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26 de Setembro de 2018

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Edição nº 912 / 2017

15/03/2017 - 10:23:02

Temer é refém de Cunha

Jorge Oliveira

Brasília - Infelizmente, para Temer, aconteceu o que já era esperado: virou refém de Eduardo Cunha. Faz de tudo para se livrar desse personagem indigesto que sabe os seus segredos desde quando se juntaram no PMDB. Cunha o manobra estrategicamente para deixar a cadeia usando a sua influência de presidente. O ex-deputado quer, na verdade, primeiro, demitir os principais auxiliares dele com os quais conviveu décadas em reuniões íntimas e jantares abertos no Piantella, o restaurante dos conspiradores em Brasília. Nessa dança de cadeira que promove, Cunha já defenestrou Geddel Vieira Lima e está a caminho de derrubar Eliseu Padilha. Mas, na verdade, ele tem sede mesmo em defenestrar Moreira Franco, homem de confiança de Temer, citado várias vezes na Lava Jato, sogro do presidente da Câmara Rodrigo Maia, que disputa sua base eleitoral no Rio de Janeiro.

O maquiavelismo de Eduardo Cunha, agora mais temperado na prisão, não tem limites. E os recados que chegam a Temer são de arrepiar. Ao arrolar o presidente como sua testemunha de defesa, o ex-deputado quer encurralar o amigo e ex-confidente. Quando as coisas pareciam que iam se aprumar dentro no Planalto, eis que um míssil atravessa as janelas envidraçadas do Palácio e espalha estilhaços para todos os cantos. Esse petardo, o mais recente, feriu de morte Eliseu Padilha, principal auxiliar de Temer, acusado de mandar para o escritório de José Yunes 1 milhão de reais dentro de um “envelope”.

A trama urdida por Cunha, mais uma vez, estremece Temer. Para quem não lembra, Cunha avocou o presidente como sua testemunha de defesa. E entre as perguntas que enviou para o juiz Sérgio Moro, que vai arguir Temer, esta é a mais delicada: Cunha quer saber se Yunes recebeu doação de campanha do PMDB ou do próprio presidente, na época vice de Dilma. Pronto, o recado chegou ao Yunes que logo se apressou em procurar o Ministério Público para esclarecer o mistério. Antes, porém, o advogado pediu demissão do cargo de consultor da presidência da República para não contaminar o próprio Temer.

Mas a história que Yunes contou aos procuradores não é muito convincente. 1 – Jamais alguém acomodaria 1 milhão de reais em um envelope; 2 – advogado experiente, Yunes não teve a curiosidade de saber quem foi buscar o dinheiro em seu escritório; 3-  Lúcio Funaro, o doleiro do PMDB e de Cunha, exige acareação porque nega ter ido levar o pacote no escritório de Yunes; e 4 – Por que, antes de abrir o jogo, Yunes teve uma audiência com Temer? Certamente para engendrar uma versão convincente aos dois. 

Pois é, o recado de Cunha chegou direitinho aos ouvidos de Temer. Esperto, o presidente logo saiu com uma nota oficial dizendo que todo dinheiro que chegou ao PMDB foi por vias legais. Não cola. Todo o partido diz a mesma coisa quando flagrado com a mão na botija, como se distribuísse um release para a imprensa. Eliseu Padilha, que durante muito tempo foi chamado maldosamente no meio político de “Eliseu Quadrilha”, coisa de seus adversários maledicentes, está de licença. Certamente, para não contaminar mais ainda o presidente, deve entregar o cargo. Cunha, com isso, apaga mais um nome da coronha da sua espingarda que vai enterrando os ex-amigos peemedebistas a quem culpa pela sua desgraça.

Recado

O alvo principal, porém, é o próprio Temer que também manda recado de bombeiro para a cela de Cunha. O último deles mostra que o presidente não vai desprezar o amigo lá no presídio de Curitiba. Nomeou para ministro da Justiça o deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR) que tem, entre outras atribuições, comandar a Polícia Federal, que apura os crimes da Lava Jato. Osmar, quando esteve à frente da Comissão de Justiça da Câmara dos Deputados não só protelou o processo de cassação de Cunha como ainda fez parte do grupo de parlamentares que defendia anistia para o ex-deputado. 

Cereja

Antes, Temer fez outro agrado a Cunha. Indicou para o STF, Alexandre de Moraes, que vai herdar os processos da Lava Jato deixado por Teori Zavascki. Em tempo: o novo ministro da Corte foi advogado de defesa de Eduardo Cunha. É a cereja que faltava no bolo de Cunha.

