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23 de Setembro de 2018

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Edição nº 969 / 2018

02/05/2018 - 15:55:19

Radiola de cafetina

Isaac Sandes Dias

Em busca do autoconhecimento, mergulharei agora a uma profundidade de aproximadamente 50 anos para resgatar de minha infância pendores e gostos que enterrados nas profundas minas do tempo, vez por outra, afloram como auríferos veios.

Quem de nós, vez em quando não se delicia nesta solitária e vivificadora garimpagem de memórias.

Relembrar é viajar no tempo remoto sem as imaginárias e futuristas máquinas da ficção científica.

É uma viagem franca e baratinha que, uma vez bem conduzida, poderá nos levar ao interior das mais ternas lembranças. 

Agora mesmo programo a rota dessa máquina no rumo da origem de meu gosto pela música.

A primeira parada é no doce e afinado cantar materno, utilizado para acompanhar a faina diária de minha mãe com o que havia de mais puro e autêntico do cancioneiro popular.

Próxima estação!  A casa ao lado da minha. Lá, o carroceiro Cartolinha   dedilhava competentemente um violão em suas horas de descanso.  E eu, no papel de   seu filho postiço, o acompanhava por horas naquela fuga diária de seu cansativo trabalho.

Mais adiante, já me vejo peruando a roda de choro formada por verdadeiros mestres como João de Santa, Paulo dos Meirús, Adail Arruela e Zé Negão.

Adail se destacava tanto pela competência musical quanto pela sua astúcia.  Astúcia esta que lhe valeu o apelido de Arruela.

 Em toda noite de farra, espertamente, após comer todo o tira-gosto servido, Adail quebrava as cordas do violão e ia dormir tranquilo. Os frustrados amigos, desconfiados de tão frequente acidente finalmente descobriram o golpe. Fritaram então pedaços de sola com bastante tempero e misturaram a uma cheirosa e crocante farofa. Sem desconfiar de nada Adail caiu como um pato na pegadinha.  Como sempre fazia, naquela noite, Adail atacou com voracidade o tira-gosto. Mastigou, mastigou… até cansar o par de queixo e nada de dar cabo daquela suposta carne. Mastigava e tocava, tocava e mastigava e nada de chegar o momento de quebrar as cordas do violão e rumar pra casa. Desconfiado, viu já tarde que o que mastigava era sola frita, sem passar recibo partiu pra casa aos primeiros raios do sol, envergonhado e acompanhado pelo riso zombeteiro dos amigos que, dali em diante, quando queriam relembrar o episódio o chamavam de Arruela. 

 Próxima parada, casa da Madame Min, velha a quem dei o apelido por ser tão malcriada e rabugenta com crianças quanto a Bruxa dos quadrinhos.  Madame Min só se tornava boazinha quando recebia a visita de sua filha, notória e famosa cafetina.

Bem sucedida e fazendo fama na Rua Chico Nunes, em Palmeira dos Índios, a pródiga filha da Madame sempre a visitava uma vez por ano e, nessas visitas, vinha acompanhada de uma caravana hollywoodiana. Aquilo era um verdadeiro evento.

Sua entourage contava com um cafetão, a prostituta que estava em evidência no seu cabaré naquele momento, um ou dois gays que se encarregavam do cerimonial, um motorista, um cozinheiro, um magro leão de chácara, um carro último modelo e uma enorme radiola, daquelas  montadas em vistoso móvel de madeira.

Na inocência dos meus dez anos, jamais desconfiei que a joia da Coroa daquela caravana era a iniciante meretriz, então a desprezava e punha meus olhos e ouvidos naquela enorme radiola que, por horas seguidas, reproduzia as mais belas canções do momento acompanhadas, quase sempre, pela límpida voz da cafetina.

Ali, de pé ou debruçado na janela, passava horas ouvindo a voz da dona e a dona da voz que eram de uma musicalidade e beleza inigualáveis.

Enlevado e embalado pela inocência, imaginava ser aquela desenvolta e rica senhora uma empresária de sucesso. A beleza hipnótica daquela música fazia com que ficasse pendurado naquela janela trocando, vez por outra, o pé cansado e torcendo pelo   eterno sucesso daquela respeitável criatura, sem desconfiar que todo aquele prazer e admiração me eram proporcionados por uma radiola de cafetina.

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