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14 de Novembro de 2018

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Edição nº 949 / 2017

23/11/2017 - 17:11:36

Infecção hospitalar mata mais do que AVC e infarto

Basta uma pessoa não lavar as mãos para expor o paciente ao perigo

Valdete Calheiros Repórter

A infecção hospitalar é um dos maiores temores dos pacientes que precisam se submeter a um procedimento ambulatorial ou a uma internação prolongada em uma unidade de saúde, seja pública ou particular.

O medo tem sua razão de ser e encontra amparo nas estatísticas assustadoras sobre o assunto. Mais da metade dos pacientes com sepse vai a óbito nas Unidades de Tratamento Intensivo (UTIs) do país. 

A falta de medidas de prevenção, como o simples ato de lavar as mãos, por parte das unidades hospitalares pode ser um dos principais motivos pela morte de mais de 230 mil pessoas por ano.

Mais de 55,7% dos pacientes internados por conta da infecção generalizada acabam morrendo. A morte por infecção generalizada é mais comum do que os óbitos causados por acidente vascular cerebral (AVC) e infarto. É comum, mas não deveria ser assim. Em sua maioria, as infecções hospitalares são evitáveis com simples hábitos de higiene e cuidado no trato com o paciente. 

Os dados fazem parte do levantamento publicado na revista Lancet Infection Diseases, feito por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e do Instituto Latino Americano de Sepse, com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que avaliou pacientes com sepse atendidos em UTIs particulares e públicas do Brasil.

Recomendações simples, como a higienização das mãos, podem reduzir em cerca de 70% o risco de contaminação. No Brasil, a taxa de contágio é de 15%, segundo o Ministério da Saúde – mais alta do que em países da Europa e nos EUA, onde o nível chega a 10%. 

Ainda conforme o levantamento cientifico, em 24 horas, um paciente da UTI tem contato com pelo menos 15 pessoas, entre médicos, enfermeiros, técnicos, auxiliares e visitantes. Se uma delas falhar na higienização das mãos, o paciente poderá ficar exposto à contaminação por agentes que causam infecções.

Gestos simples como lavar as mãos salvam vidas e se transformam na principal barreira de entrada de uma infecção hospitalar. A cada contato com o paciente é preciso lavar as mãos, friccionando vigorosamente toda a superfície das mãos e punhos, utilizando bastante sabão ou detergente. Em seguida, faz-se necessário enxaguar abundante em água corrente. A lavagem das mãos é, isoladamente, a ação mais importante para a prevenção e controle das infecções hospitalares.

Em Alagoas, o EXTRA procurou o Conselho Regional de Medicina (CRM) que disse não ter dados estatísticos sobre o assunto. A Coordenação Estadual de Prevenção e Controle de Infecções Relacionadas à Assistência da Secretaria de Estado da Saúde (Sesau) também foi procurada, através da assessoria de comunicação da pasta. A pedido da própria assessoria e seguindo a recomendação, foi enviado um e-mail que não foi respondido até o fechamento desta edição. A reportagem foi informada que a pessoa responsável estava em reunião. 

A coordenação é o órgão da Sesau responsável pela organização dos fluxos e identificação para a prevenção e controle de infecções hospitalares.

A taxa de mortalidade chamou a atenção dos pesquisadores por ser uma manifestação letal, mas que pode ser prevenida facilmente mediante a aplicação de estratégias básicas de controle de infecção hospitalar. 

Além disso, quando identificada precocemente, a maioria dos casos da doença são considerados “simples” de tratar, com a ajuda de antibióticos e assistência hospitalar adequada.

A sepse pode ser definida como uma resposta sistêmica do organismo a alguma infecção provocada por bactérias, vírus, fungos ou protozoários.

Quando isso acontece, o sistema de defesa do corpo passa a atacar esse agente, atingindo o próprio organismo, e prejudicando diversos órgãos.

De acordo com os autores do levantamento – que avaliou 15% de todas as UTIs brasileiras – a baixa disponibilidade de leitos nas UTIs faz com que os pacientes que vão para essa área dos hospitais estejam sempre em estado grave, o que aumenta a taxa de infecção e letalidade.

Foi também constatado que medidas básicas, como uso de antibióticos, dosagem de exames ou colheita de culturas, que poderiam ajudar a prevenir a sepse por parte dos hospitais não estão sendo tomadas.

A ideia da pesquisa é que as informações coletadas sejam uteis para elaborar estratégias que ajudem no melhor atendimento por parte das UTIs e na prevenção de mortalidade, principalmente às que correspondem à sepse.

CONTROLE

Na tentativa de controlar a taxa de infecção hospitalar, a portaria do Ministério da Saúde nº 2.616/98, estabeleceu que todos os hospitais devem possuir uma Comissão de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH), composta por profissionais da área de saúde, de nível superior, formalmente designados. Devido à portaria, cada unidade de saúde do Estado tem uma CCIH.

Por sua vez, cada CCIH deve criar o seu Programa de Controle de Infecção Hospitalar (PCIH) que estabelece um conjunto de ações desenvolvidas deliberada e sistematicamente com o objetivo de reduzir, ao máximo, a incidência das infecções hospitalares. 

Considerada um problema de saúde, a infecção hospitalar está – ou deveria estar – entre as ações prioritárias dos gestores públicos, que procuram manter o cuidado necessário nos ambientes de assistência à saúde. 

Unidades de saúde registram 15% de infecção hospitalar

Para ajudar a combater o problema da infecção hospitalar deve haver uma padronização dos indicadores. Essa norma é fundamental para as unidades que trabalham com pacientes e também, na proteção de seus profissionais, principalmente os que atuam em áreas críticas, onde podem acontecer infecções gravíssimas, caso não seja adotada as medidas necessárias.

