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18 de Novembro de 2018

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Edição nº 922 / 2017

22/05/2017 - 16:42:05

Jorge Oliveira

Um homem menor

Jorge Oliveira

Cascais, Portugal - Que papelão, hein Luiz Inácio! Que coisa feia. Depois das seguidas bravatas contra o Sérgio Moro e os procuradores da Lava Jato, na hora do confronto parecia um coelhinho assustado saindo da cartola de um mágico. O ex-presidente repetiu mais de 80 vezes o “não sei de nada” para fugir das perguntas incômodas do juiz. Tentou fazer um discurso político, mostrou uma massaroca de papéis para se dizer perseguido pela mídia, especialmente pela TV Globo. Esqueceu-se que participou da mesma bancada do Jornal Nacional ao lado do William Bonner quando ganhou a eleição. Mas a coisa mais triste não foram as mentiras e as negativas do ex-operário frente ao magistrado. A vergonha maior foi ele entregar a mulher, Dona Marisa, como a intermediária da empreiteira do triplex de Guarujá.

Que decepção para os seus conterrâneos, hein Luís Inácio! Cadê aquele nordestino brabo que aparece em comícios e nas reuniões do PT brigando com o mundo, insultando os adversários? Virou farofa, como diria seus conterrâneos. O que ficou daquele Lula durante o depoimento é de morrer de pena. Encurralado pelas evidências que o jogaram contra a parede, só teve uma alternativa: transferir para Dona Marisa todas as acusações que lhe eram atribuídas. Olha que coisa. Disse, por exemplo, que não sabia das visitas da sua mulher e do seu filho ao triplex. E que foi dela a ideia de adquirir o apartamento no litoral paulista mesmo sem gostar de praia. Que blasfêmia, hein Luiz Inácio! Que falta de respeito a um ente querido que não está mais aqui para esclarecer os fatos.

Essa transferência de responsabilidade pelos malfeitos de Luiz Inácio já vinha sendo engendrada desde que o pecuarista José Carlos Bumlai, o amigo do peito, montou uma versão fantasiosa para explicar o dinheiro da Odebrecht que compraria o terreno do Instituto Lula e que tinha ele como receptador. Solto pelo STF, logo o laranja do Luiz Inácio criou uma versão para livrá-lo das acusações. Olha que cara de pau! Disse ao juiz Sérgio Moro que partiu de Dona Marisa a ideia para criar o Instituto Lula. Agora em liberdade, Bumlai pode conversar com quem quiser, inclusive com os advogados de defesa do Lula que, em vez de ajudarem o seu cliente, montam estratégias estapafúrdias, como essa de envolver a Dona Marisa, para tirar seu cliente da cena do crime.

Luiz Inácio reclamou do bullyng que seus netos vêm sofrendo na escola por causa do noticiário da mídia que o aponta como chefe da organização criminosa que saqueou os cofres públicos. E agora, depois de jogar a avó das crianças na Lava Jato, o que o Luiz Inácio vai dizer para elas? Que a culpa pelos crimes em que ele está envolvido é da Dona Marisa? Coitado do Luiz Inácio, a que ponto chegou o homem que ainda quer voltar à Presidência da República. Que covardia diante dos fatos incontestáveis que foram colocados sobre a mesa que o acusam de crimes contra o patrimônio brasileiro, especialmente a Petrobras.

Luiz Inácio amarelou diante do Sérgio Moro e dos procuradores que o interrogaram. Chegou a negar Vaccari três vezes como fez Pedro diante de Cristo. Ao ser pressionado por um dos procuradores sobre os encontros que teve com o ex-tesoureiro do PT, irritou-se para dizer que “não sabia de nada”. Cometeu a leviandade de afirmar que também “não sabia de 

Estratégia

No final do depoimento, tentou reverter o clima desfavorável. A estratégia dos advogados era de que Luiz Inácio dispusesse de muito tempo para fazer as considerações finais. Para isso, eles abriram mão de falar, deixando para o acusado o tempo necessário para ele se explicar. Luiz Inácio ainda ensaiou um discurso político, criticou o Jornal Nacional, mostrou uma pesquisa do espaço negativo que tem ocupado na mídia, mas foi interceptado pelo juiz que julgou desnecessários seus argumentos fora do contexto do interrogatório.

Amarelou

E depois de mais de quatro horas de depoimento, o que seu viu, na verdade, foi o Luiz Inácio amarelar e insistir na repetição de que o triplex não é dele porque não existe escritura passada em cartório, mas não teve como justificar a papelada encontrada em sua casa, com rasuras, que mostrava indícios de transações do imóvel. Luiz Inácio tinha, na verdade, um contrato de gaveta tão comum nesses casos quando o comprador não quer ser reconhecido. 

