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19 de Setembro de 2018

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Edição nº 915 / 2017

03/04/2017 - 15:32:56

Djalma Falcão

ELIAS FRAGOSO

Definitivamente vivemos tempos políticos anormalissímos com maciça presença na imprensa diária de noticias de falcatruas, roubos, desvios de dinheiro e de conduta de parte importante da nomenclatura brasileira (políticos e funcionários públicos graduados das mais diferentes esferas). São notícias que atraem a atenção do público em geral e que ajudam a vender e a posicionar os órgãos de imprensa junto aos seus públicos-alvo.

Mas não se entende quando esses mesmos órgãos cometem uma – no jargão jornalístico – “barriga” e deixam passar ou informam seus leitores/telespectadores de forma oblíqua ou minimalista a respeito de fatos relevantes de nossa sociedade.

Aconteceu semana passada. Faleceu em nossa cidade Djalma Falcão, um dos baluartes da defesa da democracia em nosso país durante a ditadura. Companheiro de luta de Ulisses Guimarães e membro da bancada dos “autênticos” do antigo MDB no Congresso Nacional, esteve sempre na linha de frente da oposição contra o regime militar (no interior do MDB havia os “moderados” liderados por Tancredo Neves que anos depois se beneficiaria da frente de luta aberta pelos “autênticos” e se tornaria presidente eleito,vindo a falecer antes de tomar posse). Orador brilhante, discurso inflamado e corajoso em tempos em que a maioria calava-se acovardada, Djalma escreveu seu nome nos anais da história desse País e – este sim - elevou o nome de Alagoas, honrando seu mandato. 

Um homem da estirpe dos grandes. Respeitado e enaltecido por líderes do porte de Ulisses Guimarães, Mário Covas e Tancredo Neves e respeitadíssimo no Congresso Nacional (tive oportunidade, por dever de ofício, de estar presente em vários desses momentos com ele naquela casa congressual e de assistir reiteradamente elogios presenciais à sua honradez e coragem cívica).

Primeiro prefeito eleito de Maceió após a ditadura, seu governo não teve escândalos ou roubalheiras. Sua postura pessoal, sua conhecida elegância e fineza no trato das pessoas pode a alguns ter passado impressão de tibieza, mas aqueles – como eu – que experimentaram vivenciar aqueles momentos sabem de sua grandeza interior, firmeza de caráter e inabalável vontade de servir ao nosso povo.

Em seu governo – poucos sabem – decisões fundamentais para o futuro da nossa cidade foram tomadas (boa parte sem a devida divulgação face a seu modo reservado e às vezes até introspectivo de governar, sem alardes e oba, oba, tão comuns em nossos dias atuais). 

Foi em seu governo que mais de 40% dos domicílios de Maceió (exatamente aqueles onde residem os muito pobres – e que absurdamente pagavam IPTU) foram diretamente beneficiados com a isenção desse imposto; foi com ele que nossa cidade e em especial nossos cartões postais (Pajuçara, Ponta Verde, Jatiúca...) foram preservados. Na época engendrava-se mudanças no Plano Diretor da cidade para liberar o gabarito na orla marítima (se passasse teríamos hoje uma Maceió bem diferente da sua beleza arquitetônica). Seríamos algo muito assemelhado ao Rio de Janeiro onde seus prédios constituem um verdadeiro paredão à frente do mar e impedem a circulação democrática do ar para o resto da cidade, enfeando aquele cartão postal do país.  Sem seu apoio decisivo não teríamos vencido essa verdadeira batalha em prol da beleza e do bem estar do cidadão de Maceió. Foi ainda em seu governo que após dezenas de anos de ocupação pelos camelôs, o centro de Maceió foi readequado para dar acesso livre às pessoas e ainda mais importante, totalmente urbanizado (incluindo aí o primeiro fechamento de várias ruas da região para veículos, ampliando o potencial de negócios para o empresariado local e facilitando a vida das pessoas que por ali transitavam). 

Aos desavisados este texto pode parecer uma ode de alguém próximo para elogiar a seu ex-chefe. Nada mais distante da realidade. Conheci pessoalmente Djalma logo após sua eleição de prefeito (estava afastado de Maceió há vários anos e naquele momento atuando como secretário-executivo de planejamento do Ministério da Agricultura em Brasília) quando me convidou para a Secretaria de Finanças (dois anos depois assumi a Secretaria de Planejamento urbano que à época tinha outro nome). Nossa relação foi sempre estritamente profissional, tanto que, após minha passagem pela Prefeitura nunca mais tivemos qualquer contato (voltei a meus afazeres profissionais fora de Alagoas). Mas a admiração, o respeito e especialmente, o reconhecimento que – acho – faltou para com esse nobre da política brasileira (e não apenas de nosso estado), que dela se afastou silenciosa e sutilmente ao ver a podridão se fazer presente, me fez escrever essas mal traçadas linhas.

Alagoas precisa urgente de Djalmas. Certamente!

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