Chico decadente

O Rio São Francisco corre perigo e reverter esse processo de decadência causado pela exploração do homem é um trabalho árduo e oneroso. Segundo o Comitê da Bacia do são Francisco, seria necessário um investimento de R$ 30,8 bilhões para uma revitalização completa do rio, que tem sofrido com as obras de transposição. Conforme o presidente do comitê, Anivaldo Miranda, o Velho Chico já agoniza e dá sinais claros. Um deles é as águas do mar que estão invadindo o Velho Chico em sua foz. 

“Muitos consideram um rio como uma canaleta que leva água até o mar. O rio representa toda uma biodiversidade, sem falar da cultura de todo um povo”, destacou.  Para o coordenador geral do II Simpósio da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco, Inajá Francisco de Souza, o país ainda não leva tão a sério a preservação do meio ambiente. Tal situação seria influenciada por questões socioeconômicas. “O povo brasileiro, primeiramente, está focado na sobrevivência. Por isso, outras questões, como a preservação, acabam ficando em segundo plano”, disse ao EXTRA.

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