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24 de Setembro de 2018

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Edição nº 931 / 2017

26/07/2017 - 22:17:55

Jorge Oliveira

Jorge Oliveira

Rio sangrento

Rio - Confesso que fiquei em dúvida quanto a escolher entre dois temas para escrever. Se gastaria meu tempo para falar sobre o Lula, agora condenado a nove anos e seis meses de cadeia por corrupção, ou da falência financeira e da insegurança do Rio de Janeiro. Achei mais interessante abordar a decadência da Cidade Maravilhosa (?), já que o ex-presidente agora virou literalmente um caso de polícia. Na história republicana já vimos muitas coisas de presidentes: renúncia, suicídio e até impeachment. Mas esta é a primeira vez que um ex-presidente é condenado por suborno. Portanto, o caso de Lula, o chefe da organização criminosa que saqueou os cofres públicos, é agora um problema do sistema penal brasileiro que o receberá em um dos seus presídios.

Nunca imaginei escrever um artigo com o título acima sobre o Rio de Janeiro, a cidade que todos os brasileiros aprenderam a amar e apreciar pela sua beleza natural. Habitada por um povo hospitaleiro e amável, o Rio do carioca espirituoso e solidário, é hoje um local em ruína, fruto das más administrações dos últimos quarenta anos. Diria até que não é só isso, mas também da irreverência do carioca quando deixou de levar a sério o voto, tratando-o com desdém como se isso fosse desprezível numa democracia. A prova mais eloquente disso – e até hoje a população paga um preço caro – foi a votação que o macaco Tião, do Zoológico, teve: 400 mil votos, ficando em terceiro lugar na eleição para prefeito do Rio.

Vivia-se naquela época, 1988, o voto de protesto pós-ditadura. Tião, de 1,52m e 70 kg, celebridade, teve direito até música de Ed Motta no lançamento da sua candidatura e depois foi parar no Guinness World Records como o chimpanzé a receber mais votos no mundo. Morreu de diabetes, em dezembro de 1996, aos 34 anos, homenageado com luto oficial de três dias no Rio de Janeiro. De lá pra cá, o Rio não se aprumou mais. Naquele mesmo ano, o macaco assistiu de seu gabinete no Zoológico a falência financeira da cidade decretada por Saturnino Braga, e apavorou-se com a incapacidade administrativa e inapetência de seu adversário no cargo de prefeito.  

 O Tião não assumiu a prefeitura porque, como se sabe, ficou em terceiro lugar. Mas se tivesse vencido a eleição, certamente teria feito um papel melhor do que os governantes cacarecos que já passaram por aqui. Até hoje o Rio se ressente disso: de não ter, à época, a tropa do Tião à frente da sua administração. Sou capaz de apostar que o chimpanzé teria sido um governante melhor do que os que passaram por aqui nesses últimos anos: Chagas Freitas, Brizola, Moreira Franco, Marcelo Alencar, o casal Garotinho, Sérgio Cabral e Pezão (Veja só: Pezão!!). Pelo que você viu dessa lista, fica evidente que os eleitores do Rio, infelizmente, só votaram em coisas inúteis nas últimas décadas, depois que se frustraram com a derrota do Tião.

Irreverência

O jeito irreverente do carioca de brincar com o voto não deu certo. O que se assiste agora é o Rio mergulhado numa dramática tragédia, mesmo depois dos bilhões de reais investidos em infraestrutura para o Pan-Americano, a Copa e os Jogos Olímpicos. O ex-governador Sérgio Cabral está preso, acusado de assaltar os cofres públicos, e o Pezão, seu comparsa, decretou a falência do Estado. Os servidores públicos continuam com os salários atrasados, humilhados, mendigando cestas básicas. E a sua principal universidade, a UERJ, desmoronou-se, vive no caos.

 Tragédia

Mas se você acha que essa calamidade acima é o fim dessa história, veja mais: a segurança pública faliu, entrou em profunda indigência. Nessa altura do campeonato ninguém sabe quem é polícia ou quem é bandido, contrariando a máxima do assaltante de banco, na década de 1970, Lúcio Villar Lírio, de que “bandido é bandido, polícia é polícia”. Aqui, principalmente na periferia, as crianças são baleadas dentro do útero da mãe, como aconteceu com Arthuzinho, ainda entre a vida e a morte depois de ferido com um tiro na barriga da mãe. Se escapar, coitado, ficará com sequelas para o resto da vida.

 Islâmico

E ainda tem gente que se arrepia com os crimes do Estado Islâmico. Bobagem, o povo do Rio vive na mais lamentável guerra civil, onde a atrocidade é um filme com cenas vivas, em preto e branco, nos locais mais carentes do estado sem que nenhuma autoridade mexa um só músculo da cara desavergonhada. Se você ainda não sentiu náuseas lendo esse artigo diante de tanta violência, bestialidade, e abandono administrativo nessa tumba coletiva, segundo estatística da própria Secretaria de Segurança Pública, publicada pelo Globo.

