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16 de Novembro de 2018

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Edição nº 954 / 2018

09/01/2018 - 15:10:49

Jorge Oliveira

Um filho de corrupto

Jorge Oliveira

Barra de São Miguel, AL - Final de semana, o pai com os pés sobre a mesa, de bermuda colorida, diante da TV vendo o Faustão, saboreando a conta-gotas um bom vinho, depois do benefício da prisão domiciliar, ao lado da mulher e dos filhos. De repente ele se vira para o filho mais velho, que o olha com admiração e, despretensiosamente, pergunta:

- Filhote, quando você crescer quer ser o quê:

- Corrupto, pai! – responde o menino na bucha.

- Que é isso filho, por que decidir tão cedo sobre o futuro? – assusta-se o pai. 

- Pai, – diz o filho com naturalidade – não estou decidindo sobre o futuro, mas, sim, sobre o presente.

E o pai ainda estupefato com o diálogo:

- Filho, você não percebe que ser corrupto não leva ninguém para frente.

- Pai, pra frente eu não sei - responde o menino. -  Eu só sei que vejo o senhor agora, depois que voltou para casa, dando ordens na empresa logo cedo, ainda no café da manhã. Além disso faz ginástica todos os dias e se aquece ao sol da manhã. Antes disso, eu e a mamãe visitávamos o senhor no presídio. Lá, o senhor sempre se queixou da comida, dos amigos de cela e dos carcereiros que pediam uma graninha para lhe oferecer mais conforto. Como eu ainda era pequeno sempre achei aquilo uma coisa normal.

- Como normal, menino? – perguntou o pai entre um gole e outro do requintado vinho português, olhando surpreso para os outros filhos que assistiam a conversa de olho na tornozeleira, que parecia um GPS, amarrada na canela do pai.

- Ah, pai, achava que o mundo era assim – atalhou o menino, com um certo desencanto.  - Praticamente me criei vendo o senhor convivendo com esse pessoal da polícia, da justiça e com os homens do presídio. Me eduquei assim nesses últimos anos que o senhor esteve ausente da família.

- Filho - interveio a mãe - um dia você vai conhecer melhor o seu pai.

- Já conheço mãe, não se preocupe, já conheço meu pai até demais.

O pai degusta o vinho, a mãe, passiva, observa a família, e os filhos, sentados no sofá em forma de L, observam o penduricalho grudado entre a perna e o tornozelo do pai. 

 - Filho, por favor, ainda não entendi, me explique melhor: por que você que ser corrupto?

- Ora, pai, deixe de ser ingênuo. Ser corrupto é o caminho mais curto para se chegar ao poder, para ser rico, ter mulheres bonitas ao seu lado, ser um homem respeitado na sociedade e, quem sabe, até virar presidente da República um dia.

A mãe, indignada:

- Deixe disso, menino. Você não percebe que o seu pai vive hoje uma vida de sacrifício.

- Sacrifício?! – interrompe a filha menor, surpresa ao saber pela mãe que a vida que a que a família leva é de sacrifício. 

A televisão está ligada. O Faustão continua a falar um monte de besteira dominical para uma família anestesiada com tanta idiotice. 

O menino, que já definiu o futuro, está convicto do que quer, mas continua atento à conversa do pai, que tenta persuadi-lo da ideia de virar corrupto muito cedo. 

- Quer dizer, idiota, que você quer mesmo ser corrupto? É isso que você quer ser mesmo? – pergunta o pai, irritado e impaciente.

- Sim, isso mesmo, é isso que o senhor ouviu: quero ser corrupto – responde o menino com absoluta convicção.

O pai:

- Você não está entendendo imbecil que roubar não é uma coisa correta. Veja a situação do seu pai: preso em casa, vigiado por essa coisa, obrigado a fazer trabalho comunitário, sem liberdade... Isso é vida de gente, filho? – apela para a compreensão do garoto.

- É pai, é vida de gente, sim senhor. E eu já decidi: quero ser você amanhã. 

A voz cavernosa do Faustão é quebrada quando a mãe intervém:

- Ora, não vamos discutir mais a vocação do menino e a opção dele em ser ou não corrupto. Eu quero apenas fazer uma observação, filho:

- Você tem certeza que quer ser mesmo corrupto? Veja, meu filho: isso não é uma profissão.

- Como não é uma profissão mãe? Na escola, muitos dos meus amigos têm pai corrupto, ora. A gente até criou dois grupos para estudar novos métodos de corrupção nas empresas privadas e nas estatais. 

O Faustão continua vomitando mais entulho na sala.

- Filho, – intercede o pai – você sabe que um dia pode acabar assim, privado da sua liberdade. Veja se isso é vida de gente, rapaz?

- Pai, é verdade, eu até entendo. Mas antes de você ser corrupto, o que você fazia?

- Eu trabalhava, como qualquer pessoa comum.

- E o que o senhor fazia, pai? – insiste o menino.

- Se você não sabe, primeiro eu virei amigo de políticos, depois político. Depois, por influência de políticos, eu virei empreiteiro. E depois de empreiteiro, eu comecei a financiar os políticos. E depois, ah, aí todo mundo já sabe, inclusive você, filho: virei intermediário financeiro.

- O senhor quer dizer corrupto, não é pai?

- É filho, infelizmente. 

- Pois é pai, e depois de tudo isso o senhor ainda quer me impedir de ser corrupto. Ora, por favor, um dia eu quero ser como o senhor: um corrupto com um monte de dinheiro no banco, bem de vida, e com uma grande influência no poder. 

O pai continua com os pés sobre a mesinha da sala de estar, deixando à mostra a tornozeleira eletrônica. Na tela, em frente, o Faustão continua educando as famílias.

- Filho, gostaria de lhe fazer uma última pergunta, mas quero que você seja sincero comigo como tem sido até agora. 

- Na hipótese de você não querer seguir a carreira de corrupto que outra coisa então você gostaria de ser?

- Presidente do Brasil, né pai. 

- Que horror, filho!

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