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22 de Setembro de 2018

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Edição nº 913 / 2017

20/03/2017 - 18:27:34

Jorge Oliveira

O poder que adoece e mata

Jorge Oliveira

Brasília - Até hoje tenho gravado na memória uma cena palaciana que ocorreu no governo de Fernando Henrique Cardoso, em uma solenidade no Palácio da Alvorada: Sérgio Mota, parceiro e homem forte do presidente, ainda se convalescendo de uma doença que o mataria dias depois, apareceu todo paramentado na solenidade com os tubos enfiados no nariz e o balão de oxigênio, que o mantinha vivo, no chão. Nunca vi na vida uma demonstração tão extrema de preservação do poder. Hoje, guardada as devidas proporções, Eliseu Padilha repete a cena. Proibido pelos médicos, ele antecipa a sua volta à chefia do Gabinete Civil para não perder o cargo, o poder e o controle sobre as pessoas e sobre o país.

Padilha confessa que foi aconselhado pelo seu psicólogo para antecipar a sua volta ao Palácio do Planalto. O médico que operou o ministro aconselhou-o a permanecer de licença até o dia 19, mas ele preferiu os conselhos mentais do psicólogo que o atende. Padilha volta a ocupar a cadeira de principal auxiliar de Temer abalado pelas informações de que teria mandado pelo doleiro Lúcio Funaro 1 milhão de reais para o escritório de José Yunes, um dos homens de confiança do presidente. Além disso, ainda pesa contra ele declarações de delatores de que teria recebido R$ 4 milhões, da doação de 10 da Odebrecht, para distribuir com os peemedebistas. 

O ministro chegou ao Palácio do Planalto como se nada tivesse acontecido na sua ausência. Questionado pelos repórteres sobre a sua conduta no lamaçal da Lava Jato, saiu-se com essa pérola do cinismo que caracteriza muito bem o Brasil de hoje: “Em time que está ganhando não se mexe. Só citação de delator não é motivo para nada”.  

Veja que coisa: apontado como receptador de dinheiro roubado da Odebrecht  pelo mais fiel amigo do presidente, Padilha subestima a informação e descredencia o autor das denúncias em vez de se defender para se manter na função. Ora, se ele se referiu a Yunes como delator, o homem que até então era o principal conselheiro do presidente, mostra ao Brasil que Temer não anda em boa companhia.

Ainda instigado pelos repórteres, Padilha tentava driblar as perguntas mais incômodas que certamente o enfraquece no cargo. “Não vou falar sobre o que não existe”. Está tudo baseado num delator”, insistiu o ministro. E foi mais longe ao mandar um recado velado ao presidente: “Eu e minha equipe é que temos a memória da Previdência”. E para mostrar o apego ao poder, que leva homens ao cadalfaso tragado pela máquina da vaidade, ele se saiu com essa: “Os médicos disseram que sou doido, mas eu precisava voltar.” 

Temer agora está com um tremendo abacaxi para descascar, mas prefere esperar pelo STF que pode ajudá-lo trasformando Padilha em réu. Se isso acontecer, o Moreira Franco corre na mesma esteira dos expurgados porque o próprio presidente já decidiu que auxiliar que vira réu não participa do seu governo, bem lembrado pelo próprio Padilha quando questionado pelos  jornalistas.

Ética

Mas a coisa entre Yunes e Padilha não pode ficar na base do disse não disse. A população espera que o dois amigos do presidente esclareçam de uma vez por todas esse imbróglio da grana que foi parar no escritório do doutor Yunes. Empurrar com a barriga não adianta, porque mais cedo ou mais tarde o Ministério Público pode acionar a Polícia Federal para descobrir o paradeiro desse dinheiro. Além disso, o governo tem o dever ético de apurar as acusações que pesam sobre os seus dois fiéis amigos.