Os casos de infecção hospitalar devem ser cadastrados e notificados no formulário online da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). 

CAUSAs 

A infecção hospitalar é provocada por microrganismos – bactérias, fungos, vírus e protozoários –, que penetram no organismo do paciente.

Ou ainda quando os microrganismos já estão no corpo do paciente e se manifestam durante ou logo após a hospitalização ou realização de um procedimento ambulatorial. 

Essas formas de vida, invisíveis a olho nu, podem estar presentes no ambiente hospitalar, em outros ambientes e até no próprio organismo. Podem ser transmitidos por meio de água ou alimentos contaminados, de pessoa para pessoa por gotículas de saliva ou pelo ar com pó ou poeira contaminados.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera até 5% um índice aceitável de infecção hospitalar. Faltam dados recentes em Alagoas para quantificar esse nível de infecção no maior hospital público do Estado, o Hospital Geral do Estado (HGE). Mas, atenção, os hospitais e clínicas particulares não estão imunes ao risco de infecção hospitalar. 

A partir da confirmação do diagnóstico de infecção hospitalar, é travada uma luta, pois os microrganismos que provocam a infecção podem adquirir resistência aos medicamentos. 

Segundo o Ministério da Saúde, as unidades de saúde de todo o país chegam a registrar índices de 15% de infecção hospitalar.

Alguns sinais “simples” podem indicar que o paciente está com infecção hospitalar, tais como febre ou hipotermia, cor da pele alterada, circulação comprometida e o quadro de piora clínica geral do paciente. 

Os microorganismos que podem causar infecção hospitalar concentram-se, na maioria das vezes, nas mucosas da boca e do nariz, na pele e, acima de tudo, nas mãos. Qualquer paciente está sujeito a contrair uma infecção hospitalar, no entanto, recém-nascidos, crianças, idosos, pacientes crônicos, portadores de diabetes, pacientes com câncer e pessoas transplantadas estão mais vulneráveis às infecções. 

Apesar de todos os cuidados e mesmo quando todas as medidas são cumpridas, crianças, idosos e pacientes em estado grave, internados por longo tempo, submetidos a cirurgias complexas e com doenças crônicas podem evoluir com infecção. 

Os pacientes com queimaduras graves são facilmente atingidos por um quadro de infecção hospitalar, pois estão sem a pele, principal barreira de proteção do corpo humano.

Os hospitais e ambulatórios possuem regras de higiene e procedimentos que visam a prevenção do contágio do ambiente por bactérias e vírus que podem causar infecções e a segurança do paciente. Mas os profissionais que prestam assistência à saúde devem tomar alguns cuidados pessoais: sempre usar o jaleco fechado; retirar o jaleco para fazer as refeições; não utilizar o jaleco de outras instituições; evitar sentar no leito do paciente; usar os cabelos sempre presos ou mantê-los curtos; evitar joias ou bijuterias; cuidar da higiene das unhas, mantendo-as sempre limpas e curtas; não fazer refeições em lugares fora dos refeitórios; utilizar sapatos fechados; comunicar quando surgirem resfriados, gastroenterites e feridas; não transitar pelo hospital com alimentos.

A prevenção também deve ser uma prática rotineira adotada pelos visitantes, cuidadores e todos os envolvidos no tratamento. É indicado lavar sempre as mãos ao chegar para visitar um paciente; depois de finalizar a visita; antes e após utilizar o banheiro; antes e após fazer as refeições; antes e após arrumar os cabelos ou tocar qualquer parte do corpo; antes de preparar e administrar medicamentos; antes e após trocar ou fazer curativos.

Podem causar infecção o desequilíbrio da flora bacteriana da pele e do organismo, geralmente devido ao uso de antibióticos, a queda da defesa do sistema imune da pessoa internada, tanto pela doença, como por uso de medicamentos e a realização de procedimentos invasivos como passagem de catéter, passagem de sondas, biópsias, endoscopias ou cirurgias, por exemplo, que quebram a barreira de proteção da pele.

A infecção hospitalar pode ser adquirida em diversos locais do corpo, sendo que os tipos mais comuns são pneumonia, infecção urinária, infecção da pele, infecção do sangue, 

A pneumonia adquirida no hospital costuma ser grave, e mais comum em pessoas que estão acamadas, desacordadas ou que têm dificuldades da deglutição, pelo risco de aspiração de alimentos ou da saliva.

A infecção urinária hospitalar é facilitada pelo uso de sonda durante o período de internação, apesar de qualquer pessoa poder desenvolver. 

As infecções de pele são muito comuns devido às aplicações de injeções e acessos venosos para medicamentos ou coletas de exames, cicatriz de cirurgia ou biópsia ou pela formação de escaras de decúbito. 

A infecção da corrente sanguínea é chamada de septicemia, e, geralmente, surge após infecção de algum local do corpo, que se espalha pela corrente sanguínea. Este tipo de infecção é grave, e se não for rapidamente tratada pode rapidamente causar falência dos órgãos e risco de morte. 

Quem precisa passar por algum procedimento hospitalar, principalmente na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), teme os riscos de infecções, causadas por fungos, bactérias ou vírus. 

Segundo a Associação Nacional de Biossegurança (ANBio), o problema é responsável por mais de 100 mil mortes no Brasil todos os anos, e preocupa os hospitais da rede pública e privada no país. 

Quanto maior o tempo de permanência nas unidades de saúde, maiores serão as chances de riscos de contaminação, principalmente em hospitais que tratam de doenças crônicas. 

O principal objetivo das ações é reduzir os casos de infecções hospitalares, as grandes vilãs da saúde do paciente. A meta da Anvisa é diminuir em 30% os índices nacionais de infecção. 

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