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14 de Novembro de 2018

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Edição nº 915 / 2017

03/04/2017 - 15:24:32

Arma proibida faz Justiça condenar ex-deputado a ajudar os pobres

Nelito tinha arma de uso restrito em casa; prisão foi trocada por serviços comunitários

Odilon Rios Especial para o EXTRA
Nelito não soube explicar posse de arma de uso restrito

Filho do ex-governador Manoel Gomes de Barros, Nelito Gomes de Barros (DEM) foi condenado a prestar trabalhos comunitários na ação criminal movida no rastro das investigações da Operação Taturana. Isso porque ele tinha uma arma de uso restrito às forças armadas dentro de casa.

Ela foi encontrada em 6 de dezembro de 2007, quando os investigadores da Polícia Federal recolheram documentos que mostrassem como funcionava a quadrilha que desviou R$ 300 milhões, via folha de pagamento, da Assembleia Legislativa. Nelito era uma das peças-chave do esquema.

Nelito deveria cumprir pena na prisão, durante três anos, mas por não possuir maus antecedentes, a Justiça alagoana optou que ele prestasse serviços de caridade.

Dez anos após o estouro da operação que mostrou como deputados estaduais tratam, a quatro paredes, o dinheiro do contribuinte, Nelito e os demais taturanas ainda não foram condenados em definitivo, sem chance de recurso. A primeira ação de improbidade a passar pela segunda instância- o Tribunal de Justiça- foi em dezembro do ano passado, após meses de adiamento. Nelito foi condenado, mas recorre. Por isso, em seu currículo, não possui maus antecedentes.

A história da arma

Durante as buscas e apreensões da Taturana, os federais estiveram no apartamento de Nelito, no bairro da Ponta Verde. Foi encontrada uma pistola Smith Wesson, mais um carregador e 15 cartuchos, arma de uso restrito.

O ex-deputado alegou que a arma pertencia a um policial militar que fazia sua segurança e a do seu pai. O PM era identificado como Alvacir. Disse ainda nunca ter usado o objeto. Levantou a presunção da boa-fé dos possuidores ou proprietários de armas de fogo.

Só que a história contada pelo ex-deputado foi desmoronando, aos poucos. Varredura nos arquivos da PM alagoana constatou não existir um policial chamado Alvacir nem na ativa nem entre os aposentados.

Nelito disse ter errado o nome. O militar chamava-se Avacy José da Silva Rodrigues e anexou ao processo cópia da certidão de óbito do policial. Ele havia morrido em 12 de outubro de 1999, portanto, oito anos antes da operação da PF.

Só que ele não conseguiu explicar porque, mesmo após a morte do policial, manteve durante tanto tempo a arma na própria casa. Daí, não havia que se levantar a presunção de boa-fé dos possuidores ou proprietários de armas de fogo porque ela deveria ter sido entregue espontaneamente às autoridades policiais - e isso não aconteceu.

Na história da arma, Nelito afirmou que ele e o pai, Mano, viviam sob risco de morte. Foi no governo do pai de Nelito que investigações policiais desmontaram a gangue fardada, liderada pelo ex-tenente-coronel Manoel Francisco Cavalcante.

Os dois passaram a usar seguranças - em verdade, policiais militares deslocados da corporação para acompanhá-los todos os dias, durante 24 horas.

Para comprovar a versão, num velório, Nelito foi informado que Marcos Cavalcante, irmão do ex-tenente-coronel, estava próximo e cravaria uma faca peixeira no peito do ex-deputado e do pai dele. Em uma madeireira, novamente Nelito foi informado que Marcos Cavalcante estava próximo “e surgiu ali, naquela oportunidade, um certo alvoroço e, quando os policiais se colocaram em posição de defesa, o irmão do Cavalcante se retirou daquela proximidade”.

Por isso tinha autorização para usar outra arma (não a de uso restrito apreendida pelos federais) encontrada em cima do guarda-roupa do então parlamentar, no dia da operação da PF.

A explicação não convenceu, por isso Nelito foi condenado.

Amante paga                    pelo contribuinte

De acordo com o relatório final da Operação Taturana, Nelito foi um parlamentar que pendurava uma de suas amantes em cargos comissionados na Assembleia Legislativa; é chamado de “arrogante”, uma pessoa “grosseira nos modos”.

“Muito embora tenha ‘nascido no meio político’, visto que o pai foi governador do Estado de Alagoas, não demonstrou, durante as interceptações telefônicas, ideias ou projetos políticos. Foi também durante as interceptações telefônicas que surgiram indícios de que o investigado não possui limites éticos quando em jogo está a obtenção de seus fins, submetendo-se até a compra de ‘sigla de partido político’”.

No laudo financeiro individual de Nelito, aparece o empresário Décio Leandro Kotovic, como remetente de valores de R$ 22.250,00, em 30/11/2006. Kotovic- que foi nomeado há duas semanas para a Assembleia Legislativa- emprestava dinheiro a juros. Ou seja: era agiota.

Nelito, explicam as investigações, atuou junto à quadrilha que pilhou os cofres da Assembleia. Para o esquema funcionar não dependia apenas dele, mas também de um primo, outras pessoas que pudessem recepcionar, em suas contas bancárias, o dinheiro dos funcionários fantasmas da Assembleia.

“(...) observou-se que o deputado NELITO captava recursos com empresários do estado de Alagoas e os pagamentos dos ‘empréstimos’ eram efetuados com os recursos desviados da ALE/AL. Dessa forma, os recursos que eram incorporados ao patrimônio do parlamentar (ou mesmo os que ingressavam em sua conta ) não mantinham vinculação direta com os recursos desviados da ALE/AL. Essa modalidade de atuação era, portanto, uma das formas de distanciar valores incorporados ao patrimônio e a atividade criminosa desenvolvida na ALE/AL”, detalham as investigações da Taturana.

O esquema Nelito também incluía falsos empenhos financeiros, distribuídos em contas bancárias. Um deles foi de R$ 70 mil, divididos em três notas de empenho.

Dinheiro, também, era tomado emprestado, tudo pago com dinheiro público: a verba de gabinete: “(...) é necessário pontuar que, no ano de 2006, o investigado ‘NELITO’ figurou como tomador de três empréstimos (02 empréstimos pessoais e um CDC veículo) junto ao banco Bradesco e utilizou-se de R$ 191.029,11 da verba de gabinete para quitar as parcelas das referidas operações de crédito”.

O relatório chega a ironizar o então deputado. Diz que o “fenômeno do dinheiro que aporta” em sua conta “sem que se possa identificar a origem, ou mesmo o depositante, se dá, coincidentemente, nas mesmas instituições bancárias que amplamente promoveram a lavagem do dinheiro – por meio de ‘empréstimos de faz-de-conta’- desviado da verba de gabinete”.

E é justamente nos “esquemas” das “falsas” operações de crédito, junto aos bancos Rural e Bradesco, onde o deputado NELITO se notabilizou”.

O ex-deputado segue beneficiado pela Justiça, pelo menos na Taturana. Um dia deve ser julgado por seus crimes. Talvez nesta encarnação.

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