Os homens

Afora as últimas gafes no Dia das Mulheres, até que o Temer é um cara bem intencionado. Esforça-se para fazer um governo diferenciado. Tenta arrumar o quebra-cabeça da economia destroçada pelo PT e recuperar a credibilidade do Brasil no exterior. Até aí tudo bem, ele faz o que qualquer presidente ajuizado faria no seu lugar. O diabo é que o Temer não consegue se livrar facilmente dos amigos que tem. Para onde vai, carrega esse fardo que custa muito caro ao seu governo. Agora, o amigo da vez que entra em cena é o “Sombra”. Trata-se do advogado José Yunes, amigo de longa data, que se derrete a cada declaração que faz para se livrar da acusação de ter transformado seu escritório em São Paulo em caixa dois do PMDB, como ele próprio confessou.

Acusações

Yunes chegou às manchetes dos jornais acusando Padilha, principal assessor do presidente, de intermediar a caixinha para a campanha do PMDB, quando Temer estava na chapa de vice da Dilma. Foi espontaneamente  ao Ministério Público para dizer que recebeu um envelope (!) com um milhão de reais do doleiro Funaro, preso na Lava Jato. Detonou Padilha. Mas os procuradores da República não se convenceram da defesa prévia de Yunes. Quando começaram a mexer no formigueiro descobriram que o amigo do presidente está enrolado, enroladíssimo com a história que tenta contar para se livrar da acusação de receptador do dinheiro da Odebrecht.

Desdém

Temer, porém, faz cara de paisagem para o que os brasileiros pensam de seus amigos malfeitores, muitos apeados do poder pelo passado obscuro. Já desceram do púlpito palaciano auxiliares da sua intimidade como ex-ministro do Turismo Henrique Alves, Geddel Vieira Lima, Romero Jucá e outros. Estão pendurados na brocha Eliseu Padilha e Moreira Franco, este protegido por uma imunidade arranjada de ministro. O presidente, aos poucos, vai se desfazendo dos seus amigos até então fieis e inseparáveis. Quando eles são flagrados nos escândalos, Temer simplesmente os frita, torrando-os em fogo ardente, sem mexer um músculo da cara.

Companheiros

Mas o brasileiro tem consciência de que esses senhores que o presidente hoje descarta foram seus companheiros de luta dentro do partido durante muito tempo, gozaram e gozam da sua intimidade. Portanto, são eles que conhecem a trajetória do presidente porque o ajudaram a chegar ao poder. Empurraram a Dilma de ladeira abaixo mesmo quando estavam ao lado dela como ministros para abrir o espaço para ele chegar ao topo do poder. Por isso, acredito, que não será tão simples descartar esses “Homens do Presidente” apenas com uma canetada. Assim, mais cedo ou mais tarde, os alijados do poder, vão apresentar a fatura. E que fatura!

Corrupção

Padilha, o mais leal dos seus auxiliares, tem dito a amigos que se sente excluído da turma presidencial desde que o Yunes o acusou de intermediar o dinheiro de corrupção da Odebrecht. Irrita-se quando sabe que antes de ser detonado, Yunes desfilou com Temer pelos corredores do Palácio do Planalto numa conspiração que assustou o próprio Padilha acostumado a conchavos políticos pelas madrugadas adentro em Brasília. Volta às funções de ministro-chefe enfraquecido. E se depois desistir do cargo, recolhe-se profundamente magoado com o amigo presidente.

Fogo

Temer, pelo que parece, está brincando com fogo. Se não melhorar a economia para gerar mais emprego e renda para os brasileiros (13 milhões de desempregados), corre o risco de ver uma fagulha espalhar fogo no seu celeiro de palhas secas com as denúncias da Lava Jato. O governo, de agora em diante, vai depender do desempenho do seu ministro da Fazenda Henrique Meirelles, um dos poucos que não saíram da cozinha do então vice-presidente para a Esplanada dos Ministérios.

Conspiração

O presidente precisa ficar de olho nos ministros “amigos” que saem do governo pelo poder que eles têm de conspirar. Os que ainda estão nos cargos são mais fáceis de tourear. Estão ocupados em suas tarefas diárias. 



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