 Sangue

Foram registrados 6.494 assaltos contra turistas entre janeiro de 2016 e fevereiro de 2017, isso equivale a um assalto a visitante a cada 1 hora e 34 minutos. Os principais locais mais violentos, cartões postais: Copacabana 2.492 assaltos, Ipanema 1.467 e Centro 741. Nas praias foram cometidos 2.816 assaltos e em via pública 2.263. O turismo no Rio teve uma queda de receita de R$ 768 milhões de janeiro a abril deste ano, segundo pesquisa da Confederação Nacional do Comércio.

 Tiroteios

Não vamos falar aqui nos quase quinze tiroteios diários, nas balas perdidas (35 mortos este ano), no tráfico de drogas e no assalto a cargas nas estradas. Lamentável, mas é chover no molhado. Diante de tanto desmando, será que o carioca ainda não entendeu que o voto não é cacareco? Ou ainda continua procurando o seu chimpanzé de estimação? Com a palavra os 400 mil eleitores do Tião. 

Al Capone

Li e reli algumas entrevistas de Rodrigo Janot nos últimos dias. Confesso que nada do que ele disse me tocou, me sensibilizou em relação ao seu trabalho na procuradoria. O procurador-geral da República tem falado friamente sobre os fatos que ocorreram na sua gestão à frente do órgão e em nenhum momento puxou para si a responsabilidade de apurar os crimes da dupla Lula/Dilma. Fez-se distante dos males que os dois causaram ao país, ao contrário do juiz Sérgio Moro que condenou o ex-presidente a nove anos e meio de cadeia. Janot falou do Temer, do Aécio e do procurador Ângelo Goulart, olheiro dos irmãos Batista, preso. Recusou-se a se defender das insinuações que Temer fez de que ele estaria na caixinha da JBS, acusação grave que teria merecido dele uma resposta à altura de quem não tem culpa no cartório. Mas o que se viu até agora foi um silêncio inexplicável de Janot.

Malefícios

Na entrevista ao Estadão, o procurador faz cara de paisagem para os malefícios que a dupla Lula/Dilma causou ao país. Em nenhum momento isto o motivou a investigar os petistas que saquearam os cofres públicos, pois para ele o país só começou a ficar pervertido depois que o Temer assumiu o poder e o Aécio pediu R$ 2 milhões ao Joesley, da JBS. Ora, doutor Janot, o senhor sabe muito bem que quase no final dos seus trabalhos houve uma turbulência dentro do próprio Ministério Público. Muitos dos seus auxiliares – que preferem o anonimato – não gostaram que Vossa Senhoria tivesse dado um salvo conduto aos irmãos Batista em troca da delação premiada.

Delação

Quando o senhor diz que uma das condições dos Batista para delação era o perdão total dos crimes, que eles não abriam mão dessa imunidade, está fazendo uma confissão de leniência. Trocando em miúdos: o senhor quer dizer que nem a Polícia Federal e nem os seus procuradores teriam condição de levar a fundo as investigações? É isso? Ora, sabemos todos que a PF está aparelhada tecnicamente para descobrir crimes financeiros como poucas polícias do mundo. E os seus procuradores também estão na mesma condição de eficiência. Portanto, as suas afirmações, doutor Janot, são frágeis, não se sustentam.

Botija

O senhor esteve com a mão na botija para chegar aos verdadeiros chefes da organização criminosa no Brasil, sob a orientação dos irmãos Batista, e deixou escapar essa grande oportunidade porque considerou que a gravação, a mala do assessor do Temer, e a gorjeta milionária do Aécio eram revelações suficientes para encerrar as investigações. Os irmãos Batista, senhor Janot, enrolaram o senhor e seus auxiliares. Eles são hábeis negociantes. Não à toa, em pouco mais de dez anos, deixaram seus açougues na periferia das cidades de Goiás para se transformar em bilionários internacionais.

Balela

Com a conversa fiada de que o Brasil precisaria de multinacionais no exterior, eles também enrolaram os dirigentes do BNDES e de lá sacaram bilhões para comprar empresas com o nosso dinheirinho e gerar renda e emprego lá fora. Os que não foram iludidos passaram a receber propinas como intermediários das transações para facilitar as negociatas dos irmãos Batista. Entendeu, doutor Janot?

Os fatos

Veja agora os fatos atuais: com a prisão de Geddel, os brasileiros sabem agora que os irmãos Batista fizeram da Caixa Econômica Federal um covil de bandidos. Do banco, eles sacaram mais de R$ 2 bilhões para comprar a Alpargatas, aquela das sandálias havaianas. O Geddel era vice da CEF à época. Descobre-se, agora, que ele facilitou o negócio ao preço de R$ 20 milhões de propina, como denunciou o doleiro Lúcio Funaro em delação premiada. A pergunta é: os Batista, quando fizeram a delação premiada, contaram essa historinha para o senhor e seus procuradores? Claro que não, doutor Janot. 

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