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21 de Setembro de 2018

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Edição nº 944 / 2017

21/10/2017 - 09:54:00

Irmãos de delegado da PF morto pelo neto acreditam que crime foi premeditado

Vera Alves [email protected]
Milton Neto e o avô: relação conturbada desde que a filha do delegado se matou na casa dele no Dia dos Pais - Foto: Arquivo pessoal

Às vésperas de completar nove meses, o assassinato do delegado aposentado da Polícia Federal Milton Omena Farias ainda gera controvérsias. Para os irmãos dele, o crime foi premeditado pelo neto em vingança pela morte da mãe, a jornalista Márcia Omena Rodrigues, que, segundo a polícia, se matou no dia 14 de agosto do ano passado na casa do pai.

O assassinato a facadas do delegado da PF é mais um capítulo na sucessão de tragédias da família Omena. Ele foi morto no dia 27 de janeiro deste ano, no mesmo dia em que a Secretaria de Segurança Pública havia convocado uma coletiva para divulgar o resultado da perícia realizada cinco meses antes na casa do Condomínio Porto di Mare, em Paripueira, onde pai e filha morreram.

Milton Omena passara aqueles cinco meses como suspeito da morte de Márcia, mas os irmãos dele são enfáticos em dizer que a jornalista era uma pessoa problemática, que já havia tentado se matar anteriormente e que vivia à base de remédios controlados. 

No último final de semana, o delegado aposentado da PF foi homenageado durante o Maceió Moto Fest, evento que reúne os amantes do motociclismo, uma das paixões dele. A família aproveitou para pedir justiça. Quer que Milton Omena Farias Neto responda pelo crime.

Preso em flagrante, o jovem terminou sendo liberado menos de 15 dias depois de matar o avô mediante habeas corpus deferido pela juíza Adriana Carla Feitoza Martins, sob o argumento de que, a despeito de comprovada a autoria e materialidade do crime, “o denunciado é primário, possui bons antecedentes e residência fixa, além do que, não imprimiu fuga após o fato, chegando, inclusive, a solicitar ajuda para a vítima”.

Este socorro à vítima, contudo, é questionado pela família Omena. Para os irmãos e o pai do delegado da PF, teria havido um conluio entre a mãe de Márcia e ex-exposa de Milton, Maria do Carmo Rodrigues de Souza (Carminha), o neto e a neta, Débora Rodrigues de Omena França. “Esse crime tem três pessoas envolvidas. O intelectual que é a ex-mulher. Tem o material que foi o neto e a coadjuvante que foi a neta”, afirma Marivaldo Omena, um dos 10 irmãos do delegado morto.

Chamada pelo avô de Débora Coruja, a filha de Márcia pode ser intimada pela justiça a explicar sua presença no Condomínio Porto di Mare no dia em que o delegado foi assassinado. Segundo relato de uma testemunha, ela e o irmão foram à casa dele naquele dia no carro de Carminha, de onde saíram cerca de 10 minutos depois. 

O irmão, que dirigia, a deixou em frente ao condomínio e retornou para a casa do avô, tendo deixado o carro ligado. Teria então ocorrido a forte discussão entre ambos, seguida de uma luta corporal em que o delegado de 70 anos foi violentamente agredido pelo neto de 23 anos.

”Se ele (neto) não enfia a faca, ele (avô) ia morrer do mesmo jeito, com pulmão, baço, tudo furado. Ficou massa encefálica na parede”, conta Marivaldo, que esteve no local do crime assim que soube do fato e acompanhou o trabalho da perícia e a retirada do corpo de Milton Omena pelo Instituto Médico Legal.

A MOTIVAÇÃO

A avaliação da família Omena é de que Carminha foi avisada naquele 27 de janeiro pela Polícia Civil da conclusão da perícia sobre a morte da filha: suicídio. Revoltada e interessada no patrimônio do delegado aposentado, cuja casa em Paripueira é avaliada em mais de R$ 400 mil, e que tinha recebido há pouco tempo precatórios de significativo valor da Polícia Federal, ela teria incitado os netos contra o avô.

Para os Omena, reforça esta tese o fato de pouco mais de um mês após Milton Omena Neto deixar a cadeia a irmã ter entrado na justiça com pedido de inventário dos bens do avô. O processo foi protocolado na 21ª Vara Cível da Capital / Sucessões no dia 21 de março.

Irmãos e pai do delegado, contudo, já decidiram: enquanto não houver um desfecho para o assassinato dele, vão barrar qualquer tentativa de partilha dos bens entre a ex-esposa e os netos. E enquanto nada isto se resolve, a motocicleta de Milton Omena, com a qual rodou as três Américas, permanece sob a custódia de Marivaldo.