Sepultura

Por fim, fica a pergunta: por que Luiz Inácio desrespeitou Dona Marisa, companheira de décadas? Ora, porque Luiz Inácio não livra a cara de ninguém quando tem que livrar a sua própria. E agora, mais do que nunca, está provado que Luiz Inácio está levando para o túmulo todos os amigos com quem conviveu nas últimas décadas. A diferença é que alguns estão sendo enterrados vivos.

Podridão

Nada como um arranca-rabo entre doutos da justiça para os brasileiros saberem o que há muito já se sabe em Brasília: a Justiça brasileira está podre por dentro e por fora. O bate-boca entre o procurador Janot e o ministro Gilmar Mendes deveria ser louvado com aplausos porque escancara os bastidores desses homens de preto até então intocáveis. O desentendimento, a roupa suja, mostra os interesses econômicos que há por trás do arroubo desses dois senhores. Janot insinua que a mulher de Mendes, advogada, recebe dinheiro de Eike Batista por trabalhar no escritório de advocacia de Sérgio Bermudes, que defende o milionário. Chacoalhado, Bermudes chama Janot de inescrupuloso, mentiroso, ignorante, leviano e sicofanta (caluniador). E como não bastasse, aponta o dedo na ferida: a filha de Janot, Letícia Ladeira Monteiro de Barros, defende a OAS, a Braskem e outras empreiteiras em acordos de leniência envolvidas na Lava Jato.

Bastidores

Janot quer impedir Gilmar de se envolver no processo de Eike por motivos óbvios, segundo ele, e pede seu afastamento do STF. Esse também é o pensamento de mais de 500 mil brasileiros em movimento pela rede social. Mas, e quanto a sua filha? Com a lama que jogou no ventilador, Sérgio Bermudes agora espera a reação de Janot. Seja qual for, o procurador sai menor na briga. A partir de agora virou alvo fácil para seus adversários. E não são poucos. Só de políticos, mais de 200. Se juntar empreiteiras e envolvidos na Lava Jato enche um caminhão e ainda sobra. Dentro do Ministério Público a notícia não caiu bem. Procuradores acham que revelações como essas minam o trabalho da Lava Jato e depõem contra os investigadores isentos que trabalham para limpar o país dos corruptos.

Tiroteio

A virulência com que Bermudes atacou Janot para defender a mulher do Gilmar é coisa rara no meio jurídico. Normalmente os advogados temem criticar juízes, procuradores, desembargadores e ministros do STF com receio de terem seus processos boicotados quando analisados nessas cortes. Não é o caso de Bermudes que se mostrou muito seguro quando apontou seus mísseis em direção a Janot, destratando-o com insultos e impropérios típicos de briga de rua. Esqueceu-se, por um tempo, que o procurador é que está à frente da maior investigação sobre corrupção da história do país e que em torno dele gravitam homens sérios e honrados que não estão envolvidos em maracutaias.

Insultos

Espera-se que Janot responda à altura os desaforos de Bermudes. Mas, para isso, terá que explicar antes por que a sua filha – não se discute aqui o talento da doutora – aceitou defender os interesses de empresas envolvidas na Lava Jato que tem o seu pai como principal acusador. Parece-me um contrassenso. Depois disso bem explicado, o procurador, pelos insultos que sofreu, não deveria apenas ficar na defensiva. Se quiser ainda levantar a moral, terá que provar que a mulher de Gilmar, a doutora Guiomar Mendes, realmente estaria na caixinha de Eike Batista, solto pelo seu marido. Se convencer, admite-se que pode até permanecer à frente da procuradoria. Caso contrário, infelizmente, ele teria que entregar o cargo para não deixar seus auxiliares a duvidarem da sua honradez.

A engrenagem

O certo é que os podres da Justiça começam a aparecer. A trombada entre procuradores, juízes e ministros do STF envolvidos no processo da Lava Jato já mostra frutos benéficos para a população. O primeiro deles é a revelação dos bastidores do STF. Como funciona a engrenagem. Sabe-se em Brasília – e isso não é novidade – que muitos dos ministros do STF não vivem apenas dos salários, por sinal, fartos. Alguns deles instalam escritórios e ali alojam filhos, sobrinhos e até amigos para defender causas, muitas delas dentro dos seus próprios tribunais. Não se sabia, portanto, pelo menos até agora, que procuradores também tinham adotado esse método, uma espécie de caixa dois para reforçar o orçamento da família. Ou quem sabe, uma sobra de campanha, como diriam alguns políticos maldosos. Há quem diga que, por causa dessa idiossincrasia, ser julgado no STF é a mesma coisa que chegar ao céu sem passar pelo purgatório.  


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