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21 de Setembro de 2018

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Edição nº 942 / 2017

05/10/2017 - 18:59:36

Promotor diz que tem provas para condenação de Mirella

acusada ficará em liberdade mesmo se for condenada

José Fernando Martins [email protected]
Giovanna Tenório teria sido assassinada a mando de Mirella Granconato; executor Alberto Bernardino foi condenado a 29 anos

A Justiça está prestes a encerrar mais um suposto caso de crime de mando em Alagoas. Na quinta-feira da semana passada, 28 de setembro, o caminhoneiro Luiz Alberto Bernardino da Silva foi condenado a 29 anos de reclusão pela morte da estudante de fisioterapia Giovanna Tenório, assassinato que aconteceu em 2011. Além da prisão, Silva terá que pagar indenização no valor de R$ 10 mil aos familiares da vítima.

Nesta quarta-feira, 11, é a vez de Mirella Granconato sentar no banco dos réus. Acusada de contratar o caminhoneiro para a execução, a ré não teria suportado o fato de o ex-marido Antônio de Pádua Bandeira, o Tony, possuir um envolvimento amoroso com Giovanna. E é a partir desse ponto que defesa e acusação começam a preparar provas em torno de Mirella Granconato no processo que envolve homicídio qualificado e ocultação de cadáver.

Mas, algo é quase certo. Mesmo se condenada são muitas as chances de Mirella cumprir a pena em liberdade. Pelo menos é o que antecipa o advogado assistente de acusação, Welton Roberto. “Ela está em solta e poderá continuar do mesmo jeito. Isso se entrar com recurso. Já o executador ficou preso durante toda a investigação. É uma questão de incongruência do Judiciário”, disse ao EXTRA.

Giovanna Tenório foi encontrada morta no final da tarde do dia 6 de junho de 2011, nas proximidades da Fazenda Urucum, na divisa de Maceió com a cidade de Messias. Ela estava com fios de náilon nas mãos e no pescoço. Segundo o laudo do Instituto Médico Legal (IML), foi vítima de asfixia mecânica por estrangulamento.

O telefone celular de Giovanna teve papel primordial na condenação do caminhoneiro Luiz Alberto, que foi flagrado com o aparelho da vítima. Durante depoimentos, ele e a esposa, Sonei Soares, chegaram a apontar lugares diferentes para a suposta compra do telefone.  Silva ainda usou o aparelho nas imediações do Conjunto Eustáquio Gomes, perto de onde o corpo da vítima foi encontrado. 

E outro telefone celular também pode condenar a ré. Giovanna, segundo Welton Roberto,  precisou trocar de aparelho devido às mensagens e ameaças de Mirella. “Tony se aproximou de Giovanna mentindo estar divorciado. Quando Giovanna descobriu que ele era ainda casado, se afastou”, contou o advogado. Para o promotor de Justiça Antônio Villas-Boas, “as mensagens endereçadas a Giovanna são provas convincentes, assim como foram para a condenação do executor material”.   

CONTRADIÇÕES

Em audiências sobre o caso, a índole de Giovanna Tenório foi colocada à prova. Em 2012, um amigo chamado Leonardo Pereira disse à Justiça que a estudante não gostava de cigarros. Em contraponto, Meiry Emanuella de Oliveira Vasconcelos, também conhecida da vítima, informou que a jovem usava drogas em festas. 

Meiry Emanuella é a ex-esposa agredida do prefeito de Maribondo, Leopoldo Pedrosa, que foi preso pela Lei Maria da Penha e solto recentemente com direito a tornozeleira. “Manu”, como era chamada, disse ainda que desconhecia outros relacionamentos de Giovanna com homens casados e que estava com a vítima quando foi agredida duas vezes por Mirella Granconato.

“Tudo o que a acusação ostenta são as mensagens ameaçadoras que Mirella teria mandado um ano antes da morte de Giovanna. E também não houve histórico que a vítima continuasse com o ex-marido da acusada. Não tem nada de comprove a ligação de Mirella com o caminhoneiro, que nunca a viu na vida”, alegou o advogado de defesa da ré, Raimundo Palmeira. 

E continuou: “As atitudes de Mirella aconteceram em momentos de cabeça quente, na hora da traição. Mirella e o ex-marido estavam juntos na época até quando a vítima apareceu morta. Houve uma versão dizendo que não estavam, mas é falsa. Também na quebra de sigilo telefônico não se conseguiu constatar nada. Ela é completamente inocente”. 

Mirella e o ex-marido Tony Bandeira foram presos no dia 28 de junho de 2011 acusados pelo crime. A acusada foi solta em agosto de 2012 e Bandeira no dia 3 de março do mesmo ano. O caminhoneiro Luiz Alberto Bernardino da Silva teve sua prisão preventiva decretada no dia 25 de abril de 2012. 

CONFIRA AS MENSAGENS DE MIRELLA

“Ainda tá fazendo inferno? Você sabia onde tava se metendo, e mesmo assim você quis! Agora aguente, não tem nada no mundo que faça eu esquecer o que você me fez passar! Você não foi a primeira puta que ele teve! Mas vou fazer com que você tenha sido a última.”

“Você não vai sentir o mesmo que me fez sentir... mas vai pagar caro pelo que você nos fez passar! Nem tenha dúvida disso! E no final disso tudo quero lhe vê respeitando homens casados e quero que aprenda o valor de uma família a qual você tentou destruir!”.

O poder de decisão sobre a vida e a morte

“‘Alagoas é o paraíso do crime de mando”. A afirmação de 2016 é do ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes. Ao citar o estado, Mendes argumentou que “quando o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) esteve em Alagoas, na minha presidência, encontramos cinco mil homicídios sem inquérito aberto. Portanto, é o paraíso do crime de mando”.

Conforme a socióloga Ana Cláudia Laurindo, a afirmação do ministro tem fundamento. “A psicologia do alagoano é muito assentada nos hábitos da colônia e do domínio rural. Existia sempre a figura grande de um coronel que tinha poderes de construção e destruição. Hoje, ainda temos uma relação com essa figura. O mandante do crime nunca é um indivíduo pobre”.

Em certos casos, o mandante de crimes tem uma certa legitimidade para ordenar execuções sem provocar nenhum tipo de ojeriza na população. Isso poderia explicar o fato de nomes da política alagoana conseguirem se reeleger embora responda processos por homicídios. 

“O indivíduo matador não é necessariamente um criminoso na visão do nosso povo. Mas, para casar com essa psicologia, temos também o próprio aparato legal costurado com poderosos locais. Então, se o mandante de crime é uma autoridade, antes de ir a julgamento, ele já construiu vários elos relacionais com os poderes. Nós temos uma sociedade construída de uma maneira que quem tem dinheiro tem também o poder de decisão sobre a vida e sobre a morte”, finalizou. 

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