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15 de Novembro de 2018

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Edição nº 971 / 2018

15/05/2018 - 10:46:45

Marcas indeléveis

JOSÉ MAURÍCIO BREDA

Não fosse o costume que hoje temos de andar sem que nos apercebamos do nosso entorno, e não precisaria que uma foto no Facebook levasse-me de volta aos primórdios do meu tempo. Sim, porque ainda se encontram do mesmo jeito os dois prédios na esquina da rua Cincinato Pinto, antiga do Macena, com a Moreira Lima, antiga Primeiro de Março, postados no Grupo Maceió Antigo. Eram a Casa Síria (hoje Cabús) e a Casa Tito Lemos, dos colchões. Levou-me de volta porque, recém-nascido na Maternidade Sampaio Marques, adentrei pelos portões do casarão de nº 57 da rua do Macena nos braços de minhas mães, e lá fiquei quase 30 anos de minha vida. 

A citação de duas mães não é à toa, pois como já disse certa feita, tive duas; enquanto a mãe Dulce me gestava, a mãe Nina, minha babá, esperava-me. Homenageio-as neste fim de semana com as saudades que me vêm daquele aconchego. Começo pelos sons que vinham da rua, ainda hoje gravados na memória. 

Da esquina citada, de vez em quando, à noite, ouvíamos o estrondo de uma “trombada”, como chamavam-se as batidas de carros. Ao amanhecer, acordar com a buzina do sr. Zé e seu carrinho de leite; uma grande leiteira montada em cima de três rodas de onde, com uma concha, enchia as garrafas características da época, que a clientela levava. E vinham outros como o amolador de facas e tesouras com seu realejo. O vendedor de quebra-queixo com seu sininho. O comprador gritando “jornal velho e revista”, que me proporcionava, com a venda desses trastes, adquirir uma “couraça” nova para boas peladas com os amigos. 

Mas havia uns que ainda sinto ouvir de vez em quando; os dó, dó, dó.../ ré, ré, ré.../ mi, mi, mi.../, emanados dos pianos que sr. Benedito Salustiano afinava, na casa adiante da minha. Sem esquecer a chamada do telefone Ericsson, preto, que ainda o tenho, cujo número era apenas 602 e foi crescendo à medida que eu crescia: 2602, 3-2602, 23-2602 e finalmente, 223-2602. Escudeiro fiel de meu pai, Carlos Brêda, com o qual geria seus negócios.

E lá vem à lembrança a bicicleta Mercswiss, hoje uma relíquia com seu freio contra-pedal, na qual rodava todo o centro da Maceió antiga. Quando precisava de um conserto, ia lá na oficina do sr. Zezinho, pertinho do Mercado Público. Consertava e alugava bicicletas. Minha irmã Maria Alice tinha uma Philips, hoje também relíquia. Outros, momentos tristes, eram as passagens diárias dos presidiários que vinham da Cadeia, com suas roupas listradas, para trabalhar no calçamento de alguma rua – pagavam seu alimento. E tantas outras recordações que o espaço não permite. Mas ficou-me o porão da casa onde dormia e acordava em todo o tempo que por lá passei: criança, jovem, adolescente, adulto ou já casado, deixando marcas indeléveis na minha memória.

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