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21 de Novembro de 2018

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Edição nº 965 / 2018

04/04/2018 - 21:27:06

Garçons em três momentos

JOSÉ MAURÍCIO BREDA

Um dos garçons, que nos atendia nas reuniões sabáticas com amigos, cursava Administração e, dizendo-se leitor de meus artigos, indagava-me sobre a sua profissão em tempos passados e por que não trazer essas lembranças. Sente a impessoalidade no tratamento do cliente, este quase sempre estressado. Parecia adivinhar ter sido eu um bom boêmio na época em que, clientes e garçons, interagiam como bons amigos. Se as atribulações diárias, hoje, não o permitem, houve tempo em que só faltava sentarem-se à mesma mesa para um bom papo. Realizações familiares, problemas ou sucessos dos filhos eram relatados a nós ao simples encostar nos espaldares das cadeiras. Sem o tal crachá dos últimos tempos, por todos eram conhecidos pelos seus nomes ou apelidos. Júlio, Sapo, Pescoço, Grinfo, Zé Francisco (baixinho sempre elegante), Estácio (o Tacinho do Bar das Ostras – ainda na beira da lagoa) e tantos e tantos outros que não me vêm à memória. Todos batalhavam para educar e formar os filhos. A eles não lhes foi dada essa chance que estava tendo o nosso indagador. Mal completavam o primário.

De um deles veio-me à lembrança o acontecido em reunião jantar do “Lion’s Club”, lá no último andar do Edf. Iapetec na Praça dos Palmares. Contam que o garçom, se não me engano, o Pescoço, servia uma saborosa sopa quando um associado “leão”, curioso, perguntou indignado qual o motivo de estar com o polegar dentro do caldo. Para espanto do cidadão, respondeu: “Nada não doutor; foi o médico que me receitou colocar o dedo em lugar quentinho para a cura do panarício. Quando não está na cloaca de uma galinha, sempre consigo um ambiente aquecido”.

Já comigo, em tempo mais recente, após refeição num dos melhores restaurantes de nossa Maceió, perguntei ao cumim (aprendiz de garçom) qual vinho do Porto dispunha para servir. Informando-se do colega próximo e sem entender a resposta, prontamente, disse-me; “Louro José”. Rindo, indaguei se a Ana Maria Braga viria junto, o que o deixou assustado. Na realidade tratava-se de um “Dom José”, mas, para não o deixar de todo acabrunhado, disse-lhe que se o Porto fosse um “Tawny”, tinto porém mais claro, poderia tratá-lo como tal. Os colegas, prontamente, apelidaram-no de Louro José.

Há algum tempo, viajando à Iturama, interior de Minas, onde fui visitar Lucas e Hugo, netos queridos, acabara de almoçar em restaurante tipo “pesque e pague”, inverno gelado, galpão aberto com ventos cortantes, solicitei ao garçom um digestivo (um licor, algo com teor de álcool mais alto). Qual não foi minha surpresa quando o jovem, tão bem intencionado, voltou trazendo na bandeja um copo com água e um comprimido de Sonrisal. Não me contive, ficando o espantado garçom sem entender o motivo de minha gargalhada.

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