Acompanhe nas redes sociais:

13 de Novembro de 2018

Outras Edições

Edição nº 916 / 2017

12/04/2017 - 09:54:26

Jorge Oliveira

Depósito da corrupção

Jorge Oliveira

Brasília - Que bom, enfim chegamos ao depósito mais antigo da corrupção no Brasil: os Tribunais de Contas. A Polícia Federal prendeu meia dúzia de conselheiros do tribunal do Rio de Janeiro, um celeiro de ex-políticos desqualificados que chegaram ao órgão por apadrinhamento. Enquanto a Justiça tenta interromper a sangria no Rio, encarcerando os senhores engravatados, em Alagoas o escândalo é mais sério: quatro ex-presidentes do Tribunal de Contas roubaram 100 milhões de reais, segundo delação premiada de um gerente do Bradesco que também participou da bandalheira. É isso mesmo que você leu: 100 milhões de reais desviados dos cofres do tribunal!

O Rio de Janeiro amanheceu sorrindo na quarta-feira quando apareceram as primeiras notícias de que a PF conduzia no camburão o presidente do TC, Aloysio Neves, e os conselheiros Domingos Brazão, José Gomes Graciosa, Marco Antonio Alencar (filho do ex-governador Marcelo Alencar) e José Maurício Nolasco. Essa mesma alegria ainda não contaminou os alagoanos. A população espera que nas próximas horas a Justiça também mande engaiolar os ex-presidentes do TC-AL, Otávio Lessa (irmão do governador Ronaldo Lessa, deputado federal), Isnaldo Bulhões (irmão do ex-governador Geraldo Bulhões), Luiz Eustáquio Toledo (ex-deputado estadual), e Cícero Amélio, também ex-deputado. 

A descoberta do desvio milionário do tribunal de Alagoas só foi possível com o depoimento do bancário Sergio Timóteo Gomes de Barros, do Bradesco, que funcionava dentro do órgão. Ele confessou que “Otávio Lessa e outros conselheiros receberam das mãos dele parte dos recursos desviados daquele tribunal”, como consta do mandado judicial expedido pela Segunda Vara da Justiça Federal em Alagoas, a pedido do Ministério Público Federal. 

Desde 2006 que as investigações vão se arrastando. Naquele ano, o bancário confessou o crime que envolveu os presidentes e mais oito pessoas entre servidores do TC e bancários que formaram a quadrilha. De lá pra cá a coisa estava em banho-maria até aparecer um cara peitudo para reabrir as investigações.Trata-se do procurador-geral de Justiça Alfredo Gaspar de Mendonça Neto que decidiu enfrentar as adversidades e apurar o desvio milionário, dinheiro que falta para a saúde e para a educação em um dos estados mais pobres do país. 

Esta semana foi quebrado o sigilo bancário e fiscal dos envolvidos e o TC passou por uma varredura da Polícia Federal, por determinação da Justiça, para encontrar mais elementos que possam levar os presidentes para a cadeia. Mas o MP não vacilou. De cara já pediu que os envolvidos devolvam R$ 99,3 milhões aos cofres públicos pelos danos causados ao erário. Outra punição: a indisponibilidade de bens de todos eles.

Essa fantasia chamada Tribunal de Contas é uma excrecência, um ninho de ratos. É o rebotalho de políticos desqualificados que se alojam ali em cargos vitalícios para roubar o dinheiro do contribuinte. Seus conselheiros, com algumas exceções, é claro, vivem de achaque. Aprovam e desaprovam as contas das prefeituras e do governo de acordo com as suas conveniências ($). 

Há muito tempo os conselheiros do Rio de Janeiro estão na berlinda. Existem denúncias graves de desvio de dinheiro, de apadrinhamento e de conchavos para aprovação das contas do ex-governador Sergio Cabral, responsável pela indicação da maioria deles. São normalmente políticos decadentes ou gente submissa, da cozinha do Executivo, que ocupam os cargos de conselheiros para proteger governantes bandidos e corruptos.

Isso demonstra inequivocamente a decadência moral, a falência do sistema político brasileiro. O estado vive numa espécie de presídio, onde os presos dominaram a cadeia e ditam as suas próprias regras. Ou seja: é bandido dando ordem a bandido.  A decência, a ordem pública e as leis nesse país parecem que foram extintas por decreto

É como já dizia sabiamente o humorista e colunista de jornal na década de 1970 Stanislaw Ponte Preta: “Ou restaure-se a moralidade ou locupletemo-nos todos!” 

