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20 de Setembro de 2018

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Edição nº 943 / 2017

18/10/2017 - 10:09:00

Todos somos iguais

Alari Romariz Torres

Na década de 60, meu marido, capitão do Exército, foi encarregado de organizar uma festa de fim de ano no quartel do 20º BC, em Maceió. 

Naquela época, o Exército tinha uma boa área social: granja, lojinha de tecidos e armazém reembolsável. Na sexta-feira, passava na Vila Militar um tratorzinho com alguns soldados, distribuindo as compras que fazíamos. 

Começamos a imaginar como seria uma festa de Natal, onde todos fossem tratados da mesma maneira. Havia recursos para presentes de crianças e fizemos um levantamento dos filhos e filhas de militares por idade. E aí, as crianças, sendo dependentes de soldados, sargentos ou oficiais que tivessem a mesma idade, ganhariam igual presente. E lá fomos nós para a Mesbla, no Recife, comprar as lembranças. Outra ideia era sortear presentes do mesmo preço para as mulheres de militares, qualquer que fosse a patente do marido.

E chegou o dia da festa com a entrada do Papai Noel. Sucesso total! O cabo Marcos era uma figura querida por todos, corneteiro do quartel e responsável pela entrega de gêneros da granja na casa dos militares. Todas as crianças o conheciam e dele gostavam. Meus filhos gritavam: “Mamãe, não é o Papai Noel; é o cabo Marcos”. E ele, rindo, vestindo aquela roupa vermelha com uma barba postiça de algodão, abraçava a criançada.

Hora de entregar os presentes: a filha de um soldado gritava de contentamento por ter recebido uma boneca “Suzy”. Minha filha, que tinha feito aniversário em dezembro e ganho seis bonecas da mesma marca, foi contemplada com a sétima e não ficou tão alegre.

A mulher de um sargento que foi sorteada com um bom perfume, idêntico ao que recebeu a mulher de um oficial, procurou-me e disse: “Gostei, Alari, não houve diferença nenhuma no dia de hoje”.

Nunca me senti tão feliz vendo a criançada pulando, cantando com Papai Noel, sem largar o brinquedo recebido.

Estava começando a conviver no ambiente militar, onde fiz grandes amigos, meus filhos ganharam “tios” e “tias” muito queridos por todo Brasil. Entretanto a hierarquia é muito rígida e existem situações constrangedoras, inexplicáveis, mas que fazem parte da severa educação militar.

Ainda esta semana, meu marido encontrou um velho sargento que serviu com ele no 20º BC e ouviu o seguinte: “Minha filha é médica, já tem netos, mas sempre fala na festa de Natal que o senhor organizou. Foi maravilhosa!”

Como sou de Maceió, conhecia várias mulheres de cabos esSargentos que estudaram comigo no Instituto de Educação. Sempre as tratei muito bem, como se ainda fossem estudantes de nosso querido colégio.

O cabo Marcos, nosso Papai Noel, frequentava a Igreja da Pitanguinha e todos os domingos nos encontrávamos na missa da manhã. 

Meus filhos estudavam no mesmo colégio dos filhos dos sargentos e eram amigos; jogavam bola juntos.

A missão que meu marido recebeu serviu para uma memorável experiência: ali não havia hierarquia. O Papai Noel, dono da festa, era o cabo corneteiro. As crianças de igual idade ganharam os mesmos presentes, as mulheres foram sorteadas e receberam o mesmo perfume, a comida servida no jantar foi a mesma para todos. As patentes foram esquecidas!

Para completar nossa alegria, quando terminou a festa, encontrei uma ex-colega, esposa de um militar que me disse: “Você nos transmitiu o verdadeiro espírito de Natal”.

Vem aí o Dia das Crianças e a memória da Velhinha  das Alagoas funcionou para que ela lembrasse da importância que tem proporcionar alegria para mais de cem crianças, criadas num ambiente rígido e hierárquico. Meninos e meninas não percebem quem é melhor do que o outro.

E aí pensei: todos somos iguais; nascemos, crescemos, vivemos e ... morremos! Nada é diferente!

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