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15 de Novembro de 2018

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Edição nº 957 / 2018

30/01/2018 - 15:51:17

Um mentiroso honesto

JOSÉ MAURÍCIO BREDA

Sempre noto um gesto de dúvida na fisionomia das pessoas, quando me refiro ao ex-presidente debochado pelo codinome de “Jocão”. Não sei se esse apelido foi derivado de “jocoso” - engraçado, divertido - ou se veio de seu próprio nome, que também não sei. O fato é que, em tempos passados, existiu uma figura em nossa ainda pequena cidade que tinha como meio de vida a mentira. Frequentava com bastante assiduidade o conceituado Bar Colombo em frente ao Café Central, em plena Rua do Comércio. Procurando avivar minha memória para histórias contadas por meus pais, fui visitar o Google e deparei-me com uma crônica na Tribuna do Sertão, assinada apenas por Vladimir, com o título Jocão. Vieram-me automaticamente suas folclóricas mentiras. Chegava ao Colombo e procurava uma mesa de alguém mais abastado, pedia licença e sentava-se. Filava uma cerveja e desfilava seu novelo de novidades.

“Estão sabendo que fui escolhido o maior criador de codornas do Brasil?” Espanto geral, mas logo Jocão explicou. Tinha ido visitar um amigo criador de codornas no interior e ao sair foi presenteado com alguns ovos da ave embrulhados em jornal. Colocou no bolso do paletó e ao chegar em casa esqueceu do mimo e pendurou seu casaco no armário. Passado um mês, acorda de madrugada com os piados dos bichinhos. Eram oito filhotes de codorna. Não teve dúvidas, deu muito pirão de farinha de mandioca, os danados foram crescendo e assim iniciou uma criação que necessitou transferir para sua fazenda. Disse ter sido por mera sorte. Outra do Jocão foi o acontecido durante a Segunda Guerra Mundial. Como precaução contra bombardeios inimigos, o exército impunha um “blackout” proibindo que fossem acesas quaisquer luzes da cidade. Numa dessas operações militares, Jocão notou que aviões da fiscalização sobrevoavam sua casa tão baixo que deu para um vizinho acender seu cigarro nas chamas do motor. Mas aí veio a surpresa: soldados do exército chegaram na casa dele para averiguar que luminosidade era aquela que vinha de sua janela. Era o brilho do anel de diamante de sua esposa refletindo a luz da lua.

Porém a clássica lorota de Jocão foi quando pediram para que contasse uma mentira. Cabisbaixo, perguntaram por que estava assim. É que minha esposa – outros contam, a mãe – morreu e estou precisando de uma ajuda para o sepultamento. Indagado quando seria o enterro, disse que no outro dia, às dez horas. Fizeram uma vaquinha, deram ao Jocão e, no dia seguinte, foram pra casa dele. Quando bateram à porta, aparece o Jocão e sua esposa. “Sua esposa não morreu”, ao que o mentiroso respondeu: “Vocês não pediram que contasse uma mentira?” Como se dissesse: as outras histórias eram verídicas. E assim, Jocão passou a ser sinônimo de mentiroso. Mas honesto. Enquanto o debochado...

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