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21 de Novembro de 2018

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Edição nº 961 / 2018

06/03/2018 - 11:19:33

A meretriz das vontades

Isaac Sandes

Ao tratar das qualidades do homem, escritores, poetas e demais agentes políticos ou culturais alçam ao lugar mais alto de seus discursos, tratados e poemas, as magnas virtudes contidas nas manifestações da razão humana que denominamos de vontades.

Santo Agostinho chegou a afirmar: “Deus é o senhor das vontades humanas”. Tal afirmação coloca os desígnios humanos quase que como um sopro divino, do qual o homem é apenas um mero executor. Elevadamente, quis dizer com isto o mestre da Igreja que até a vontade e a força contidas na fé do homem só têm início por um dom de Deus, pois ele, o homem, só irá verdadeiramente crer quando Deus lhe abrir a porta à palavra para que esta palavra seja, pois, a chave que abrirá os sentidos daquele surdo ouvinte que, dali em diante passará a ouvir e a crer.

Mas, livre-me Deus da presunção de abordar em tal patamar o sentido das vontades humanas. Não; minha abordagem é secular, humana, quase blasfema.

Falo aqui das pequenas vontades humanas; as comezinhas; aquelas que são o tormento de uns, a felicidade e o sucesso de outros e, às vezes, a desgraça de uns tantos.

A ambição, por exemplo, na medida certa torna-se ferrenha vontade que faz crescer social e economicamente o mais simplório dos elementos de uma determinada classe social e o coloca em paridade com as mais proeminentes das castas.

A conquista do ser amado é vontade que transmuta qualquer idoso em vigoroso e fogoso adolescente, faz o sisudo tornar-se ridículo e o ridículo tornar-se um casmurro.

O desejo aventureiro é vontade que faz o homem trilhar desertos, escalar montanhas e vagar por imensidões geladas sem o menor temor.

Tal vontade tornou possível o milagre dos descobrimentos, pois só ela poderia ser o motor que daria o impulso para que um punhado de homens se lançasse à cegas em imensos e desconhecidos mares.

A vontade de aprender faz com que adultos já calejados e curvos sob o imenso fardo de uma difícil vida se alfabetizem e tornem-se até ministros de Estado.

Assim são tantas vontades humanas as quais, não sendo tão elevadas quanto a vontade da fé espiritual tão bem abordada por Santo Agostinho, são da mesma forma importantes para a caminhada terrena do homem.

Dentre tais vontades, existe uma que, bem nascida em terras da Grécia, tinha tudo para ser uma das mais belas e nobres entre os homens, falo da vontade democrática que foi garantida por superior direito ao homem. Direito a expressar sua livre vontade na escolha de seus dirigentes, legisladores e líderes políticos. No entanto, é triste ver e registrar como tal vontade, que era para ser soberana, vem sendo manipulada e deturpada ao longo da história da humanidade.

Talvez um dos maiores e mais trágicos exemplos de manipulação e uso indevido da vontade expressa pelo livre arbítrio do voto tenha sido o que nos foi dado por Pôncio Pilatos que, já naquela época, ao vislumbrar o quanto poderia ser manipulada, lançou mão de uma rápida e corrupta eleição para se ver livre da culpa de derramar o sangue do mais injustiçado entre os homens, Jesus Cristo.

Talvez ali, tal vontade tenha cometido o seu pecado original e nunca mais tenha alcançado sua recuperação na trajetória da humanidade. Hoje, como sabemos, a expressão das urnas nunca representa a melhor escolha para os grupos, as sociedades, as religiões e povos em geral. Tudo porque o que era para ser uma das mais nobres expressões do homem vem, desde aquela desgraçada eleição que condenou o inocente Cristo e libertou o malfeitor Barrabás, se aviltando, se corrompendo, se prostituindo, se tornando, pela sua livre mercadância, a meretriz das vontades humanas.

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