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18 de Setembro de 2018

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Edição nº 973 / 2018

29/05/2018 - 15:07:45

Dos réis aos reais

JOSÉ MAURÍCIO BREDA

Acredito não ter sido passada de mão em mão até chegar às minhas. Mas, enfim, como eu mesmo recebi-a, qualquer um outro poderia ter tido essa ventura. Trata-se de uma moeda de dois cruzeiros, cunhada em 1947, parecida, no tamanho e na cor, com a atual de vinte e cinco centavos. Só em casa, ao perceber, vi-me diante de um caleidoscópio a trazer-me imagens da minha infância até a idade adulta. Nascido em 1944, convivi com o sistema monetário Cruzeiro, durante 23 anos. Instituído em 1942, dada a crescente desvalorização do Real – herdado de Portugal, e que, nesta acepção, tinha como plural Réis – só veio perder sua validade em 1967. De todas as nossas moedas foi a que maior tempo de vida teve: 25 anos, perdendo apenas para o Real português, introduzido desde a chegada daqueles, atravessando o Brasil Colônia, Império e a República até meados de 1942. Ou seja, 442 anos. Após o Cruzeiro, tivemos nada menos que sete diferentes moedas, e suas atualizações financeiras. Cruzeiro Novo-NCr$(1967-1970), outra vez Cruzeiro-Cr$(1970-1986), Cruzado-Cz$(1986-1989), Cruzado Novo-NCz$(1989-1990), repetiu-se Cruzeiro-Cr$1990-1993), Cruzeiro Real-CR$(1993-1994) e finalmente o nosso atual Real, desde 1994, completando neste ano, 24 primaveras. 

Vejam que, enquanto o Real de origem lusitana viveu quase cinco séculos, e o primeiro Cruzeiro, um quarto de século, em apenas 33 anos convivemos com seis outras representações monetárias.

Aquela moedinha de dois cruzeiros serviu para mostrar-me o filme da escalada inflacionária a que fomos submetidos em 33 anos. A moeda, com a convivência diária, é como um termômetro a medir a inflação. Em época passada houve música que registrou este sentimento: “... depois que inventaram o tal cruzeiro, eu trago um embrulhinho na mão e deixo um saco de dinheiro...”. É sintomático. Se se prestar a atenção, não só nos aumentos de preços, mas na circulação pura e simples de algumas cédulas, veremos que elas nos dão essa medida. Desde que foi instituído o Real, dificilmente via-se uma nota de 100 reais. Mas, para nossa preocupação, hoje, como a nos alertar para a desvalorização pela qual vem passando, essa nota mostra-se faceira de mão em mão, constatando a diminuição de seu valor aquisitivo, tão eficiente em passado recente.

Não foi à toa que me veio às mãos moeda que, sem nenhum valor de compra, trouxe em si uma oportunidade enorme de recordações e de sinal para que estejamos vigilantes ao que possa vir a acontecer com nossas políticas, econômica e financeira, nestes tempos estranhos.

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