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20 de Novembro de 2018

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Edição nº 971 / 2018

15/05/2018 - 10:35:46

JORGE OLIVEIRA

Drogas na campanha

JORGE OLIVEIRA

Brasília - A reforma política que deu poderes aos presidentes de partidos para que eles distribuam bilhões de reais durante a campanha deste ano será responsável, provavelmente, por um grande desvio de dinheiro público semelhante aos escândalos dos últimos anos. Ao transformar esses donos de legendas em coronéis financeiros, a legislação permite que eles selecionem os candidatos que devem receber suas cotas para gastar na campanha à sua melhor conveniência. Os que se sentirem prejudicados certamente vão entrar na Justiça e o R$ 1,7 bilhão do fundo eleitoral pode ser suspenso interrompendo campanhas em alguns estados.

A ideia da criação do fundo era evitar que empresas participassem com dinheiro lícito ou ilícito nas campanhas, depois da descoberta da maior rede de corrupção do país com a geração do caixa dois por meio de contratos fraudulentos das empreiteiras com as empresas públicas. Pois bem, a nova lei, agora, deixa nas mãos dos presidentes dos partidos, muitos envolvidos na Lava Jato, a divisão do dinheiro para cada candidato nos estados. Abre-se, assim, é claro, uma janela para fabricação de notas fiscais frias e outros artifícios para justificar a saída desses recursos bilionários para centenas de candidatos no país.

Ora, se o Congresso legislou para moralizar as eleições, na prática, a realidade é outra. Ninguém sabe – nem advogados especializados – como será feito o rateio dessa fortuna na campanha. Até o momento, os candidatos majoritários, principalmente, desconhecem como vão fazer suas campanhas e como devem receber suas cotas, o que impede que eles contratem produtoras, marqueteiros, gráficas e montem a infraestrutura da campanha. Ganha quem apostar que esta será a eleição mais fraudada da história se os tribunais não forem vigilantes com a distribuição desse fundão.

O mais grave, porém, são os buracos na legislação que dão margem à corrupção e o desvio de recursos do fundo eleitoral. Candidatos medíocres, os porcas urnas, aqueles de pouca importância – ou nenhuma -  numa coligação partidária, vão ressurgir nas eleições. Muitos aparecem nessas horas para extorquir empresários. Outros, mais habilidosos, apresentam-se como laranjas. Existem, no entanto, aqueles que estão no mandato e vão apelar para se reeleger. Preteridos na distribuição da cota, vão correr atrás do dinheiro fácil.

Políticos experientes, com quem conversei, alertam que esse dinheiro invisível poderá vir do tráfico de drogas. Dizem que, a exemplo do surgimento das bancadas dos evangélicos e dos ruralistas no Congresso Nacional, os traficantes também se preparam para ocupar espaço na política e formar seus ninhos no Congresso financiando candidatos. Em doses homeopáticas isso já vem ocorrendo. No Rio, a deputada federal Cristiane Brasil, filha de Roberto Jefferson, e o deputado estadual Marcus Vinicius (PTB), respondem a processo por associação ao tráfico, depois da descoberta de que traficantes do bairro de Cavalcanti ajudaram a elegê-los.

As drogas

Ora, não é difícil supor que candidatos sem acesso ao fundo eleitoral recorram ao dinheiro fácil da droga para bancar suas campanhas, já que o caixa dois – se existir – estará muito vigiado e alguns desses políticos vão preferir o dinheiro “não contabilizado” para financiar suas campanhas. O Brasil, na América do Sul, não seria o único país com uma bancada financiada pelo narcotráfico. É bom lembrar que na Colômbia até o chefão Pablo Escobar representou a sua turma na Câmara dos Deputados eleito legitimamente pelo voto popular.

Facções

Portanto, não seria de se estranhar que o narcotráfico e as facções criminosas, que agem dentro dos presídios, comandassem ações aqui fora para criar uma base política de defesa de seus interesses no Congresso Nacional. No comércio das drogas, o Brasil não está tão longe dos cartéis colombianos.

Ignorância

O mais impressionante é que os próprios políticos que elaboraram a lei do Fundo Eleitoral desconhecem todos os seus artigos, o que mostra que muitos deles votam sem saber o que estão votando no Senado e na Câmara. Dizem desconhecer, inclusive, como os presidentes dos partidos vão distribuir o dinheiro para as campanhas.

Alarme

Há possibilidade também desse dinheiro do fundão não ser distribuído devido a burocracia que será criada para a liberação dos recursos. Se isso ocorrer, muitos candidatos ficam impossibilitados de manter a campanha por não honrar seus compromissos.

Infiltração

Diante de tanta dificuldade é que muitos candidatos admitem que o dinheiro sujo das drogas vai, sim, financiar a campanha de muitos políticos, principalmente no Rio e nos estados que fazem fronteira com países que abrigam os mais notórios narcotraficantes, como a Bolívia, Colômbia, Peru e Paraguai.

Cautela

Os políticos veteranos – aqueles de várias campanhas – estão cautelosos. Não querem se expor e vão evitar o caixa dois depois da prisão do Lula. Confessam que a justiça eleitoral está mais rigorosa e que a prisão do ex-presidente deixa muitos deles com as barbas de molho, pois aconteceu o que eles jamais imaginariam: a prisão de Lula por corrupção.

O Zé

Zé Dirceu tem feito encontros de despedida no seu apartamento com velhos amigos. Sabe que ainda este mês será recolhido ao presídio para cumprir a pena de 30 anos confirmada em segunda instância. Seus convidados ouvem que ele está preparado para viver boa parte na cadeia. Lamenta apenas ter que se separar da filha de 8 anos no momento, segundo ele, em que a menina mais vai precisar do pai. 

Hábitos

Mesmo com os bens indisponíveis – alguns já foram a leilão – Zé não perde os bons hábitos. Recebe os amigos sempre com vinhos portuguesas de uvas selecionadas. Gosta de dissertar sobre cada um que serve à mesa. O ex-ministro de Lula não está tão duro assim, pois recebia mesadas em dinheiro vivo, segundo apurou a Polícia Federal. Portanto, ainda tem uma boa reserva para apreciar vinhos especiais da região do Douro. 

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