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19 de Setembro de 2018

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Edição nº 960 / 2018

27/02/2018 - 16:28:23

Herança bendita

Alari Romariz

A maior herança que nossos pais deixaram para os oito filhos fomos nós mesmos. Meio difícil de explicar, mas é a pura realidade.

Ficamos órfãos em 1981 e lembro-me, ainda hoje, das palavras do meu velho: “Não se separem, sejam unidos. Procurem ajudar-se mutuamente”. E assim tentamos fazer! 

Quando meu irmão mais velho adoeceu gravemente, meu cérebro fervilhava: “Não o deixe morrer no SUS. Ele não vai ter plano de saúde. A responsabilidade é sua!” Palavras do velho Romariz.

Tento passar para meus filhos as lições que recebi de meus pais e estou conseguindo. Apesar de os quatro já serem adultos, ainda tenho a responsabilidade de mostrar-lhes algumas direções. Sinto-me um pouco ridícula quando vejo olhares que me dirigem, mas não desisto. 

Um filho com dezoito anos, já na Faculdade, ao ouvir meus conselhos, afirmava: “Mãe, já sou de maior, sei o que faço”. Doce ilusão. É sempre bom ter uma orientação de pais ou padrinhos.

Recentemente, uma filha me disse: “Mãe, nem sempre posso obedecer à senhora”. Ela não entende que uma velha mãe não espera obediência. Apenas aconselha. Ao insistir no erro, dirá depois: bem que minha mãe me avisou.

E ela retruca: “Aprendi com a senhora. Sigo seus acertos e aprimoro seus erros”. Gostei da frase, mas ainda acho que a velhice nos faz perder as forças físicas, mas revigora as forças mentais. Isto é, se o “alemão” não nos pegar!

Feliz aquele que ainda possui pai e mãe; um porto seguro onde pode chorar suas mágoas. Os velhos só querem o bem estar dos filhos e se irritam profundamente quando alguém machuca suas crianças. Toda noite, antes de dormir, penso nos meus quatro filhos e rezo por todos eles.

No nosso paraíso de Paripueira tínhamos um lema: nada é de ninguém, tudo é de todos. Quando alguma criança aparecia com um pacote de biscoitos na mão, um adulto o orientava para dividi-lo com as outras.

Tínhamos uma parente que levava uma garrafa de Coca-cola fechada na bolsa, pois o filho só aceitava o refrigerante inteiro. Num aniversário, fizemos com que o garoto fosse igual aos outros; tomasse a bebida no copo. Foi uma vitória!

Uma amiga que nos visitava deixou dentro da mala do carro várias caixas de iogurte para não dividir com as outras crianças. Durante a tarde, ouvimos um estouro: as caixinhas explodiram e o carro ficou todo sujo por dentro. O cheiro de leite azedo nunca saiu e ela vendeu o carro. Moral da história: viver em comunidade não é fácil.

Essas lições foram guardadas pelas crianças da família, levando-as a dividir tudo que recebiam. Hoje, vejo meus netos passando para os filhos regras semelhantes às nossas, seguidas pela alta tecnologia. Os computadores modificaram a vida das crianças modernas.

Já chegamos à fase dos bisnetos, mas insistimos nas pequenas coisas que se tornam tão importantes pelos caminhos da vida.

Outro dia, disse a uma neta: “Ganhei um belo xale, mas nunca o usei”. Esperei uma resposta negativa ou uma gozação. Ela pegou o xale, colocou-o nas costas e avisou: “Vó, hoje vou usá-lo num casamento, pois meu vestido está meio curto”. E ficou muito bonita; uma verdadeira espanhola.

Minha mãe era uma linda morena, vinte anos mais velha do que eu. Das lições que aprendi com ela, a mais importante foi a lei da boa vizinhança. Não frequentávamos a casa dos vizinhos, entretanto, chegávamos nas horas difíceis. E guardamos boas lembranças de nossos vizinhos.

A vida é, portanto, uma grande lição. Passamos para filhos e netos nossas experiências positivas, corrigimos nossos erros e rezamos ao bom Deus, para que eles sejam mais felizes do que nós fomos.

Deus existe. Não duvidem!

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