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20 de Novembro de 2018

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Edição nº 939 / 2017

18/09/2017 - 09:33:08

Moeda da corrupção

CLÁUDIO VIEIRA

Meu Amigo Paulo Lacerda envia-me, de Recife, mensagem de que não poderia comparecer a festa de casamento na família. Disse-me ele não ter “gedéis”. Entendi o chiste. Poderia ter dito “renans”, “jucás”, “cunhas”, “lulas”, e outros tantos epítetos. Inclusive, se quisesse “homenagear” o Temer, poderia ter dito não ter “lulias”, aproveitando o outro bizarro sobrenome do presidente. Esses, porém, não tem, até o momento, comprovação tão óbvia e material do recebimento de propinas. Só o Gedel Vieira Lima foi pego com a mão na botija, ou seja, 52 milhões de gedéis.

Há pouco, antes da descoberta dos gedéis, o preso Gedel, durante interrogatório, debulhou-se em lágrimas contritas e palavras de apelo à sua honorabilidade que pretendia passar para seu filho. Tudo muito tocante, a falsa contrição do ladravaz confrangendo o coração dos mais sensíveis, que não são poucos por esse Brasil afora. Até o próprio órgão jurisdicional embarcou na canoa furada do Gedel, mandando-o cumprir a sua prisão no conforto do seu domicílio. Agora percebe-se, pretendia ele ficar perto da família, não menor foi o seu desejo de aconchegar-se aos milhões de gedéis bem guardados em apartamento de terceiro, para seu desgosto descoberto. Mesmo assim, tendo sido revogado o seu benefício domiciliar, e novamente conduzido à prisão, exibiu para o País o terço de orações nas gordas mãos. As falsas contrições, a de antes e essa de agora, não deveriam enganar ninguém, já acostumados que estamos a ouvir, de outros acusados da Lava Jato, as despudoradas declarações de inocência absoluta, mesmo diante das mais contundentes provas, consideradas indícios apenas por uma ficção jurídica.

Diante desses fatos, vem-me a certeza de que o Gedel Vieira Lima, embora baiano, jamais leu qualquer lição de outro Vieira, o Antônio, famoso jesuíta criado na Bahia dos seiscentos, o maior orador sacro do Brasil, quiçá do mundo. Assim, perdeu de conhecer o Sermão do Bom Ladrão, mas deve fazê-lo de imediato para tomar ciência de que sua falsa piedade não é bastante ao perdão: “Se o alheio que se tomou ou retém, se pode restituir e não se restituiu, a penitência deste e de outros pecados não é verdadeira penitência, senão simulada e fingida, porque se não perdoa o pecado sem se restituir o roubado, quando quem o roubou tem possibilidade de o restituir”.

Meu Amigo Paulo Lacerda, oficial da Aeronáutica, não tem mesmo gedéis da corrupção, e não poderia tê-los, cidadão honesto que é, homem de vida e reputação ilibadas. Afinal, como milhões de brasileiros decentes, vive ele dos seus proventos, licitamente recebidos em sua conta bancária após anos de trabalhos em benefício da Pátria brasileira. Que Deus o abençoe!    

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