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24 de Setembro de 2018

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Edição nº 941 / 2017

03/10/2017 - 14:40:03

Jorge Oliveira

Jorge Oliveira

Dedos-duros

Brasília - A delação premiada virou uma bagunça e o delator  - antes um sujeito rejeitado e execrado  pela sociedade - agora recebe status de herói. Para receber o benefício do perdão ou abrandamento da pena os acusados agora disputam na porrinha quem vai ganhar para dedurar primeiro. A reação de Eduardo Cunha contra a Procuradoria-Geral da República ao saber que a sua confissão foi rejeitada é um exemplo da banalização do crime e de má conduta dos envolvidos: “Repudio com veemência o conteúdo dos depoimentos do Funaro. Trata-se de mais uma delação sem provas (...), onde o delator relata fatos que inclusive não participou e não tinha qualquer possibilidade de acesso a informações”,  escreveu o ex-deputado do presídio. 

Veja que coisa: Cunha quer ter a primazia da delação. Acha, entre outras palavras, que o doleiro Funaro aproveitou-se dos segredos das negociatas com PMDB para “roubar” as informações que ele tinha para a PGR. Diz ainda na nota que o doleiro aventurou-se na confissão, pois contou coisas que ele não tinha cacife para saber por não ter acesso às informações que ele, Cunha, tem para entregar aos procuradores. Pois é, Cunha ainda não percebeu que pelo andar da carruagem vai passar uma bom temporada na cadeia. 

Os procuradores rejeitam assinar delações com ele porque entendem que o Cunha trabalhou em parceria com Funaro, portanto, as informações são semelhantes para que ambos sejam beneficiados. Eu, por exemplo, discordo: o ex-presidente da Câmara sabe muita coisa sobre o trio Temer, Moreira e Padilha porque foi desse grupo a iniciativa do impeachment. Além disso, Cunha só acionou o regimento da Casa para expurgar a Dilma depois das garantias de Temer de que nada iria acontecer com ele caso o amigo chegasse à presidência. 

Os procuradores não podem esnobar. Eu tendo a concordar com Cunha quando diz que sabe mais do que o Funaro. Ora, o ex-presidente da Câmara foi da copa e cozinha do presidente Temer. Estava entre os principais arrecadadores de grana para o partido e por muitos anos deu as cartas dentro do PMDB. Ao ser esnobado pelos procuradores, Cunha disparou mísseis de dentro do presídio contra a PGR: “As delações premiadas chegaram ao ponto máximo da desmoralização. Basta concordar com qualquer coisa para obter infinitos benefícios”. 

Cunha está igualzinho aqueles presos que chegam para uma temporada curta na cadeia e lá dentro percebem que a permanência é infinita. Na primeira sentença aplicada pelo juiz Sérgio Moro, ele viu desaparecer por completo a solidariedade dos seus amigos de partido e do Palácio do Planalto. E, sozinho, começou a detalhar a sua delação em noites de insônias no beliche de cimento cru do presídio. Mas enquanto selecionava o que iria dizer, Funaro foi mais esperto e adiantou os segredos para o ex-procurador-geral, Rodrigo Janot. Pronto, a delação do Cunha foi para o brejo. Baseado na confissão do doleiro, Funaro acusou Temer, Moreira, Jucá e Padilha da criação de uma organização criminosa. 

Cunha, enfurecido, já anunciou que vai à Justiça para anular a delação de Funaro. Ele não se conforma em ver que trechos da sua colaboração, que preparava com o maior carinho, foram enxertados no acordo do Funaro. Está configurado aí, no mínimo, um crime de direitos autorais. Se ganhar a causa, Cunha quer de volta o seu texto, pois se considera lesado na sua história.

Esperneando

Na verdade, não adianta Cunha espernear. A ideia dos procuradores é manter o depoimento dele em banho-maria até ele decidir contar tudo que sabe. Por enquanto, a tática é desprezar a confissão para minimizar a sua delação. No desespero é provável que saia da sua caixa-preta revelações que farão, mais uma vez, explodir a república já tão deteriorada.

