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14 de Novembro de 2018

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Edição nº 970 / 2018

09/05/2018 - 16:02:35

Atitudes em poema

JOSÉ MAURÍCIO BREDA

“Na primeira noite eles se aproximam / e roubam uma flor / do nosso jardim. / E não dizemos nada. / Na segunda noite, já não se escondem; / pisam as flores, / matam nosso cão, / e não dizemos nada. / Até que um dia, / o mais frágil deles / entra sozinho em nossa casa, / rouba-nos a luz, e, /conhecendo nosso medo, / arranca-nos a voz da garganta. / E já não podemos dizer nada”.

Mesmo não sendo um aficionado, sempre lembro alguns poemas que me marcaram. E um deles é o com o qual abro estas linhas.

À mesa com minha família, ci-tando-o, pedi que lembrassem o autor, pensando fosse polonês ou russo. Um de meus filhos deu a autoria como sendo do russo Vladimir Maiakovski (1893-1930). Após o almoço, vou à internet e procuro pela obra do poeta sem nada apontar para tal poema. Continuando, coloco trechos do mesmo em site de busca e deparo-me com grata surpresa. Existem vários artigos e comentários sobre a autoria da bela obra. A vida inteira foi dada como sendo de Maiakovski.

Mas o feitiço havia virado contra o feiticeiro. Sim, porque o autor do lindo poema, que apenas transcrevi em parte, é Eduardo Alves da Costa, de Niterói-RJ, nascido em 1936, portanto seis anos após a morte do suposto autor e foi escrito nos anos 60 durante a ditadura militar.  Por ter posto o título “No Caminho com Maiakovski”, e não ter lutado veementemente quando devia, pela sua autoria, viu-se como personagem de seus próprios versos.

Tudo isso, diz, porque o psicanalista Roberto Freire o incluiu em um de seus livros, dando créditos de autoria ao russo e de tradutor ao brasileiro.

Ao ser perguntado se se arrependia de ter colocado o nome de tão famoso autor no título – “De maneira alguma! Tanto que vou usar o mesmo título para o livro que sai agora” – setembro de 2003- Folha de S. Paulo.

E tem motivos bastante quando flui no início de seus versos, “ Assim como a criança / humildemente afaga / a imagem do heroi, / assim me aproximo de ti, Maiakovski. / Não importa o que me possa acontecer / por andar ombro a ombro / com um poeta soviético”.

E como ironia pela dúvida da autoria, termina: “Mas dentro de mim, / com a potência de um milhão de vozes, / o coração grita – MENTIRA!”

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