Suruba 

Eu não sei, leitor, se você tem a mesma impressão, mas me parece que o Brasil entortou de vez. Os três poderes – tripé da sustentação de uma democracia – o Executivo, o Parlamento e o Judiciário se dissolveram na imoralidade e na bagunça geral. A sociedade, atônita, não espera mais nada dos seus representantes no Congresso Nacional e menos ainda do presidente da república e do judiciário, amordaçado por apadrinhamentos e interesses de grupos. A última instância, o STF, o que seria o guardião da Constituição, banalizou-se de tal forma que levou para o brejo a última esperança dos brasileiros enxergarem um país ético no futuro.

Privilégios

A indignação é fruto dos acontecimentos que ocorrem diariamente no país. Vejamos alguns exemplos: o Moreira Franco, citado inúmeras vezes na Lava Jato, passa a ter fórum privilegiado com o aval do STF. Portanto, está fora do alcance do juiz Sérgio Moro. O ex-presidente Sarney só pode responder por seus crimes ao Supremo Tribunal Federal, decisão dos ministros da Segunda Turma, mesmo não gozando de fórum privilegiado. 

Lava Jato

O senador Romero Jucá, envolvido na Lava Jato, antecipou-se ao que pensam os brasileiros e, sem arrodeios, foi direto na ferida: “É tudo uma suruba”. O Lula transformou a morte da mulher em espetáculo de marketing. E a Dilma, depois do chute no traseiro, decide que será candidata a senadora ou deputada.

Orgias

Para desenvolver o resto desse artigo, vou me ater apenas ao ambiente de orgias do nobre senador. Vejamos: o Cabral, que chegou a liderar a lista dos presidenciáveis, vive hoje atrás das grades no presídio de Bangu. Eike Batista, até então a sétimo homem mais rico do mundo, divide uma cela minúscula com estupradores e assassinos no Rio. Eduardo Cunha, o ex-deputado e presidente da Câmara, passa os dias dentro da cadeia mandando recados desaforados para o Temer.

Amigão

Mais: no STJ, o ministro Marcelo Navarro Ribeiro Dantas, nomeado pela Dilma para soltar Marcelo Odebrecht continua despachando normalmente, mesmo depois da Polícia Federal comprovar, e o Delcídio do Amaral confirmar, que ele seria o benfeitor de Marcelo e de outros comparsas dentro do tribunal. O Senado aprova o nome de Alexandre Moraes para substituir Teori Zavascki, um auxiliar de Temer, que defendia a tese de que ministros do STF não poderiam ser indicados no exercício de cargo no executivo. José Yunes, amigo do peito de Temer, detona Eliseu Padilha, a quem acusa de receber 1 milhão de suborno via seu escritório em São Paulo.

Mais 1

Mais: o Lula declara que só o PT pode salvar o país. Numa defesa veemente do seu partido, o ex-presidente diz que quer voltar a presidência, pois considera que tem os instrumentos para acabar com a corrupção e a fórmula para o país voltar a crescer. 

Mais 2

Mais: Os procuradores da Lava Jato começam a desconfiar do Janot. Acham que ele está segurando os processos além da conta. Aliás, nos últimos dias, o Procurador-Geral da República só pediu arquivamento de indiciados em processos por corrupção, como é o caso do senador petista Lindbergh Farias, o mais notório da lista.

Mais 3

Mais: Ministros do STF como Marcos Aurélio e Gilmar Mendes vão aos microfones para denunciar que as prisões preventivas estão se alongando. Ou seja: enviam recados para os procuradores e para o juiz Sérgio Moro de que chegou a hora de acabar com a brincadeira de prender políticos e empresários por muito tempo.

Mais 4

Mais: Pezão, que ajudou a falir o Rio de Janeiro, se declara inocente no escândalo da corrupção. Não quer nem ouvir falar no nome de Cabral para não se contaminar; Michel Temer nega de pés juntos que tenha feito parte da chapa da Dilma quando tenta separar a captação de recursos da eleição dos dois; Eliseu Padilha responde a processos, mas permanece ao lado do presidente como seu principal auxiliar; o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles continua a espalhar que a inflação caiu, mas não é o que se constata nas prateleiras dos supermercados. E para desmentir os dados oficiais de crescimento, o país carrega a cruz dos quase 13 milhões de desempregados.

O português

Este aperitivo que você leu aí em cima só mostra que o senador Romero Jucá está certo quando diz que vivemos uma grande suruba. Não a do português que se espantou ao participar de uma no Brasil: “Não estás a perceber?  Acende a luz porque até agora só eu levei...”  

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