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15 de Novembro de 2018

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Edição nº 929 / 2017

10/07/2017 - 17:38:18

O vírus do poder

Alari Romariz Torres

Já abordei este assunto em dois artigos escritos em 2003 e no ano passado. Volto ao tema, porque a situação parece que piorou.

A política tem o estranho poder de modificar as pessoas. É impressionante o efeito devastador que atinge o ego de uma criatura ao tomar posse como vereador, deputado, senador ou outro qualquer cargo eletivo.

Tive um parente político que logo após diplomado, mudou até o tom de voz. Afastou-se dos amigos e não conseguiu se reeleger. Tentei mostrar ao deputado algumas nuances de uma casa política, mas ele não tinha tempo para escutar-me.

Em meio à grave crise porque passa o Brasil, ainda é difícil fazer contato com determinadas figuras. Muitas vezes, os próprios assessores dificultam a aproximação e passam para o povo uma imagem negativa do chefe.

Uma grande amiga tinha em sua família um político famoso. Nas festas de seus filhos, ele mal aparecia ou, então, chegava de supetão, ia de mesa em mesa e desaparecia. Parecia ter medo que alguém fosse pedir-lhe algo. Era um estranho no ninho!

Encontrar políticos em aeroporto é muito interessante. Antes, eles se escondiam nas salas vips para evitar contato com os eleitores. Agora, com tantos escândalos envolvendo figuras conhecidas, eles se escondem para não serem vaiados. Os tempos são outros: é difícil saber quem vai escapar da Lava Jato ou de outras operações que estão descobrindo os corruptos.

Como sempre trabalhei em casa política, tenho analisado diferentes tipos. Existe aquele que anda de sapato alto, faz questão de não enxergar seus eleitores. Esquece as promessas feitas em campanha e não cumpridas, finge que não está vendo ninguém.

Moro numa cidade pequena que elegeu para prefeito um moço pobre da região, cujo padrinho é um politico de classe alta da cidade. Pois o povo está reclamando: o cidadão está vaidoso, obedece ao ex-prefeito, abandonou os amigos. Muito rápida a mudança, mas é a pura verdade.

Difícil ver um deputado ou um senador andando pelo comércio ou pelos shoppings da cidade. Certa vez, encontrei um deles arrodeado de capangas, batendo as botas, como se imperador fosse. 

Pessoas simples que visitam os amigos, vão ao cinema, à praia, às festas de rua, não são políticos, com certeza.

No aeroporto do Recife, em pleno “Petrolão”, entrei no elevador e me deparei com um senador do PT. Envergonhado, fez um riso amarelo e não cumprimentou ninguém. “O Sr. é o senador fulano?” Perguntei, obtendo a resposta: “Sim”. E fim de papo.

Exemplos de humildade são muito poucos. Não quero citar alguns e me esquecer de outros. Já vi o prefeito de Maceió andando pelas ruas, mas o governador do Estado é figura rara. Parece que depois das eleições, o povo amedronta as grandes figuras.

Quando perdem os pleitos viram pessoas normais, mas as lições não servem. Voltando ao pedestal, recuperam a vaidade.

Acho que os políticos, principalmente governadores e prefeitos, deveriam ter um dia da semana para receberem as pessoas, andarem pelas ruas respirando o ar normal e não só o ar condicionado.

Já fui ao Congresso Nacional, com um deputado federal amigo, visitar um senador alagoano. Tudo muito fácil por causa do moço que me levou. Mas, se fosse sozinha, não encontraria nenhum deles.

Convivi durante anos com deputados na Assembleia Legislativa e poucos paravam para conversar com as pessoas, Heloísa Helena sempre foi cordial e dava atenção a quem a procurava.

O interessante nisso tudo é que o vírus da mosca azul, do poder, da vaidade, atinge a maioria dos detentores de mandatos. Na hora de pedir o voto, percorrem cidades, estados, procurando o povo. Depois de eleitos, a plebe vira rolete chupado, como diria um grande amigo meu.


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