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14 de Novembro de 2018

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Edição nº 972 / 2018

22/05/2018 - 15:45:20

Efeito corrupção

CLÁUDIO VIEIRA

Duas vezes na semana dirijo-me a casas lotéricas – quase sempre a mesma – para fazer a minha fezinha. É habito tão antigo e sem sucesso que já nem sei se espero ganhar ou simplesmente goste de arriscar. O interessante é que passo às vezes duas ou três semanas sem sequer conferir os números. Por outro lado, essas idas à casa lotérica são uma distração agradável. Lá reencontro amigos e conhecidos, conheço novas pessoas, jogo papo fora e faço minhas apostas. Afinal só poderá ganhar quem joga, não é mesmo?

Semana passada conheci um senhor, idoso como eu, e, não sei quem tomou a iniciativa, puxamos conversa. Lá para as tantas, o papo descambou para a política, para a Lava Jato e, inevitavelmente, para as eleições que se avizinham. Especulamos nomes para todos os cargos, desde deputado estadual a presidente da República. Revíamos as obras daqueles que já ocuparam ou ainda ocupam cargos, invariavelmente descartando nomes, pois envolvidos em episódios de corrupção, em inquéritos e processos desairosos, que só não incomodam insensatos. Aqui e ali descobríamos candidatos fichas-limpas, porém de pouca densidade eleitoral, quase em desesperança de eleição. Comparo-os à minha persistência no jogo da mega-sena: eles concorrem por saberem que só quem disputa pode ganhar. Difícil, mas não impossível, consideramos, meu novo amigo e eu. Uma coisa ficou patente, não votaremos em qualquer um que esteja envolvido em atos ímprobos, em ladroagem, em propinas, etc. E fizemos nossos votos para que esses percam e sejam defenestrados da política brasileira.

Mas o desencanto do meu novo amigo revelou-se tamanho, quando ele disse, repentinamente, que estava na hora de os militares assumirem. Surpreso, só pude comentar, um tanto acanhado: veja a que ponto nós chegamos!

De fato, durante os governos militares, muitos – a grande maioria dos brasileiros – ansiamos pelo fim daquelas quadras em que a farda mandava e desmandava, com alguns acertos, mas sempre com autoritarismo, o que é naturalmente contrário ao espírito brasileiro, sempre disposto a amenidades, à descontração, à cordialidade. Recordo ainda a alegria e alívio popular quando se deu o primeiro governo civil pós sessenta e quatro. Ainda não era o que esperávamos, o voto livre, uma democracia pujante. Não! Mesmo assim, alegramo-nos, e apesar de a primeira eleição ter sido indireta, o fato permitiu-nos partidarização, coisa incomum nos chamados anos da caserna. Infelizmente, desde então os sucessivos governos civis têm trazido desencanto, que nos dias de hoje chegou ao fundo do poço, ao ponto de um cidadão que, pela idade, vivenciou as restrições de liberdade, e que respirou livre após a saída dos militares do poder, hoje espere tão inusitado retorno ao passado. 

Ó tempora! Ó mores! Exclamou o grande Cícero em repúdio aos desmandos de Catilina. Ó tempo! Ó costumes! Dizemos repetindo o senador romano, principalmente nos atuais dias brasileiros.

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