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21 de Setembro de 2018

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Edição nº 911 / 2017

23/02/2017 - 19:06:53

Dependentes químicos viram moeda de troca em Alagoas

Arcebispo denuncia corte de verbas de comunidades não alinhadas politicamente com o DEPUTADO Givaldo Carimbão

José Fernando Martins [email protected]
Arcebispo de Maceió, Dom Antônio Muniz: ‘Obra social foi usada para fins eleitoreiros’

O tratamento para a recuperação de dependentes químicos virou moeda de troca e votos no estado de Alagoas. Essa foi a denúncia relatada na última semana em nota de repúdio pelo arcebispo de Maceió, Dom Antônio Muniz, que pegou muita gente de surpresa. No entanto, conforme o líder religioso, em entrevista concedida ao EXTRA ALAGOAS, o uso indevido da Rede Cristã de Acolhimento para fins eleitoreiros pelo deputado federal Givaldo Carimbão (PHS) era algo que já o incomodava há algum tempo. 

“Quando cheguei aqui há dez anos comecei a lutar para que acontecesse a criação da Fazenda da Esperança no final de 2007.  A fazenda é reconhecida no Brasil e no mundo como um espaço alternativo de se acolher o dependente químico”, contou Dom Antônio Muniz. A entidade, que recebe verba do Poder Público, dinheiro que sai do bolso do cidadão a partir dos impostos, conta com duas fazendas em Alagoas situadas em Marechal Deodoro e Poço das Trincheiras com a capacidade para 55 internos. 

“Em um determinado tempo, nasceu no Governo Téo Vilela a ideia de se fazer uma secretaria (antiga Sepaz) mas fui contra a maneira de criá-la devido a sua formatação. Sugeri a criação de uma secretaria transversal, que estaria presente nas secretarias de Saúde, Segurança Pública, do Trabalho e Educação: uma força-tarefa. Isso evitaria que aparecesse um deputado padrinho de secretaria como acontece aqui para se usar como quiser. O governo ficou aperreado com a ideia porque fugia dos padrões. Isso porque o governo só pode funcionar se tiver voto”, contou. 

Ainda de acordo com a sugestão do religioso, o dinheiro usado para todo o aparato de uma secretaria específica seria melhor utilizado se fosse distribuído no orçamento das outras pastas. “Disse que a questão da dependência química não poderia entrar em política partidária porque senão se estragaria tudo. Tem que ser uma política pública de Estado. Porque o financiamento de tudo isso é feito pelo dinheiro do cidadão. O dinheiro não deve ter a cor do deputado fulano de tal. O dinheiro deve ter a cor de um projeto social. Nosso imposto não pode beneficiar um deputado”.  

O resultado da mistura projeto social com cunho político fez com que algumas comunidades que trabalham pela recuperação de dependentes químicos ficassem comprometidas. “Começaram a cortar verbas de comunidades que não são alinhadas politicamente. Aumentar vagas em comunidades que não têm só porque o dirigente é cabo eleitoral”, denunciou. Atualmente, a Rede Cristã conta com cerca de 30 comunidades terapêuticas no estado de Alagoas. 

Em nota divulgada na semana passada, o arcebispo repudiou a Secretaria de Estado de Prevenção à Violência (SEPREV), antiga Sepaz, que serve como sustentáculo à engrenagem eleitoreira, que chega a participar de encontros meramente político-partidários nas comunidades. Assim, “a contrapartida estadual que deveria ser obrigação, passou a ser tratada como uma esmola negociável entre aqueles que veem o dependente não como alguém que precisa de ajuda, mas simplesmente como um mero voto a ser conquistado e comprado”.

Os conflitos entre secretaria e partido teriam começado a ficar mais nítidos nas eleições de 2014. “Carimbão e o filho Carimbinho queriam ser eleitos e Jardel Aderico (ex-secretário da Seprev) que também tinha pretensão política. Aí a questão política colidiu com tudo”, enfatizou. Naquele ano, Carimbão foi eleito deputado federal e o filho Carimbão Júnior deputado estadual. Já no dia 23 de dezembro do ano passado, o então secretário da Seprev Jardel Aderico emitiu carta à imprensa comunicando seu afastamento da pasta relatando ‘sentimento de dever cumprido’. Ele teria sido afastado da pasta por interferência do deputado federal. 

No ano passado, o arcebispo convocou uma reunião com todas as comunidades terapêuticas filiadas e não filiadas à Rede Cristã. “Então fiz um discurso inicial e bati duro na questão. Falei da perversidade de qualquer comunidade que se deixa entrar na dinâmica política. Disse que não teriam o direito de serem chamadas de comunidade. Imediatamente houve reação e pesada. Carimbão fracionou e criou uma rede própria e a minha nota foi atribuída por causa de uma reunião no Sertão. Me mandaram uma fotografia e vi que estava a secretária da Seprev, Carimbão e o filho e outros dirigentes das outras comunidades em uma igreja de Santana do Ipanema. Foi aí que não aguentei mais”. 

Carimbão diz que vai debater assunto com Dom Muniz

Atualmente, a Seprev é comandada por Esvalda Bittencourt. Dom Antônio Muniz informou à reportagem que já conversou com o governador Renan Filho pontuando os impasses encontrados.  O EXTRA ALAGOAS entrou em contato com o deputado Givaldo Carimbão que disse admirar o trabalho do arcebispo e anunciou que deverá encontrá-lo para conversar sobre os problemas citados. 

Em nota encaminhada à imprensa, a Secretaria de Estado de Prevenção à Violência (Seprev) informou que a pasta desconhece a realização de qualquer evento político-partidário com a participação das comunidades acolhedoras. Desconhece ainda o evento realizado no município de Santana do Ipanema, conforme divulgado pela nota emitida pela Arquidiocese de Maceió.

A instituição aproveitou para informar que seus representantes participaram de um único evento, na segunda-feira (13), envolvendo algumas comunidades acolhedoras. O encontro, organizado pela Associação Alagoana das Comunidades Acolhedoras (AACA), teve por objetivo discutir a implantação de um cronograma de capacitações técnicas para conselheiros acolhedores que atuam nas comunidades.

A Seprev lembrou ainda que a participação de seus representantes neste referido evento, realizado na Comunidade Divino Pai Eterno, no município de Feira Grande, se deu a partir de um convite feito pela própria AACA, formada por 22 comunidades acolhedoras espalhadas por todo o estado e que se fizeram presentes no encontro.

A Seprev voltou a enfatizar que é a favor de uma abordagem totalmente técnica quanto ao tratamento de dependentes químicos e que defende a isenção política de todas as comunidades e instituições acolhedoras de dependentes químicos, que devem estar totalmente focadas no tratamento e recuperação das pessoas com dependência química.

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