A família também está processando Carminha por declarações dadas à imprensa afirmando que Milton Omena era um homem agressivo e que teria tentado matá-la. “Ele não está aqui para se defender”, afirma Marivaldo, que se contrapõe às declarações da ex-cunhada ao revelar, e mostrar, as marcas, em um dos braços, da cicatriz de um sinal raspado a faca pela então cunhada quando ele tinha 9 anos. Na época ele morava com o casal recém-casado.

Carminha, que é alvo de duas queixas-crimes em tramitação na Justiça, uma em Maceió e outra na Comarca de Paripueira, também seria acostumada a pequenos furtos. “Foram inúmeras as vezes que meu irmão evitou de ela ser presa”, desabafa, e reforça a acusação com base em um vídeo que circulou nas redes sociais, menos de 15 dias após o assassinato do ex-marido, em que ela aparece furtando objetos no GBarbosa do Stella Maris, em Maceió.

Violência das agressões X legítima defesa 

A quantidade de golpes desferidos por Milton Neto contra o avô e a violência das agressões, a ponto de deixar o rosto dele quase desfigurado, prejudicam sua tese de que esfaqueou o delegado aposentado em legítima defesa. A denúncia do Ministério Público Estadual ofertada contra o jovem em julho último assinala que, “além do golpe fatal, a quantidade de lesões sofridas pela vítima, por si só, já poderiam caracterizar crime autônomo, assim, nesta hipótese, figuram como qualificadora do meio cruel, mormente levando-se em conta a idade da vítima em relação ao agressor e a intensidade do sofrimento àquela imposto”.

A denúncia, ofertada pela promotora de Justiça Lídia Malta Prata Lima, destaca ainda o fato de Milton Omena Farias ter sido agredido em sua própria casa.

A perícia feita no local do crime assinala como ferimentos hematomas nas regiões orbitária, auricular, direita e nasal-, ou seja, nos olhos, ouvido direito e nariz-, além de escoriações nas regiões frontal, orbitária, temporal e zigomática região direitas (região do crânio mais próxima aos olhos).

Laudo residuográfico leva um ano e dois meses para ser divulgado

O laudo do exame residuográfico feito há um ano e dois meses nas mãos de Márcia Rodrigues e do pai foi divulgado ontem (19) pela Secretaria de Segurança Pública, via Perícia Oficial do Estado. O material analisado pelo Instituto Nacional de Criminalística, ligado à Polícia Federal, em Brasília, reafirmou a conclusão de suicídio para a morte da jornalista, o mesmo resultado da perícia de Alagoas.

Em release da Perícia Oficial do Estado, a informação é de que o laudo foi recebido na manhã de ontem de Brasília, tendo sido “identificada uma elevada quantidade de resíduos característicos e indicativos de disparo de arma de fogo na vítima fatal. O laudo aponta centenas de resíduos, tanto na mão esquerda quanto na mão direita da jornalista Márcia Rodrigues, confirmando a tese de suicídio”, diz o texto.

Este laudo vinha sendo cobrado pelo EXTRA desde o ano passado. O semanário chegou a entrar em contato com o INC, em Brasília, e foi informado de que a demora se devia ao fato de o equipamento estar quebrado. Isto em dezembro de 2016, quatro meses após a morte de Márcia.

A jornalista se matou no Dia dos Pais do ano passado usando uma arma do pai, no quarto e na cama do pai. Com a revelação de que ela havia sido alvejada por mais de um projétil de arma de fogo, Milton Omena Farias foi elevado à condição de suspeito de ter matado a filha. E morreu sem saber que os resultados periciais comprovavam sua inocência.

Coincidência ou não, o fato é que a divulgação do resultado do exame residuográfico se deu no mesmo dia em que os irmãos de Milton Omena Farias concederam entrevista coletiva para cobrar o andamento do processo contra o neto do delegado.

Representados pelo advogado Thiago Pinheiro, os irmãos e o pai de Omena, hoje com 96 anos, estão revoltados com a morosidade da justiça em relação ao assassinato dele. A família suspeita que possa estar havendo algum tipo de ingerência por parte de uma ex-cunhada do delegado que transita no meio jurídico afirmando ser magistrada, embora seja apenas aposentada do Ministério da Justiça, onde ingressou inicialmente com ajuda de Milton Omena e depois se manteve por concurso público.

A família garante, contudo, que seu único objetivo é o de fazer justiça ao delegado aposentado da PF e limpar seu nome, ao destacar que ele sempre foi um dos maiores incentivadores da vida profissional do neto e era quem bancava seus estudos.

Milton Neto estava morando na Irlanda e estava de férias em Maceió quando a mãe se matou. Desde então não retornou ao exterior. 

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