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16 de Novembro de 2018

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Edição nº 954 / 2018

09/01/2018 - 15:24:59

AL-135 desenterra passado de Alagoas

Escavações em obras descobrem tesouros de índios e engenhos de Alagoas

Odilon Rios/ Especial para o EXTRA
Ana Laurindo destaca massacre dos índios, cujos tesouros são agora descobertos na AL-135

No meio do progresso, vestígios da história de Alagoas apareceram em escavações para a construção da AL-135, que liga Matriz de Camaragibe e Passo de Camaragibe. O caminho mais curto entre as duas cidades tem 10,2 km e promete, segundo o governo, criar uma nova rota turística. A promessa está no futuro: com a construção do aeroporto de Maragogi, objetivo é atrair os turistas para as praias ainda pouco exploradas no Litoral Norte - muitas delas ao redor de Passo.

Só que as escavações para a estrada descobriram tesouros de índios e dos engenhos de Alagoas. Restos de cerâmicas indígenas (provavelmente do período colonial brasileiro), louças e cerâmicas que enfeitavam as casas grandes dos engenhos da região (provavelmente século 19). O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) sabe pouco sobre estas peças. As fotos das peças estão guardadas nos arquivos, sob segredo, e o instituto negou ao EXTRA publicá-las; o local onde estão estes tesouros é mantido sob sigilo.

“O estudo ainda não foi concluído, mas estamos bem avançados”, disse a arqueóloga do IPHAN, Rute Barbosa, também consultora em Arqueologia da Unesco.

A história do Litoral Norte de Alagoas envolve muita riqueza, poder e massacres entre índios, holandeses, portugueses, negros e os primeiros brasileiros nascidos no cruzamento destas raças, o que torna ainda mais curiosa a presença destas peças em sítios arqueológicos.

A alguns quilômetros de onde estão estas peças fica o Engenho Buenos Ayres, um dos três primeiros erguidos em Alagoas, quando o estado ainda integrava a capitania de Pernambuco. O Buenos Ayres é sítio arqueológico e foi fundado por Cristovão Lins, no século 16. Este engenho conta um pedaço importante da história canavieira do Brasil Colonial.

Esta região também teve a presença dos primeiros índios descobertos - e exterminados- pelo homem branco. “Ao longo do Rio Camaragibe, existia a morada dos índios potiguares”, explica a escritora Ana Cláudia Laurindo, que recentemente lançou Hibridismo Cultural Alagoano: o barro de onde viemos, mesclando psicologia social, antropologia e relatos orais na região norte de Alagoas.

Os índios potiguares entraram em conflito com as tropas do dono de engenho Buenos Ayres, o poderoso Cristóvão Lins, de origem alemã. Ganhou Cristóvão Lins. “Ou o índio era assassinado ou se submetia ao regime de escravidão, negando até mesmo sua identidade como indígena”, explica Laurindo.

Foi a região do Litoral Norte de Alagoas palco, em Porto Calvo, do encontro entre holandeses e portugueses e tendo, no meio do caminho, um homem que conhecia os complicados caminhos entre os vales: Domingos Fernandes Calabar, nascido no século 17, o grande proprietário de terras que vendia informações privilegiadas sobre o território alagoano.

E no mesmo século 17, as terras da região norte foram atravessadas pelas tropas de Domingos Jorge Velho, o bandeirante paulista que liderou expedição que massacrou o Quilombo dos Palmares, hoje município de União dos Palmares. Para destruir o Quilombo, Velho teve de viajar a Porto Calvo. Com os reforços, foi possível invadir a fortaleza de Palmares.

“A região norte tem uma história crucial em vários momentos do Brasil. Por exemplo: no século 19, os cabanos, chamados de povos das matas, ocuparam este espaço por todos os lados. E eles representavam uma ameaça tão grande que ocuparam Maceió”, explica a escritora.

Liderados por Vicente Ferreira de Paula, os cabanos saíram da mata norte alagoana para invadir Maceió. Foi em 21 de outubro de 1844, às 7 da manhã. Eles chegaram pela Rua do Comércio, no Centro da capital alagoana, e fecharam todos os acessos. O historiador Dirceu Lindoso mostra, em seu livro A Utopia Armada: Rebeliões de Pobres nas Matas do Tombo Real, que os cabanos só não conseguiram derrubar o governador porque se perderam no “labirinto de ruas e becos, casarios avizinhados”, levando as tropas a terem problemas de orientação ou manter a posição contra a Guarda Nacional.

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