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17 de Novembro de 2018

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Edição nº 909 / 2017

09/02/2017 - 22:21:19

Maceió à beira do colapso

Alagoas não tem previsão de chuvas suficientes para encher os mananciais e racionamento de água na capital é iminente

Valdete Calheiros Especial para o EXTRA

Maceió está prestes a sofrer um colapso no fornecimento de água à população caso não chova de forma abundante nos próximos dois meses. A informação foi confirmada pela Companhia de Saneamento de Alagoas (Casal) que admitiu estar operando no limite do volume de água para que os usuários não sofram com rodízio ou racionamento do líquido.


No entanto, se a crise hídrica for agravada devido à falta de chuva, técnicos da estatal já afirmam que o racionamento ou mesmo o rodízio não são possibilidades remotas, mesmo que a médio prazo.
E as previsões meteorológicas apontam para o pior. Segundo o meteorologista Luiz Carlos Molion, professor e pesquisador da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), 2017 ainda deve ser um ano com chuvas abaixo da média e com um inverno menos chuvoso.


“Portanto, a probabilidade que Maceió venha a sofrer racionamento é grande, se é que ele já não está em vigor em alguns bairros da periferia, ainda que disfarçadamente”, considerou o pesquisador respeitado internacionalmente.


Os indicativos de que os reservatórios de Maceió voltarão a operar com mais folga só chegarão mesmo em 2018. É que as pesquisas de Molion indicam que o próximo ano será um ano chuvoso. Segundo ele, o La Niña que está se instalando deve se intensificar a partir do 2° semestre. No entanto, o período para recuperação dos mananciais não será longo.


Isso porque 2019 também será um ano bom, porém não tão chuvoso como 2018. “E a tendência dos próximos 10 anos (2020-2030) é de chuvas entre 10% a 20% abaixo da média histórica que dificilmente recuperará os recursos hídricos do estado”, prevê Molion.


Pelo visto, para os crédulos, Maceió vai precisar, e muito, de uma força extra de São Pedro.
A realidade da capital alagoana não é diferente das demais capitais do Nordeste e do restante do país que sofre com a seca histórica. A maior dos últimos 100 anos, conforme os meteorologistas.


De acordo com o gerente de desenvolvimento operacional da Casal, Antônio Fernando Santana Nascimento, pode-se dizer que Maceió está ainda em uma situação confortável, se comparada a outras cidades brasileiras. O problema é saber até quando. O alerta vermelho já está ligado.

MEIRIM

O governo do Estado tenta correr com o Sistema Meirim/Pratagy. É nele que estão as apostas para resolver o problema do abastecimento na capital. O Meirim/Pratagyé uma obra com captação superficial do Rio Meirim cuja água vai ser aduzida para o sistema Pratagy, no Benedito Bentes. O investimento é de R$ 120 milhões.

Paralelamente, a Casal está com duas grandes obras de esgotamento sanitário, uma no bairro do Farol e outra no Benedito Bentes. Resta saber quem chegará primeiro, as chuvas, as obras ou o racionamento de água. 

Segundo a Casal, Maceió é abastecida por mananciais de superfície e subterrâneos. Os subterrâneos, cuja água é extraída através de poços tubulares profundos – são quase 200 operados pela Casal, somando-se os inativos que a Casal está colocando em operação novamente –, estão ainda produzindo regularmente, com algumas exceções.

Antônio Fernando afirmou que a Casal está reativando alguns poços que estavam desativados para garantir que o fornecimento de água aconteça o mais próximo da normalidade possível. Há algumas décadas, vários poços da Casal foram tamponados e desativados porque estavam apresentando água com alto teor de sal.

As primeiras perfurações de poços artesianos em Maceió datam da década de 1970, quando a capital sofreu uma das primeiras crises, com grandes efeitos, de abastecimento de água quando o manancial do Riacho do Silva, em Bebedouro, enfrentou um colapso.

Quanto aos mananciais de superfície, estão perdendo nível e vazão em decorrência da escassez de chuva. As chuvas caídas ultimamente não estão fazendo a recarga desses mananciais no volume normal.
“Há dez, quinze anos, a vazão do Catolé e Aviação era de 1.200 m3/hora. Atualmente, não passa e 700 ou 800 m3/hora. Não tem milagre. Falta chuva. Ela é a solução. Diante da falta de chuva não há equipamentos, investimentos ou pessoal trabalhando que resolva. Dependemos essencialmente da ajuda da natureza”, explicou.

A afirmação preocupa visto que, segundo cálculos da própria Casal, na zona urbana uma pessoa gasta entre 150 e 200 litros de água e na zona rural essa quantidade cai para 100 ou 110 litros de água/dia.
Situação do Catolé é crítica
A APA do Catolé e Fernão Velho, o mais antigo manancial de Maceió, possui uma área de aproximadamente 6 mil hectares (6 mil campos de futebol) e abrange os municípios de Maceió, Satuba, Santa Luzia do Norte e Coqueiro Seco.

