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16 de Novembro de 2018

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Edição nº 938 / 2017

11/09/2017 - 15:04:02

Jorge Oliveira

Jorge Oliveira

A bomba no colo de Janot

Brasília - Parece que a bomba de hidrogênio do ditador Kim Jong-un desviou-se do centro de lançamento na Coreia do Norte para acertar em cheio a Procuradoria-Geral da República em Brasília. A menos de duas semanas de deixar o cargo, Rodrigo Janot foi obrigado a declarar à imprensa que o seu principal assessor no órgão, o ex-procurador Marcello Miller, está envolvido até a medula com a organização criminosa dos irmãos Batista – Joesley e Wesley. Ou seja:  o escândalo, aliás, o petardo, entrou arrasando na sala de estar de Janot pulverizando a reputação do seu trabalho à frente da PGR até então abalizado pela população.

Janot descobre, tardiamente, que os irmãos Batista fazem parte da maior organização criminosa já montada no país para comprar políticos, juízes, ministros, presidentes e executivos de estatais, coisa que ele sempre negou ao autorizar a imunidade penal aos empresários. Na entrevista que deu aos jornalistas, Janot parecia enfurecido com os Batista depois que chegaram às suas mãos gravações que colocam seu ex-assessor na procuradoria na berlinda. Pelo que se sabe até agora, Miller foi o principal intermediário das negociações dos irmãos com a PGR quando foi trabalhar em um escritório de advocacia que prestava serviço a JBS. 

A conversa confusa de Rodrigo Janot na coletiva deixa brecha para questionamentos. Por exemplo: como do nada apareceram na procuradoria um áudio de quatro horas acusando seu ex-assessor e um ministro do STF, além de um político importante, quando Janot dizia ter esgotado a delação premiada dos Batista? Por que Janot deixou a Polícia Federal de fora das investigações que fez para descobrir o caminho da propina da JBS para os políticos? Por que Janot deu esclarecimentos esfarrapados quando foi questionado sobre a exoneração de Miller e a sua sociedade com um escritório de advocacia que defendia os interesses da JBS dentro da Procuradoria-Geral da República? Por que Janot não processou o Temer quando ele insinuou o seu envolvimento com as negociatas dos Batista e o seu assessor-procurador?

Essas e outras perguntas Rodrigo Janot ainda deve esclarecer à população brasileira para manter a sua biografia intocável, como um homem acima de qualquer suspeita. Para desmentir, inclusive, as ofensas que sofreu do ministro do STF, Gilmar Mendes, que o chamou de desqualificado e de petista enrustido. As revelações desse novo áudio, que os Batista mantinham em segredo, aparecem no momento em que um grupo da procuradoria começou a questionar os privilégios dos irmãos no acordo celebrado com a PGR de Janot. Alguns deles alegavam que os ilícitos cometidos pelos Batista caracterizavam a criação de uma organização criminosa, portanto, eles não poderiam ter recebido salvo conduto penal pela delação que fizeram, pois não estariam fora do alcance da lei.

A prova disso é a entrevista que Joesley deu à Veja esta semana quando afirma ter corrompido toda a república para se beneficiar do dinheiro fácil dos bancos e dos ministérios. Diz claramente que subornou juízes, procuradores, ministros, políticos (1.829) e todo mundo que encontrava e que poderia ser empecilho ao seu caminho de bilionário. Do BNDES levou mais de 10 bilhões de reais para comprar empresas lá fora, enquanto as dos Brasil faliam com a administração desastrosa da economia do governo do PT.

Quadrilha

Os fatos narrados por Joesley e Wesley, que abalaram as finanças do país, não foram suficientes para sensibilizar Rodrigo Janot de que ele estaria diante de uma quadrilha que sobrevivia à base da corrupção. Ao contrário. Sempre que era questionado sobre as benesses da PGR aos irmãos Batista saia em defesa dos empresários, argumentando que já tinha alcançado um peixe grande (Temer) com a delação deles e, portanto, já era o suficiente para beneficiá-los com a liberdade. Sabe-se, agora, que Janot tinha oposição dentro da própria procuradoria que não concordava com o acordo que ele fez com os Batista.

Reavaliar

Na entrevista que aparentava nervosismo, Janot reafirmou várias vezes que todos são iguais perante a lei, inclusive o Marcelo Miller. E que pode reavaliar a delação dos irmãos Batista. Janot, que até então parecia um cara inteligente e astuto nas suas investigações, pareceu vacilar nos esclarecimentos. Não acrescentou nada mais do que o povo brasileiro já sabia: Joesley e Wesley fazem parte de uma organização criminosa. Portanto, precisam responder por seus crimes na cadeia e não dentro de seus iates luxuosos e apartamentos milionários em Nova Iorque. E ponto final. 

Diferença

O brasileiro achava que a confissão dos diretores da Odebrecht sobre a corrupção foi a mais escandalosa. Sabe, agora, que os Batista devoraram o seu dinheiro com a ajuda de políticos e juízes corruptos que abriram o caminho deles para o dinheiro fácil dos bancos estatais. Os irmãos goianos viram da noite para o dia, com a ajuda do governo do PT, suas contas bancárias alcançarem a cifra dos bilhões, enquanto o país entrava em profunda recessão com empresas quebrando e o desemprego alcançando o índice alarmante de 14 milhões de pessoas.

Corriola

Os Batista, modestos donos de açougue no interior de Goiás, viram-se da noite para o dia bilionários. Concentraram seus trabalhos no Congresso Nacional, onde abriram as porteiras para uma fábrica de corrupção. Distribuindo propinas para senadores e deputados rapidamente chegaram aos cofres do BNDES, Caixa Econômica e Banco do Brasil, de onde levaram bilhões de reais para fazer suas comprinhas no exterior. Hoje, suas empresas faturam mais de 150 bilhões de reais no mundo.

Cinismo

Ao ser chamado para depor, Joesley decidiu abrir o jogo sobre o movimento financeiro das suas empresas. Mas informou aos procuradores apenas uma parte do seu comprometimento com os políticos e o governo. Mesmo assim, foi contemplado com a imunidade penal. Ocorre que outros procuradores, contrariados com o prêmio da PGR aos irmãos Batista, abriram outras frentes de investigações e concluíram que os empresários ainda tinham segredos que se negavam a revelar. Ao perceber o cerco, os irmãos decidiram soltar mais áudios e vídeos que dispunham. É aí que aparece, comprometido, o procurador Marcello Miller, braço direito de Janot na PGR. Para que o escândalo não estourasse com a sua saída do órgão, prudentemente, Janot decidiu assumir as novas revelações. 

Quem é?

Agora, todos, na politica e na justiça, querem saber os nomes dos outros envolvidos com as maracutaias dos irmãos Batista. Ou seja: durante mais tempo os brasileiros ainda vão assistir essa novela que começou há dois anos e não tem previsão para acabar. Enquanto os barões estiveram indo em cana, só nos resta torcer para que esses capítulos não cheguem ao fim.


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