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15 de Novembro de 2018

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Edição nº 927 / 2017

22/06/2017 - 22:38:36

Moradores culpam queda de muro de concessionária por tragédia

O deslizamento vitimou família de seis pessoas e um corpo continua desaparecido; empresa descarta responsabilidade

José Fernando Martins [email protected]
Equipes do Corpo de Bombeiros em busca dos corpos das vítimas

Prestes a completar um mês do deslizamento que vitimou uma família de seis pessoas na Grota de Santo Amaro, em Maceió, moradores ainda levantam incertezas do motivo do acidente. Para eles, a tragédia de 27 de maio só aconteceu por causa do desabamento de um muro pertencente à concessionária Cycosa Veículos, localizada acima da grota, na Avenida Durval de Góes Monteiro. 

Para o morador Antônio Trindade, 59, a madrugada do dia 27 de maio ficará para sempre marcada na memória. “Em cinco minutos perdi minha casa, meu negócio, meus amigos. Só não perdi minha vida e minha companheira. Os que morreram aqui eram meus fregueses. Eu conhecia todos. No dia que aconteceu a tragédia, eu ouvi um estouro e saí de casa. Foi quando vi a casa desmoronando e pensei: ‘meu amigo Ailton foi simbora’. A água começou a subir e fiquei com medo por causa da energia elétrica. Foi, então, que pensei na minha vida e saí correndo”, detalhou ao EXTRA.

O depoimento de Antônio se assemelha com o de Tereza Cristina dos Santos, 39, outra sobrevivente. “Vivi aqui 25 anos e nunca tive problemas com inundação por causa das chuvas. Isso até o deslizamento. Lembro bem daquela noite. Ouvi um estrondo muito forte. Quando caiu tudo, a água não tinha por onde vazar e invadiu as nossas casas. Hoje moro num quartinho e me visto com roupas vindas de doação”.

Conforme os moradores, a construção do muro da Cycosa teria prejudicado o escoamento da água pela encosta fragilizando ainda mais a localidade da grota, uma área já considerada de risco e imprópria para moradia. Em visita a Maceió, o engenheiro civil e professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Luís Edmundo Prado Campo, que realizou uma palestra no Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Alagoas (Crea-AL) sobre instabilidade nesses locais, falou sobre o caso. 

Após o encontro, o profissional aproveitou para percorrer áreas de risco, em Maceió, com autoridades. Embora não tenha comparecido na Grota de Santo Amaro, Campo contou à reportagem que chegou a ver fotos do caso. “O que indica é que o deslizamento pode ter sido por causa de infiltração de água na parte superior, onde está a construção”, destacou. Outra hipótese seria a erosão aos pés da encosta. Porém, segundo o engenheiro, isso somente aconteceria se houvesse a retirada de terra por parte dos moradores. 

Durante palestra, Campo também enfatizou que “há sempre o interesse do Poder Público de retirar a população de encostas”. “Mas, famílias criam raízes no local, o que também seria importante oferecer infraestrutura. No entanto, a preservação da vegetação nestas áreas é o melhor caminho a se seguir”, ponderou.  Ao acessar o Google Earth, programa em que se pode ver imagens a partir de satélites, é possível ver que o local do deslizamento estava coberto por vegetação. O programa foi atualizado com imagens em meados de 2016.

Reforma do prédio seguiu a lei, diz empresário  

Em conversa com o EXTRA, o empresário da Cycosa, Galba Accioly Filho, deu mais detalhes do acontecido. “O que caiu foi a barreira, que saiu puxando o muro. Isso foi uma fatalidade “, disse. “Também fui um dos prejudicados, mas claro, que não posso me comparar com as vítimas, porque estamos falando de vidas. Mas, tenho todas as documentações sobre a segurança do prédio”. 

Filho contou que cerca de 10 metros de muro desabaram com as chuvas. A construção tinha em média três metros de altura. “O que caiu foram os tijolos. Nem caiu a laje, que ficou suspensa, e foi segurada pelo concreto. A terra caiu e ficou um vão embaixo”, explicou.

Segundo a assessoria do Crea-AL, a concessionária registrou o projeto de reforma do prédio, bem como realizou o procedimento formal da Anotação de Responsabilidade Técnica (ART), que caracteriza legalmente os direitos e obrigações entre profissionais do Sistema Confea/Crea e contratantes de seus serviços técnicos, além de determinar a responsabilidade profissional.

O serviço ocorreu entre os dias 15 de outubro de 2012 a 30 de dezembro do mesmo ano. “A Cycosa informou ao Conselho os projetos de fundação, estrutura, hidráulica, sanitário e elétrico”, frisou a assessoria. 

Última vítima continua desaparecida

“Ele ainda está por aqui”. A frase, que poderia se tratar de algo espiritual, na realidade tem conotação física. É assim que moradores da Grota de Santo Amaro se sentem ao saber que o corpo de Ailton Alves, 52, continua soterrado. O deslizamento matou cinco pessoas: Marlene Cerqueira, 63; José Romário Alves, 23; Lilian Cherliane Silva, 21; e as crianças João Romário, 3; e Melissa, de sete meses. 

O Corpo de Bombeiros encerrou as buscas no local após 11 dias. De acordo com a corporação, aproximadamente 50 militares, usando cães farejadores e duas retroescavadeiras, procuraram a última vítima do deslizamento. A varredura na região chegou a entrar a três quilômetros de distância do córrego das proximidades do desabamento.

De acordo com assessoria, as buscas regulares acabaram, porém isso não impede de o Corpo de Bombeiro fazer novos trabalhos na área. No entanto, para isso, seria necessária a solicitação de moradores ou de algum munícipe caso encontre algum objeto ou sinais, como o mau cheiro.  

SEM INVESTIGAÇÃO

A Polícia Civil, também por meio de assessoria, informou ao EXTRA que não houve abertura de inquérito para investigar as mortes. Só seria aberto um inquérito, como destacou a assessoria de comunicação, caso algum morador fizesse denúncia com argumentos que identificassem crime descartando a causa natural. 

O promotor de Justiça Coletiva e Direitos Humanos do Ministério Público Estadual (MPE-AL), Flávio Gomes, disse à reportagem que as buscas e investigações do caso são necessárias conforme definem as leis de direito. “No entanto, é preciso avaliar o trabalho das instituições para um parecer embasado”.  

NOTA DA PREFEITURA

A Prefeitura de Maceió, por meio da Defesa Civil Municipal, revelou ter realizado em 2013 um mapeamento amplo na cidade para identificar as áreas de risco, trabalho que resultou na classificação de 76 pontos em grotas e encostas, a exemplo da comunidade de Santo Amaro. 

Todas as famílias que moram no local foram cadastradas anteriormente em programas habitacionais do governo federal e, desde que foi identificada a situação de risco, os moradores foram orientados pela Defesa Civil a deixar o local caso o volume das chuvas aumentasse, seguindo o alerta que é feito pelo próprio órgão. No entanto, há resistência da população. 

Em paralelo, a Prefeitura também encaminhou ao governo federal, ainda em 2014, a solicitação da instalação de geomantas em áreas como a Grota de Santo Amaro. No entanto, a solicitação não foi atendida. 


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