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21 de Novembro de 2018

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Edição nº 908 / 2017

07/02/2017 - 10:27:03

Um país límpido

Cláudio Vieira

Assistíamos com interesse, Êpa e eu, a sessão do Senado Federal, nesta quarta-feira, 1º de fevereiro. Tratava-se da reunião preparatória da 3ª Sessão Legislativa, oportunidade em que se elegia o novo presidente da Casa, bem como a Mesa Diretora. Encerrada a votação, ainda antes da proclamação do resultado, o senador Renan Calheiros, despedindo-se do seu mandato, apropriou-se da palavra em longo e mais ou menos eloquente discurso. Aí pelo meio da peroração, o meu amigo, que assistia atento ao teatro bufa, e mudo ouvia as palavras presidenciais, não mais aguentou:
- Êpa! Acordamos no país errado! Talvez até de outro planeta.


Ao falar, movia o olhar lateralmente, também para cima e para baixo, em nada se fixando como se estivesse a procurar algo, ou a fazer reconhecimento de lugar desconhecido onde se encontrava. A sua inquietude impressionava. Indaguei-lhe sobre o que estava a dizer, recebendo dele olhar iracundo, certamente em reprovação à minha ignorância ou insensibilidade. Continuou ele o discurso:
- Ora, rapaz, ao ouvir o Renan Calheiros estou certíssimo de que desembarcamos em um país límpido, tão diferente do nosso Brasil... O país ideal que talvez nem Thomas Morus haja ideado quando escreveu o célebre Utopia. Um país sem corrupção; de políticos republicanos, diuturnamente esforçados em defesa do povo que os elegeu. Um lugar de homens públicos honestos, onde a rapinagem inexiste; onde os governantes dormem sono tranquilo, com a certeza de que não serão despertados pela Polícia Federal logo ao amanhecer. Nesse país de tanta limpeza é impossível sequer pensar-se em operações policiais com nomes como lava jato, taturana, calicut, etc. etc.

Tal país não tem a menor necessidade de juízes, muito menos de um como o Sérgio Moro. Com o protagonismo absolutamente decente e correto do parlamento, formado por deputados e senadores de inquestionável decência, correção e honestidade, para que um judiciário? Ah, quão diferente dessa terra é o nosso Brasil, meu amigo. Lá (será que estou mesmo fora do planeta?) na nossa terrinha, ao contrário desse país desconhecido, vivemos tragédia surrealista: o presidente da Câmara Federal foi destituído pelo Supremo Tribunal Federal, e preso na sequência, por corrupção; o presidente do Senado é réu em ação penal, e investigado em outros tantos inquéritos criminais, mas canta vantagens por decisões do Supremo que mais ou menos lhe favorecem; o seu sucessor não lhe fica atrás em problemas policiais. Ah, meu Brasil!
Só posso juntar meu suspiro de desalento ao do Êpa. 

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