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15 de Novembro de 2018

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Edição nº 970 / 2018

09/05/2018 - 16:03:03

Carregadores de andor

Isaac Sandes Dias

Logo ali, depois da Copa, depois de junho, teremos o País voltado para as eleições gerais que vão escolher nosso novo presidente da República.  Após a interinidade balouçante do atual chefe da Nação, teremos a oportunidade de escolher alguém que tenha menos barro nos pés.

Os últimos dirigentes mostraram-se todos frágeis e sujeitos a desabar por qualquer pedrinha que lhes atingisse os pés. Pior, ao contrário do ídolo do aforismo bíblico, os nossos nunca tiveram cabeça de ouro, corpo de prata e pernas de ferro. Na verdade, nossos ídolos caídos ou por cair são, em sua totalidade, do mais sujo e impuro barro.

Diante da proximidade do pleito, nossos eleitores mais esclarecidos encontram-se no mesmo dilema em que um dia se encontraram os moradores da pequena cidade sertaneja onde nasceu um grande amigo.

Me contou ele que por ocasião de uma Santa Missão. Para quem não sabe, Santa Missão era uma espécie de moderno e abrandado Auto de Fé da Santa Inquisição.  Nela, os bispos e padres mais eminentes visitavam pequenas cidades fazendo exorcismos, tomando a confissão dos fiéis e lhes impondo pequenas penitências autopunitivas. Geralmente a Santa Missão terminava com uma apoteótica procissão pela cidade.

Narrou o amigo que no momento de iniciar-se a procissão em sua pequena cidade, o bispo requisitou dos moradores os nomes de quatro cidadãos puros, ou, pelo menos, sem pecados mortais para conduzir o andor da Santa Padroeira.  Nesse momento os respeitáveis cidadãos se entreolharam e correram para trás do altar onde fizeram uma pequena reunião.

De volta, o líder da comunidade pediu para ter uma conversa reservada com o bispo.

Timidamente, começou a conversa: 

-Vossa Excelência Reverendíssima... Antes de tudo, quero pedir antecipadamente o seu perdão se por acaso julgar o que vou dizer um pecado ou heresia. O negócio é o seguinte:  quando o senhor pediu o nome de quatro homens puros para conduzir o andor, todos os presentes temeram cometer o pecado maior do perjúrio.

– Como assim filho? –  Perguntou com uma ponta de ironia o Bispo. - É que numa pequena reunião que fizemos não encontramos, aqui na cidade, ninguém que não tivesse pelo menos uma rapariga do tipo teúda e manteúda.

Aquilo fez corar o bispo, que esperava um disparate, mas não daquele tamanho. 

– E agora? – Indagou o bispo de fronte franzida.  – O povo está todo na frente da igreja esperando a procissão começar.  Não posso conspurcar o andor da Virgem e não tenho como explicar a não realização da procissão.

Enquanto o impasse se arrastava, a tarde avançava e o burburinho das beatas apressadas já era evidente.

De repente, o céu enegrece e uma grande trovoada desaba sobre a seca cidade que já amargava um ano de estiagem. Vendo aquilo como um sinal de Deus, o devoto povo espalhou-se em comemorações e gritos de milagre, carregando o religioso nos braços. A procissão foi esquecida e os impuros cidadãos absolvidos pelo bispo que, pelo sim pelo não, não quis contrariar a versão do milagre.

Assim estamos nós brasileiros, mais uma vez, diante da eleição que se aproxima. Sem vislumbrar o nome de um único candidato honesto para conduzir o andor do nosso País nos próximos quatro anos. Talvez, lá pela última hora, apareça qualquer candidato ou fato milagreiro que faça a ignara multidão de eleitores esquecer os pecados e mazelas dos seus líderes e carregar o novo salvador da pátria no alto andor da Nação.

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