A Unidade de Conservação foi criada pela Lei n°. 5.347/1992, com o objetivo de preservar as características dos ambientes naturais e ordenar a ocupação e o uso do solo.

A área tem considerável importância abrangendo também remanescentes da Mata Atlântica e é detentora de um rico manancial que abastece 30% da cidade de Maceió, Vila ABC e Fernão Velho.
O bioma predominante é o da Mata Atlântica, de ecossistemas variando da floresta ombrófila ao manguezal.

O principal rio existente dentro da APA do Catolé é o Rio Mundaú, o qual deságua na lagoa de mesmo nome. Outro rio que ocorre é o Satuba além de alguns riachos, tais como o Riacho Carrapatinho. Destaca-se o Açude do Catolé, o qual faz parte do Sistema de Abastecimento de água de Maceió.

A APA sofre com o desmatamento, as ocupações irregulares, a poluição hídrica e as queimadas.
O gerente de desenvolvimento operacional da Casal, lembra ainda que estamos no verão, com um elevado fluxo de turistas e apela para que a população não faça um mau uso da água. “Não podemos desperdiçar. Temos que lançar mão do consumo consciente. Devemos fazer tudo para adiarmos a possibilidade de uma redução no fornecimento de água”, ponderou.

Além dos poços da Casal, a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Semarh) tem registrados, em Maceió,pouco mais de 2.100 poços. Esse número pode ser ainda maior por causa das perfurações clandestinas, não identificadas pelos órgãos de fiscalização.

Perfurar poços para fazer a água chegar às torneiras não é uma solução benéfica ao meio ambiente. Pelo contrário, coloca-se em risco o manancial subterrâneo. O manancial é uma reserva e reserva não significa que pode ser utilizada como via de regra.

O fato é que a Companhia de Saneamento não conseguiu alcançar, com investimentos em sistema de abastecimento, o crescimento acelerado da população. Em termos de esgotamento sanitário, o problema é ainda mais grave ainda. A Casal só atende a cerca de 35% da população de Maceió.

Em algumas cidades alagoanas, as torneiras vazias não são exclusivamente consequências da falta de chuva, o sistema de abastecimento defasado e falta de investimento levam também sua parcela de culpa.
A Casal admite problemas de abastecimento, rodízio ou racionamento de água, em menor ou maior grau nos municípios de Anadia, Arapiraca, Cacimbinhas, Canapi, Craíbas, Delmiro Gouveia, Estrela de Alagoas, Igaci, Inhapi, Jaramataia, Maravilha, Maribondo, Mata Grande, Minador do Negrão, Olho d’Água do Casado, Ouro Branco, Palmeira dos Índios, Pariconha, Pindoba, Piranhas, Quebrangulo e Traipu.

Palmeira dos Índios é uma das cidades que mais chama a atenção. Seus reservatórios estão com apenas 50% da capacidade máxima para abastecimento.

CRISE HÍDRICA

A Barragem Catolé, situada na fronteira entre Satuba e Maceió, e que integra o sistema Catolé-Cardoso, está com sua vazão abaixo do normal; o sistema opera com dificuldade. É responsável por 17% do abastecimento, em especial da parte baixa da cidade.
O Sistema Aviação (depende da água excedente da barragem Catolé) está operando com dificuldade, devido à queda no volume de água que recebe do Catolé. Responsável pela parte alta da capital.
O Sistema Pratagy está operando com dificuldade (o volume de água diminuiu porque o Rio Pratagy, onde é feita a captação, perdeu vazão). Responsável por 40% do abastecimento.
E, por fim, os poços profundos, responsável por 42% do líquido que chega às torneiras. De acordo com Antônio Fernando, esses números têm uma leve variação para mais ou para menos, chegando assim aos 100% da capacidade. 
O fantasma do desabastecimento de água em Maceió não é novidade. O assunto é recorrente e ronda a capital há décadas. Recentemente, em 2014, houve a redução em 50% da já pequena capacidade de processamento e distribuição de água da Estação de Tratamento do Pratagy, no Benedito Bentes. Naquela época, 40% da população de Maceió aprendeu a tirar água do ar que saia das torneias para realizar as atividades diárias corriqueiras.

Nordeste vive pior seca desde 1910

Dos 533 reservatórios da região Nordeste monitorados pela Agência Nacional de Águas (ANA), 142 estão secos.

Segundo a ANA, não se via seca tão severa para um período consecutivo desde 1910, quando dados sobre as chuvas passaram a ser coletados. O Ceará é o estado em pior situação.
Em Alagoas, estiagem de seis anos provocou a pior seca dos últimos 50 anos. No Sertão do Estado, agricultores fazem longos trajetos em busca de água.

