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22 de Setembro de 2018

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Edição nº 954 / 2018

09/01/2018 - 15:21:54

A contemplação dos ancestrais

JOSÉ MAURÍCIO BREDA

Sempre que voltamos a Portugal, nossa alma se alegra. Seriam nossos ancestrais? Com certeza. Rever Lisboa, “cheia de encanto e beleza”, é como um balsamo para o espírito.

Pela proximidade, a alentejana, bela e histórica Évora atrai-nos como imã. Após adentrarmos suas imponentes muralhas, sentimo-nos presos pela arquitetura medieval das estreitas ruas aconchegantes como a mostrar que, não só seu vinho, mas toda ela, estão aptos a embriagar-nos. A Capela dos Ossos traz-nos para a realidade com a imposição: “Nós ossos que aqui estamos, pelos vossos esperamos”. Porém, Baco e Dionísio a espreitar-nos das ameias, inconformados, raptam-nos, divinamente, lembrando a nossa enofilia. Degustar o fermentado de uvas autóctones com o melhor de sua culinária é com que vamos nos deliciar por todo o tempo desse convívio salutar. E partimos em direção ao Tejo. Fernando Pessoa, pelo heterônimo Alberto Caeiro, cantou: “[...] Pelo Tejo vai-se para o mundo. Para além do Tejo há a América e a fortuna daqueles que a encontram...”. Mas nós, não vamos navegar pelo rio. Vamos transpô-lo. Por mais que sigamos atravessando o Tejo, as parreiras seguem-nos, lembrando que, logo adiante, um bom vinho espera-nos.

Entrementes, Òbidos nos traz um outro néctar. Os deuses não se importam, pois na graduação alcoólica o teor é satisfatório. Aí, rendemo-nos à Ginja, com ou sem ela, ou seja, a cereja no cálice, a responsável pelo seu licor.

Quando Ourém aparece com seu castelo no cume do monte, não imaginávamos que lá estaria a pousada onde, em seus travesseiros, adormeceríamos. É mais uma paisagem e momento de retrospecto histórico.

Em Fátima, a introspecção contrasta com a grandiosidade de seu oratório, e em Coimbra a presença da juventude vestida em suas capas pretas, mais que em qualquer outra paragem portuguesa, denota a preocupação com a cultura. Conta-se por lá que, em tempos passados, no Porto trabalhava-se, em Fátima rezava-se, em Coimbra estudava-se e em Lisboa gastava-se.

Ao norte, um famoso leitão aguarda-nos na Mealhada, com seu Bairrada, vinho da região demarcada. Instigamos nossos cavalos de força, e o Porto, seguro, descortinou-nos o Atlântico poente lusitano. (Por falar em poente, amigo viçosense disse-me que Zé do Cavaquinho gostava de dizer que o sol não se põe, “opõe-se”. De fato, faz o oposto do nascer).

O Douro a nossos pés e Vila Nova de Gaia à frente fazem-nos dois convites: subir ou transpor o rio. Gaia, com sua flagrante fragrância vinhateira em suas ruas, adia nossa subida. Degustando seu Porto, único, sabemos que a descoberta de suas videiras só se dará galgando suas montanhas, incrustadas de degraus cultivados com velhas e novas vinhas. Subimos o Douro e Peso da Régua já nos dá a medida exata dessa imensidão coroada em seus cimos por brancas camadas de gelo. A presença dos Ferreiras da Régua, mitificados na figura brava de d. Antonia Adelaide Ferreira, mais conhecida como d. Ferreirinha, é sentida em todo o vale. É inverno e videira sem uvas é como garrafa sem vinho. Porém, suas raízes fincadas bem fundo em solo pétreo, breve nos darão seus cachos suculentos.

Mas tínhamos que conhecer o berço da pátria, Guimarães, ainda nele, esplêndida, calma e culta, com seu lindo casario.

Mais história vamos encontrar em Braga. Fundada pelos romanos e titulada, no século primeiro da era cristã, como Bracara Augusta, homenageando o fundador do Império Romano, conserva toda riqueza em seus castelos e catedrais. Como disse, certa vez, Ib Gatto: “povoada de monumentos e ressumando história [...] todas aquelas torres procurando varar os céus, todas aquelas naves imensas que nos dão uma consciência profunda da nossa pequenez”. De fato, somos chamados à nossa insignificância. Ali se encontra a cruz que esteve no altar da primeira missa no Brasil.

Não foi o efeito do gostoso Alvarinho, grande vinho verde branco da região do Minho, que fez com que ouvíssemos o galo cantar sem saber onde. Ouvimos e sabíamos onde. Barcelos e sua lenda só confirmaram a honestidade do peregrino que, mesmo preso e condenado à morte, jurou que o galo, já assado e em cima da mesa para ser comido, cantaria, para provar sua inocência. Por toda a cidade encontramos, em suas praças, gigantes galos, explorando bem o interessante filão turístico do Galo de Barcelos.

O berço de amigo, Póvoa de Varzim, um balneário “barrasãomiguelense” para sua região, encontrava-se banhado não só pelo mar, mas por torrenciais chuvas. Moderno, desenvolvido e ativo estimulou-nos uma nova visita veranista.

Vivendo e conhecendo a terra de nossos avós, sentíamos mais que um bálsamo, a certeza de que lá do ponto mais distante do Alto Douro, das inóspitas montanhas de Trás-os-Montes, de onde vieram, nossos ancestrais contemplavam-nos e guardavam-nos.

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