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24 de Setembro de 2018

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Edição nº 940 / 2017

26/09/2017 - 10:02:10

Jorge Oliveira

Jorge Oliveira

A fita do Joesley 

Brasília - Essa história da fita do Joesley, com quatro horas de gravação, que chegou à Procuradoria-Geral da República está mal contada. Outra história também mal contada é esse encontro casual em um botequim de Brasília do advogado de Joesley com o procurador Janot às vésperas do chefão da carne ir para a cadeia. Ah, também não cola a história do Miller que deixou o emprego vitalício de procurador para trabalhar em um escritório de advocacia que cuidava dos interesses da J&F/JBS. E o outro procurador, o Ângelo Goulart, não devemos também esquecer. Esse cidadão também foi agente duplo dentro da procuradoria, preso ao ser descoberto. Enfim, diante de tanto embaraço, Rodrigo Janot deve, sim, explicação à população sobre os seus atos e dos seus auxiliares nos últimos anos na direção da PGR.

Opa! Há outras histórias mal contadas: a impunidade do Miller. Por que o ministro Edson Fachin, beneficiado pelo lobby da JBS no Senado para ser nomeado ministro do STF, preferiu preservar o procurador, deixando-o fora da cadeia? Ora, Miller é a peça chave para se conhecer os mistérios que rondam a Procuradoria-Geral e os motivos pelos quais Janot teria beneficiado os Batista com o maior prêmio da delação, a imunidade penal. Nada disso ainda foi esclarecido. Não se esclareceu, inclusive, as acusações do Temer que, ao se defender, insinuou, com todas as letras, que Miller teria outros parceiros para dividir os milhões de reais que recebeu do escritório para livrar a cara dos Batista. Está provado agora que Miller era o principal intermediário entre a PGR e os Batista, com quem fazia negócios escusos para livrar os irmãos da cadeia e orientá-los na delação premiada.

Não precisa ser nenhum expert em investigação para saber que nem tudo foi esclarecido nesse imbróglio entre a PGR e os Batista. Por exemplo: quem teria interesse em mandar a fita para Janot no mesmo malote das peças de áudios que os Batista enviavam como sucatas da delação premiada? Se os procuradores são ágeis em interrogatórios e em investigações, está aí um enredo para ser desvendado por esses Sherlock Holmes modernos. Eu, por exemplo, suspeito que alguém botou essas fitas no malote do Joesley por interesses contrariados ou pensando, quem sabe, que poderia ser a sua próxima vítima nessas gravações clandestinas que ele fazia ou mandava fazer para colocar a república aos seus pés.

Suspeito do Ricardo Saud, o assessor fiel dele, que estaria na mira do jogo do patrão que mexia no tabuleiro para manter as pessoas reféns com o movimento das suas peças. Por que? Porque durante a gravação de quatro horas, Saud pouco falou, pouco interagiu com o chefe. E quando a sua voz aparecia era sempre inaudível. A conversa entre os dois transcorreu quase como um monólogo. A voz que se ouvia o tempo todo era de Joesley soltando as suas bravatas e reafirmando o seu autopoder de destruição.

As hipóteses

Não existe a hipótese do próprio Joesley Batista ter colocado a fita no malote que iria para a procuradoria? Acho que não. Por que ele iria se auto incriminar depois da bonificação que recebeu de Janot de não ir para cadeia pelos diversos crimes que cometeu? Pode também ter se atrapalhado com a quantidade de gravações ilegais que tem em mãos e, em um descuido, ter colocado a fita trágica no malote que foi para a procuradoria. Outra hipótese é a de um advogado ressentido que decidiu atear fogo ao circo e se vingar do cliente por algum motivo. A última, a mais ingênua, seria a da secretária de Joesley ter fechado o malote e, inadvertidamente, posto a fita bomba lá dentro. 

As histórias

Essas e outras histórias nebulosas estão levando Janot à CPMI da JBS para prestar esclarecimentos sobre o caso. E lá, o ambiente é outro, é a casa do Temer. Ele vai sentar no banco dos réus, digamos assim, para encarar seus algozes que têm sede de vingança. A plateia é de parlamentares envolvidos na Lava Jato escorraçados pelo Janot nos últimos quatro anos. Eles vão sabatiná-lo à exaustão.

Nomeação

Quem vai estar à frente da CPMI é o deputado Carlos Marun (PMDB-MS), um dos parlamentares da tropa de choque do ex-deputado Eduardo Cunha, e hoje o principal homem de Temer na Câmara dos Deputados. E o aviso das investigações já foi dado. A comissão já decidiu que vai apurar as concessões do BNDES à JBS. E investigar também a delação premiada entre os empresários da carne e o Ministério Público Federal no caso da operação Lava Jato.

Convocação

A Comissão Parlamentar de Inquérito Mista já recebeu 215 requerimentos de convocação de depoimentos e solicitação de informações junto às empresas e órgãos públicos que foram protocoladas até quarta-feira na Câmara.

Na mira

Marun já disse que um dos depoentes será o ex-procurador-geral da República, Rodrigo Janot. Além dele, o deputado pensa também em chamar para depor na CPMI procuradores, ex-procuradores, delegados e servidores da Polícia Federal, além de executivos e ex-executivos do BNDES e da JBS, entre outros envolvidos. Diz Marun: “Eu penso que estamos estabelecendo o início dos trabalhos. A ideia é que nenhum requerimento seja reprovado agora. Queremos já aprovar só alguns que entendemos imprescindíveis para o início dos trabalhos”.

Tendência

Mas o trabalho de Marun já pinta como comprometido porque ele mesmo confessa que não pretende convidar para depor os delatores da JBS porque os considera “mentirosos contumazes”. Ora, uma CPIM que não chama para depor os principais personagens do caso não pode ser levada a sério. 

Seriedade

Uma das apurações que não pode deixar de ser feita será sobre a fita misteriosa só descoberta porque uma procuradora bisbilhoteira decidiu ouvir todo material de áudio que chegou a ela por meio dos irmãos Batista. Fala-se, inclusive, que a Polícia Federal já tinha uma cópia da fita, o que levou Janot a se apressar e adiantar o seu conteúdo em uma coletiva de imprensa. 

Mensageiro

Quem enviou a fita para a PGR também teve o cuidado de mandar uma cópia para PF para se certificar de que os crimes dos Batista realmente seriam de fato apurados. Joesley não entendeu ainda que a sua riqueza não compra lealdade. E que nesse mundo da deduragem e da arapongagem ninguém é de ninguém. Salve-se quem puder!


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