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15 de Dezembro de 2018

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Edição nº 1000 / 2018

02/12/2018 - 08:00:00

A morte em Alagoas do alemão que sabia demais

Há 100 anos, José Bach se afogou nas águas da lagoa Manguaba em circunstâncias misteriosas; foi o 1º mártir da saga do petróleo no país

Odilon Rios Especial para o EXTRA
Alemão José Bach

Um geólogo e mineralogista alemão bastante conhecido do governo brasileiro assombrou o Teatro Municipal no Rio de Janeiro. Na usina de eletricidade do teatro, ele resumiu toda a sua experiência mais os estudos sobre o solo alagoano e transformou petróleo em óleo diesel, provando o que ele já dizia em todo lugar: o Brasil tinha petróleo suficiente para abastecer o mundo.

Um representante do presidente da República assistiu à apresentação. Isso aconteceu em 22/02/1918. Só que a história do velho José Bach foi interrompida nas águas da Lagoa Manguaba, em Alagoas. Há exatos 100 anos, em 2 de dezembro de 1918, a canoa que o levava para casa, em Coqueiro Seco, afundou. 

O remeiro Antônio Euzebio conseguiu sobreviver. Euzebio nadou até Coqueiro Seco, mas acabou preso. Acusação: assassinato.

José Bach, pai de 4 filhos, foi encontrado um dia depois. Não sabia nadar. Seu corpo boiava e estava agarrado a um mourão de caiçara. Aparentemente, era um afogamento. O médico Arthur Sampaio, da Santa Casa de Misericórdia de Maceió, corroborava a tese: Bach morreu por asfixia. Não havia, no corpo, vestígios que pudessem revelar um crime premeditado.

Seria uma fatalidade? Vivo, José Bach era um obstáculo poderoso. Durante 15 anos ele morou em Alagoas e provou: existiam jazidas de petróleo de norte a sul do estado. E essa descoberta tinha repercussão porque, em 1918, a Europa, já ao final da 1ª Guerra Mundial, enfrentava uma grave crise de petróleo.

A descoberta em Alagoas poderia alterar os rumos da política geoeconômica no mundo. O Brasil se tornaria o principal produtor de uma riqueza tão cobiçada quanto o ouro no início do século passado.

Todo este conhecimento estava nas mãos de José Bach. E os grandes interesses internacionais tinham disposição de querer comprar o que ele sabia ou simplesmente eliminar o alemão.

Teoria da conspiração ou não, o fim trágico de José Bach é ligado a outra morte. O militar e aviador cearense Pinto Martins organizou um grupo econômico e comprou, da família de José Bach, os segredos sobre o petróleo em Alagoas. Pinto Martins viajou a Londres e conseguiu apoio para explorar as jazidas alagoanas. Mas terminou morto com um tiro, num quarto de hotel, no Rio, em 12 de abril de 1924. Causa da morte: suicídio. Os papéis de José Bach sumiram.

A saga da descoberta do petróleo em Alagoas começou na década de 30 dos anos 1800. Em discurso no Senado em 19 de novembro de 1969, Arnon de Mello dizia que, em 1837, o Dicionário Geográfico das Minas do Brasil falava de um certo “doutor Júlio Parigot”, que descobriu uma jazida de xisto betuminoso, estendendo-se pelo mar na costa alagoana. Do xisto, que é uma rocha, pode-se extrair petróleo. Em 1891, uma sonda inglesa explorava o litoral alagoano e, segundo Arnon de Mello, “conta-se mesmo que em fins do século XIX populações humildes, das praias do norte alagoano, se serviam para uso doméstico de pequenas porções de xisto betuminoso que por lá surgiam”.

É desta época que aparece José Bach. Jornais de todo o país registram a persistência dele em provar a existência de petróleo e a viabilidade em se destilar o combustível fóssil.

Foi quando naquele 22 de fevereiro de 1918, às 15 horas, no Teatro Municipal do Rio, Bach conseguiu destilar, do xisto betuminoso, o diesel. Ele era diretor-técnico da empresa de Minas Petrolífera e acumulava desentendimentos com a Andrade Auto & Cia pela exploração das jazidas de petróleo em Alagoas. Os jornais registram que a empresa lesou seus direitos para a exploração das minas no bairro de Riacho Doce, em Maceió.

Ele se sentia ameaçado. Foi ao governador pedir garantia de vida. Dizia que Gilberto de Andrade, da Andrade Auto & Cia., tinha interesse em matá-lo. Não foi ouvido.

Entre a experiência no Teatro Municipal do Rio e sua morte nas águas da Lagoa Manguaba passaram-se 10 meses.

O resgate do corpo das águas virou espetáculo de horror. Foi posto em cima de uma carroça imunda em direção ao necrotério da Santa Casa de Misericórdia de Maceió. 

O traslado do seu corpo inchado e em começo de decomposição pelas ruas de Maceió servia de atração aos curiosos. José Bach e seus segredos se resumiram a um cortejo simples, sob os olhos de uma multidão que ele ignorava. “Maceió tem essas coisas originalíssimas”, escreveu um repórter do Jornal de Recife. 

Ao chegar ao necrotério e após os exames que constataram asfixia por submersão, seu corpo foi, mais uma vez, posto em uma carroça em direção ao cemitério. O visionário quis chamar a atenção sobre a riqueza. Sua morte, porém, revelou o tamanho da nossa miséria.

As descobertas de José Bach mudaram os rumos da exploração do petróleo no Brasil. A persistência dele atraiu, anos mais tarde, o escritor Monteiro Lobato. Em 26 de janeiro de 1936, Lobato, Edson de Carvalho e Lino Moreira usaram as pesquisas de Bach para a exploração de petróleo no bairro de Riacho Doce. E nunca mais a história do petróleo foi a mesma.

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