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22 de Setembro de 2018

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Edição nº 961 / 2018

06/03/2018 - 11:21:27

Serra véio

Claudio Vieira

No passado a vida era, talvez, mais prosaica, mais bem-humorada, sem preocupação com segurança, no que hoje nos tornamos paranoicos, ou quase. Lembro bem da minha infância-adolescência, dos folguedos juninos, das festas natalinas, quadrilhas matutas e pastoris, das paqueras e namoros, olhares lânguidos e pidões. Havia também brincadeiras engraçadas. Dentre essas troças, havia uma sempre praticada nas horas altas do sábado de aleluia. Grupo de rapazes escolhiam um velho, em geral o mais abusado, menos cordato da rua ou do bairro, e pela meia-noite reuniam-se em frente à casa do desditoso. Um dos jovens serrava um pedaço de madeira, com serrote bem velho, daqueles que fazem bastante barulho, e todos perguntavam aos gritos, por exemplo, para quem o coitado ia deixar o sapato novo? Ou o terno de linho? Ou o pinico? E assim por diante. Era algo meio trevoso, mas engraçado. Não raro o velho homem abria a janela, ou mesmo gritava de casa, mandando os “vagabundos procurarem o que fazer”. Algum mais desbocado, berrava palavrões. Chamava-se “serra véio”, esse chiste. Poderia ser que a vítima fosse uma mulher – “serra véia” – mas isso era mais raro, graças ao respeito que se tinha pelas mulheres. Certamente lembravamo-nos das nossas mães e avós.

Esta semana, ouvindo entrevista do presidenciável Geraldo Alckmin, governador do estado de São Paulo, o “serra véio” reacendeu em minha memória. Eu mesmo me perguntei o que teria a haver o conhecido político com aqueles folguedos de antanho. Nada, foi a minha primeira conclusão. Acabei, no entanto, por perceber o sentido da coisa. Tanto o Sr. Alckmin, como os demais presidenciáveis, ladinamente põem em seus discursos a questão da tão falada, quase sempre incompreendida e odiada reforma da previdência. Uns defendem-na, outros a ela se opõem, e parece que a todos falta a sinceridade no trato do tema. Os opositores, esses o fazem por questões interesseiras nesse ano eleitoral. Os demais justificam-na no envelhecimento da população, e por A+B, exibem estatísticas que supostamente lhes dão razão. 

Em outros países, aqueles de cultura mais vetusta, tratam os seus idosos com desvelo e orgulho, seja pela longevidade de sua população, o que sugere uma sociedade saudável, ou seja pela sabedoria acumulada com o tempo de uma vida profícua. Os velhos, afinal, são repositórios de experiência, de conhecimento, de cultura, de saber. No Brasil, ao contrário, os políticos promovem verdadeiros “serra véios”, negando-lhes uma velhice tranquila, premiada, um final de vida saudável.

Antes de se “serrar os véios”, culpando-os pelas dificuldades da previdência e medindo por baixo os benefícios da aposentadoria, por que não se diminui a burocracia dos órgãos previdenciários, reduzindo os custos com funcionários desnecessários, notadamente os ocupantes de cargos políticos? Ou promove-se a cobrança dos grandes devedores, caixa-preta esquecida nos escaninhos dos burocratas?  Falta, no contexto, transparência.

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