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20 de Novembro de 2018

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Edição nº 968 / 2018

24/04/2018 - 22:57:00

O tempo não perdoa

Alari Romariz Torres

Quando passamos dos setenta anos, vemos, com clareza, as dificuldades da vida.

Irritante é o tratamento que determinada pessoas dão aos idosos: uns chamam de “veia”; outros chamam de “tia”, num claro e visível deboche.

Passamos a ser vistas como criaturas que já viveram muito e não se acostumam às mudanças ocorridas com o passar dos tempos.

O namoro dos jovens começa pelo fim, como diz uma velha amiga minha. É comum ver meninas e meninos de 15 anos, no início do namoro, já dormindo juntos e viajando sós. As opiniões dos mais idosos divergem. Conversávamos num certo ambiente, eu e alguns amigos de mais de sessenta anos; alguns diziam: “Aceito porque meu filho permite”; outro retrucava: “Não aceito de modo nenhum! Sou conservador”. Na realidade, qual a maturidade deles, adolescentes, que namoram logo cedo e mantêm um relacionamento tão sério? Aí, o namoro acaba, vem outro, outro e outro. Vira vulgaridade.

O novo sistema de vestibular é, no mínimo, injusto. Jovens de todo Brasil fazem a mesma prova e são classificados pelo número de pontos obtidos. Aí, um estudante que fez uma prova em São Paulo, e por lá reside, é aprovado para a Universidade Federal de Alagoas. E se os pais não tiverem condições de mantê-lo em outro estado? O pobre coitado terá que fazer novo vestibular e tentar ficar na sua terra natal. Então, na minha cabeça de velha de setenta e sete anos, paira a seguinte dúvida: por que cada estado não tem o seu vestibular? Os privilégios continuam com aqueles possuidores de maior renda.

Fato comum no Brasil inteiro é ver os avós, com suas pensões, sustentarem a família. Conheço uma senhora de mais de oitenta anos sustentando filhos e netos. Compram carro novo, casa de praia, viajam e a pobre velhinha, tida como um enfeite de sala, nem sabe que ela é a mina. Quando a coitada adoece é uma loucura! E não é por amor! É medo de perder a “galinha dos ovos de ouro”.

Certa feita estava no aeroporto de São Paulo indo para São José dos Campos. Houve um atraso no voo e precisávamos pegar um ônibus. Outra filha gritava: “Corre, mãe, o moço está esperando”. Eu, aflita, com as pernas trôpegas, não conseguia correr. Angustiada, respondi: “Não posso correr, libere o ônibus”. Delicadamente, o motorista me aguardou, mas os passageiros riram com a aflição da idosa.   

Outra vez, no Rio, resolvemos, eu e meu marido, pegar um “frescão” para rever alguns locais da cidade maravilhosa. Na hora de subir no veículo, as pernas me faltaram; era alto o degrau de acesso. Foi preciso Rubião me empurrar um pouco. E mais uma vez, as pessoas riram da pobre anciã.

Ainda fico chocada com a maneira de tratar pessoas mais velhas. Tudo é motivo de riso! Às vezes, até grosserias são ditas às pessoas de mais de sessenta anos.

Fui procurada por alguns amigos revoltados com o que viram na internet. Um companheiro de mais de cinquenta anos zombando dos associados do Sindicato dos Aposentados. Dizia ele: “Fizeram mungunzá para D. Pedro II. São velhos demais”. Fiquei irritada e perguntei se ele tinha mãe. Depois soube que a pobre coitada estava na UTI e morreu logo. Procurou-me o gaiato para se desculpar. Não me convenceu, mas nos entendemos.

Gosto de ver pessoas que curtem a velhice passeando, viajando. Por onde ando, vejo grupos da melhor idade se divertindo e admiro a alegria deles.

Mas, passados todos esses anos de vida, chegando perto do final, ainda me choco com determinadas atitudes. Exemplo nítido do que falo é o comportamento de uma senadora e seu marido que roubaram dinheiro dos velhinhos aposentados de nosso país.

Tento viver bem, curtir filhos e netos, não me assustar com certas modernidades, mas não é fácil acompanhar o comportamento desenfreado da juventude.

O tempo não perdoa, vamos enfraquecendo, com medo de cair, utilizando as caixinhas de remédio e agradecendo a Deus por tudo que recebemos! 

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