Impopularidade

A última pesquisa do Ibope jogou um balde de água fria no pessoal da comunicação do Michel Temer. E piscou a luz amarela sobre a performance do presidente daqui pra frente com a aprovação irrisória de apenas 10% do seu governo. Seus pronunciamentos e a forma insossa de se dirigir aos brasileiros precisam ser reavaliados por sua equipe se não quiser assistir a repetição das cenas de ruas que desalojaram a Dilma do poder quando tinha esses mesmos percentuais de popularidade. A inflação está controlada, mas a economia, dirigida por Henrique Meirelles, mostra fôlego apenas nos pronunciamentos oficiais do ministro da Fazenda pois no atacado não é isso que se vê: o desemprego já está alcançando o perigoso índice de 14 milhões de pessoas sem trabalho e o país não sai da inércia econômica. 

Imobilizado

Temer parece imobilizado dentro de um carro enguiçado de uma marcha só. Suas medidas de reformas são atacadas pelos próprios parceiros dentro do PMDB. Um deles, Renan Calheiros, líder do partido no Senado, já disse que a reforma da Previdência tem que ser revista e rediscutida dentro do parlamento, assim como o projeto da terceirização. Sinaliza a dificuldade que Temer terá para aprovar os projetos do governo e tentar botar o país no rumo do desenvolvimento. Com a popularidade lá embaixo, os políticos ficam cabreiros para apoiá-lo abertamente, principalmente os do Nordeste, que acompanham as pesquisas da liderança do Lula na região.

O faro

Ora, como se sabe, político tem o faro do voto. E se o Temer permanecer com essa assustadora rejeição, a debandada dos políticos nordestinos será geral. Ninguém, a pouco mais de um ano das eleições, quer acompanhar um presidente ignorado pelo povo, mesmo em inaugurações de obras. O Brasil viu o que aconteceu com a Dilma quando a sua popularidade despencou. O povo foi às ruas, os políticos desapareceram, a sua base no parlamento esfacelou-se e ela ficou isolada como se tivesse uma doença contagiosa.

Sem base

A Dilma caiu. Nem a base sindical do PT conseguiu amparar a ex-presidente indo às ruas com a bandeira do golpe. O povo, soberano, sabe o momento de erguer e derrubar um governante quando necessário, como já ocorreu também com Collor. A situação do Temer ainda é pior do que a da Dilma, que tinha a resguardá-la centrais de trabalhadores. O PMDB do presidente não tem influência nessa área e pega carona nos sindicatos anti-PT. 

Pesquisas

Ora, a situação de Temer não é nada confortável, como mostram as pesquisas. Além disso, ainda tem que juntar os cacos do seu partido no Congresso, se livrar da cassação da chapa (Dilma/Temer), reordenar a economia para gerar emprego e renda, manter a contragosto os empregos do Moreira Franco e Padilha, mesmo sabendo que eles são vigiados noite e dia pela turma da Lava Jato, e equilibrar as finanças do país destroçadas pela dupla Lula/Dilma. 

Descontrole

Há, na verdade, um descontrole administrativo no país que ainda não foi sanado. Quando assumiu o governo, Temer disse aos ventos que iria enxugar a máquina estatal, reduzindo ministérios e demitindo os cargos comissionados ocupados pelos sindicalistas ociosos. Quase um ano depois o que se vê é exatamente o contrário. Como informou Cláudio Humberto, no Diário do Poder, os reajustes salariais sancionados por Temer fizeram a despesa saltar de R$ 4,9 bilhões em maio de 2016 para os atuais R$ 5,6 bilhões mensais, mesmo demitindo 2 mil cargos comissionados. Uma titica para um país que está na bancarrota e ainda tem mais de 100 mil cargos de confiança e funções gratificadas. 

Problemas

Com essa carga de problemas, altíssima rejeição, uma comunicação medíocre e a timidez de sair pelo Brasil pregando um novo tempo, um novo governo, Temer não pode exigir que o povo o carregue nos braços como o salvador de um país despedaçado ética, moral e economicamente. E muitos menos esperar que os políticos que pensam em sobreviver às eleições 2018, principalmente do Norte/Nordeste, abracem as suas causas. 


Comentários

Curta no Facebook

Siga no Twitter

Jornal Extra nas redes sociais:
2i9multiagencia