A situação é tão grave que a União reconheceu situação de emergência em 42 municípios de AL: Água Branca, Arapiraca, Batalha, Belo Monte, Cacimbinhas, Canapi, Carneiros, Coité do Nóia, Craíbas, Delmiro Gouveia, Dois Riachos, Estrela de Alagoas, Girau do Ponciano, Igaci, Igreja Nova, Inhapi, Jacaré dos Homens, Jaramataia, Lagoa da Canoa, Major Isidoro, Maravilha, Mata Grande, Minador do Negrão, Monteirópolis, Olho d’Água das Flores, Olho d’Água do Casado, Olivença, Ouro Branco, Palestina, Palmeira dos Índios, Pão de Açúcar, Pariconha, Poço das Trincheiras, Piranhas, Quebrangulo, Santana do Ipanema, São Brás, São José da Tapera, Senador Rui Palmeira, Traipu, Mar Vermelho e Taquarana.
A decretação de situação de emergência deve facilitar as ações para amenizar os prejuízos causados pela longa estiagem. Com o documento, o município poderá ter acesso às ações de socorro, assistência e restabelecimento de serviços essenciais, entre elas a Operação Carro-Pipa, que auxilia o governo municipal no fornecimento de água tratada para a população.

O reconhecimento também possibilita aos municípios que sofrem com a falta das chuvas o direito a outros benefícios, como a renegociação de dívidas no setor de agricultura, a aquisição de cestas básicas e o apoio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para a retomada da atividade econômica.

Há cerca de dois meses, o presidente da Casal, Clécio Falcão, informou que dos 77 municípios alagoanos atendidos pela Casal, 22 estão em crise hídrica e que Maceió poderá sofrer com rodízio d’água nos próximos meses.

Falta de chuva é agravada pelo El Niño

Luiz Carlos Molion explicou que desde 2012 as chuvas têm, em geral, ficado abaixo do normal. “Portanto, são cinco anos consecutivos e a deficiência acumulada de chuva agrava a situação de disponibilidade de água para humanos e animais. A ocorrência do evento El Niño severo  em 2015/16 intensificou a estiagem existente, uma vez que, sabidamente, os eventos El Niño tendem a provocar secas no Nordeste e na Amazônia”. 


Ele lembrou que secas mais severas do que essa já ocorreram no passado. A pior seca foi em 1926 e foi seguida por um série de anos, até 1938, com chuvas abaixo da média. Tivemos a seca de 1979 e, mais recentemente, a seca de 1991 a 1994, sendo 1993 o ano mais severo.


Molion, que é PhD em Meteorologia e pós-doutor em Hidrologia de Florestas e também representante dos países da América do Sul na Comissão de Climatologia da Organização Meteorológica Mundial (OMM), afirmou que secas no passadoporém não tinham impacto social e econômico grande, pois a população era pequena e a demanda por água era menor em comparação à atual. “Por isso, uma seca moderada, como a de agora, tem impactos muito maiores”.


Autor de mais de 30 artigos publicados em revistas e livros estrangeiros e mais de 80 artigos em revistas nacionais e congressos, o meteorologista detalhou que a seca só deixou de fora a região Sul do Brasil.
“A situação de Alagoas é um pouco mais confortável que a dos outros estados, mas está começando a ficar crítica. Por exemplo, a Carangueja, em Palmeira dos Índios, secou”, alertou o pesquisador.
Além da população, o meio ambiente sofre com a falta de água. Ao perfurarem poços, de forma desordenada, para ter água em casa, os aquíferos, nossa única reserva estratégica de água podem sofrer degradação.


Mas nem tudo está perdido. O pesquisador da Ufal enumerou algumas soluções para que os maceioenses e os alagoanos em geral não fiquem com as torneiras a conta-gotas. “Temos 260 km de Rio São Francisco e qualquer adutora perpendicular ao rio atravessa o estado e chega às fronteiras de Pernambuco com menos de 100km de extensão. Em qualquer outro país no mundo, seria um absurdo deixar 700 m3 por segundo serem despejados no mar pelo Rio São Francisco, como está acontecendo agora , numa situação em que a vazão do rio está baixa”.


Ainda segundo Molion, outra possível solução é trazer água de outros rios para alimentar o São Francisco, como o Rio Tocantins que, no período de suas cheias (agora nos meses de fevereiro e março), já se comunica naturalmente com o Velho Chico pela Lagoa do Varedão.


“Não há dúvida que está faltando chuva no estado, mas dizer que falta água é uma afirmação absolutamente ridícula!  Na realidade, o que falta no estado é uma gestão séria e equilibrada dos recursos hídricos existentes. Temos 105 km de Canal do Sertão com água, sem gestão. Parece mentira, mas ainda não foi instituído um comitê ou comissão gestora das águas do canal”, alertou o pesquisador respeitado no mundo.

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