Rapinas 

Uma coisa é certa até agora: a Lava Jato serve para revelar o caráter infectocontagioso dessa gente que usava ternos de grife para esconder o servilismo e a subserviência. Até agora não vi um só desses sujeitos que não abaixassem as calças diante do juiz Sérgio Moro.

Fechamento

Foi-se. O Banco do Brasil encerrou suas atividades em Portugal, deixando milhares de correntistas na mão. A irresponsabilidade do banco é do tamanho - ou até maior -  da irresponsabilidade do presidente Michel, que confessou, de alto e bom som, que não sabia da paralisação dos trabalhos do banco em terras lusitanas. Nesse momento, os clientes do BB estão literalmente num mato sem cachorro. A principal agência da Marques de Pombal, em Lisboa, fecha as portas no dia 5 de novembro. Daí em diante vai ser um deus nos acuda, pois ninguém sabe o que vai acontecer com as suas contas.

Negociata

Como é hábito no Brasil, quando essas coisas acontecem, há sempre um pano de fundo nas histórias mal contadas. Para ser mais explícito: existe sempre a suspeita de que alguma coisa ilegal está acontecendo ou vai acontecer. E o brasileiro, desconfiado, começa a juntar o quebra-cabeça para saber as razões que levaram o BB a fechar suas portas poucos dias depois da visita de Temer a Portugal, numa viagem que tinha a China como destino, e entregar a carteira ao novíssimos Banco CTT.

 Acordo

O que se sabe até agora é que o Banco do Brasil assinou um acordo de intenções com o CTT, que antes operava apenas como agência postal internacional, para a transferência de todo acervo financeiro do banco. Acontece que os clientes brasileiros ausentes – aqueles que não moram em Portugal – só podem transferir seu dinheiro se assinarem a papelada disponível no Banco CTT lá em Portugal, o que cria um obstáculo intransponível, por enquanto insanável, para esses correntistas. Assim, quem está fora de Portugal terá o seu dinheiro congelado nas nuvens depois que as agências “físicas” do BB forem apagadas das ruas de Lisboa em novembro próximo.

Ignorando

Nem todos os clientes do BB receberam a comunicação do encerramento das atividades do banco em Portugal, a exemplo do que aconteceu quando a primeira agência do BB, em Cascais, foi fechada. Dessa vez, como sempre ocorre, os funcionários do banco tinham pouca informação disponível para os seus correntistas. Repetiam sempre, como uma gravação oficial, que o BB para as suas atividades a partir de 5 de novembro. O tom, da informação vazia e desrespeitosa, é de desprezo aos milhares de correntistas.

 Inutilmente

Só um governo inútil como esse do Temer fecha um banco com a tradição do BB que, assim, deixa de representar o Brasil e os brasileiros em Portugal. É como diz um alto executivo do governo: “É fechar a casa da vovó e jogar a chave fora”. O que não se explica até hoje é como Henrique Meirelles, o ministro da Fazenda, faz uma carta de intenção para transferir o ativo do BB para o Banco CTT sem consultar o próprio presidente da República que se mostrou surpreso com o fechamento das agencias (Lisboa e Porto). É a verdadeira da Casa de Noca.

Incapaz

E daí? Mostrou-se surpreso,  mas foi incapaz de impedir tal indelicadeza com os brasileiros que moram em Portugal e fazem  suas transações  financeiras no banco. Muitos clientes e funcionários do BB fizeram um movimento na Praça Marques de Pombal, em Lisboa, onde fica a única agência do banco, protestando contra o fechamento. Mas pouco – ou quase nada – adiantou. Ninguém de Brasília deu bolas para a passeata. O burocrata, indiferente, é surdo aos problemas que afetam às pessoas. 

Fora Temer 

É lamentável que isso aconteça no momento em que muitos brasileiros fazem de Portugal a sua segunda opção de vida e o governo tenta estreitar seu relacionamento comercial com os lusitanos. Não só as contas dos clientes vão parar no CTT, como também vão para lá a carteira imobiliária do BB, no momento, bem “gordinha”. Apaga-se, com isso, um dos vestígios do Brasil mais importante em terras lusitanas com o fechamento do Banco do Brasil. É por isso, que, à porta do BB, todos gritavam – clientes e funcionários – Fora Temer. E com razão. 


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